01/09/2010 - 07h00
O bom do Garcia & Rodrigues

Um lugar sobre o qual me perguntam de forma recorrente, em especial, amigos de fora do Rio, é o Garcia & Rodrigues. Irremediavelmente a mesma questão: “a comida vale a pena mesmo?” Tenho sempre a impressão de que sobre o lado padaria-confeitaria do Garcia & Rodrigues ninguém tem dúvidas; as indagações recaem sempre sobre o lado restaurante...
Tenho que admitir que essa dicotomia se revela na forma com que eu lido com a casa. Pra mim – e, ao que me parece, pra maioria das pessoas – há dois Garcia & Rodrigues. De um lado, o restaurante, que tem ambiente e serviço um tantinho empolados pro meu gosto, e comida boa, mas não exatamente inspirada, nada brilhante. Por essas razões, acabo não me sentindo muito inclinada a voltar mais vezes... Já a outra faceta da casa revela um lado mais iluminado, mais leve e mais vibrante, e apresenta o melhor de Christophe Lidy. O lado empório-padaria-confeitaria-sorveteria, esse me encanta e tem em mim uma habitué.
Ali eu encontro a baguete crocante, a broa de milho macia e saborosa e o perfumado pão de azeitonas que me abastecem sempre. Ali tomo um bom café da manhã nos fins de semana. Ali, às vezes, sento pra nada mais que uma xícara de café acompanhada de um doce. Devo dizer que a pâtisserie não é de primeiríssima linha, mas, pros padrões cariocas, talvez ainda seja o que temos de melhor (sim, é preciso esquecer que já se esteve na França e ser feliz com o que temos por aqui, mas, sem perder de vista a noