30/06/2009 - 07h00

Adorável – a nova coleção de Roberta Sudbrack - junho/2009

  

Na noite desta última segunda-feira tive o privilégio de fazer parte do seleto grupo convidado a conhecer a nova coleção do restaurante Roberta Sudbrack. Juntei-me aos cerca de 20 “premiados” ao redor de uma linda mesa que viria a testemunhar algumas das melhores sensações com que meu paladar já foi brindado. Sei que só tenho trinta anos de estrada. Mas sei também que, ainda que eu viva mais trinta, poucos jantares serão como esse.

Pra quem frequenta esse blog, não é novidade alguma o que penso do trabalho ímpar que Roberta faz em seu restaurante. Poucos cozinheiros saem-se tão bem na arte de revelar a essência dos ingredientes e seus sabores intrínsecos. Mas, vou poupá-los de repetições desnecessárias e limitar-me a falar de seu novo cardápio. Trata-se da coleção Adorável, inspirada na obra “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, de Roland Barthes. Só mesmo de uma relação de amor pode brotar uma obra como a que Roberta realiza.

A grande estrela da nova coleção é o chuchu. A chef entregou-se ao desafio de provar que o menosprezado ingrediente pode brilhar à mesa. Pra isso, desdobrou o “enjeitado” em cinco pratos primorosos.

Camarão com Chuchu – Líquido e Canelone de atum recheado com tartare de chuchu...

  

O prato que ganhou o nome O camarão com chuchu de 1998...

Versão do ensopadinho de camarão com chuchu e, enfim, camarão em lâminas de chuchu e leite de amendoim.

  

Pausa pra suspiros. Muitos.

Em seguida, o prato batizado de O Quintal: ovo caipira pochê, foie gras e trigo tostado, crocante. Personalidade e delicadeza numa só garfada.

  

Legumes, cogumelos, caqui chocolate: a terra traduzida em leveza. Finalmente, a costelinha de porco em baixa temperatura com canjiquinha.

  

Pra não romper o que já está virando uma tradição na minha vida, Roberta me apresenta a mais uma sobremesa que entra pro rol das melhores que já experimentei: Consommé de chocolate amargo, pele de leite e rapadura. Pra encerrar, o calor da broinha de fubá com doce de leite e flor de sal, quase um “afago de vó”.

  

Antes de ir embora, as pessoas paravam diante da cozinha e contemplavam. A impressão era a de que tentavam entender como saíam dali tantas pérolas que desfilaram diante de nossos olhos noite adentro. Talvez não seja mesmo possível entender. Na verdade, nem é preciso. Quando se trata de arte, sentir é o que basta.

  

Roberta Sudbrack - Rua Lineu de Paula Machado 916 – Jardim Botânico

www.robertasudbrack.com.br


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26/06/2009 - 07h00

Salva para os brigadeiros - junho/2009

  

Desde criança sinto uma espécie de culpa por não ser fã de brigadeiro. Como pude ter passado pela infância sem cair de amores pelos docinhos que viravam a cabeça de qualquer criança? Como posso não ter me rendido a um doce tão brasileiro, tão nosso? Sim, eu comia alguns... Mas, mais por culpa de não gostar do que por prazer propriamente.

Até que comecei a perceber que do doce de colher eu gostava... Comia de me lambusar! Ainda pequena, comecei a me aventurar nas panelas pra fabricar meu próprio brigadeiro e comer na fonte mesmo, de colher, comme il faut! E, finalmente, descobri que o que me desagradava profundamente era o tal do chocolate granulado, que de chocolate não tem nada. Vocês hão de concordar comigo: aquilo é açúcar puro. Pronto: estava condenada a só comer brigadeiro na panela pro resto da vida. Como irremediável na vida só a morte, eis que surge em meu caminho alguém pra me provar que a sentença não precisava ser definitiva. Conheci a Laila Caminha na festa de despedida do Carême Bistrô. Laila estudou na Ecole Lenôtre, em Paris e trabalhou na confeitaria do Carême, aqui no Rio. Mas, em vez de entregar-se ao mundo dos macarons e gâteaux, encontrou nos brasileiríssimos brigadeiros sua vocação. E assim criou a Sweet Dreams, em que se dedica a fazer versões cheias de charme do adorado docinho. Como o “brigadeiro atelier”: brigadeiro branco caramelizado e envolto em crispies de chocolate. Um tanto doce, mas vale a mordida. Agora, os meus prediletos são os brigadeiros belgas, ao leite e amargo, que vêm envoltos em chocolate granulado Callebaut. De tirar do sério.

Confesso que cada caixa que encomendo na Laila é aberta com certo ar de transgressão infantil... Como se tentasse voltar no tempo pra recuperar todos os brigadeiros que não roubei das mesas das festas. É... Nunca é tarde pra descobrir novos prazeres.

Sweet Dreams - Encomendas com Laila ou Eugênia, por telefone (21-7635-3951) ou e-mail (sweetdreamsbrigadeiros@gmail.com).
Em breve estará no ar o site www.sweetdreams.com.br


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La Brigada X La Cabrera - junho/2008

Se alguém tem alguma dúvida, fique claro que, nos meus roteiros em Buenos Aires, entre um e outro restaurante de alta gastronomia, há sempre muitos bifes de chorizo. E empanadas, claro; afinal, sou louca por elas! Em matéria de carne, desta vez, elegi duas casas de grande fama pra visitar. Não, entre elas, não estava a Cabaña las Lilas. Primeiro, porque as casas do grupo Rubayat em São Paulo já me deram a noção exata da qualidade de suas carnes e da excelência de seu serviço (que é impecável, nunca é demais lembrar). Acho difícil que a versão portenha tenha muito a acrescentar. Segundo porque eu não queria uma versão luxo da parrilla; buscava algo mais tradicional. Então, como eu dizia, escolhi o La Brigada, em San Telmo, e o La Cabrera, em Palermo.

Sobre o La Brigada já havia lido coisas maravilhosas, o que me gerou uma grande expectativa. E aí... Bem, tá dado o primeiro passo pra se frustrar.

O lugar, lotado de locais e turistas, tem um climão de cantina antiga, aquele ar meio “cafona do bem”, que acho, na verdade, muito divertido: entre as prateleiras, misturam-se vinhos, bolas e camisas de futebol, e mil e uma fotos de jogadores famosos – a grande maioria do Maradona, claro! Mas, pra provar que os portenhos são bem mais amistosos que nós, ta lá uma foto do Pelé. Quando é que encontraríamos, num restaurante brasileiro, uma foto do Maradona?

  

  

Voltando ao que interessa, os bifes de chorizo chegaram absolutamente macios e suculentos, o que o garçom fez questão de deixar bem claro, cortando-os sem usar a faca, mas apenas um garfo e uma colher. Agora, o resto... Bem, todo o resto estava decepcionante. Os pães do couvert, além de ruins, estavam frios. As linguiças (que falta faz o trema!!!) e os embutidos não disseram muita coisa. A sopressata era brincadeira de criança perto da que produz o figuraça Pasquale na sua cantina em São Paulo. As batatas-fritas à provençal, que acompanhavam as carnes, melhor nem comentar... Nem preciso dizer que dispensei a sobremesa... Alguém pode argumentar: mas o lugar é pra comer carne, nada mais! Pode ser, mas, pra mim, isso não justifica o descuido com tudo mais.

  

Mais feliz foi o jantar no La Cabrera. O ambiente é um charme só. Nas paredes, misturam-se telas, cardápios e lindos objetos antigos, além dos pratos e vinhos anunciados num quadro-negro.

  

  

Os cortes de carne suculentos, servidos em grandes tábuas de madeira, chegam à mesa escoltados por uma infinidade de guarnições em pequenos potinhos, algumas excelentes, outras nem tanto: alhos assados, pimentões, batatinhas, berinjelas, feijões brancos com pesto... Confesso: adoro essas coisinhas!

  

Mas o fato é que também não saí em êxtase. Das duas casas esperava mais. E então: alguém me dá o caminho das pedras das boas casas de carnes em Buenos Aires?

La Brigada - Estados Unidos 465 – San Telmo

www.labrigada.com

La Cabrera - Cabrera 5099 - Palermo

www.parrillalacabrera.com.ar


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Não comerei da alface a verde pétala...

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro, dêem-me feijão com arroz

E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão

(Vinícius de Moraes)



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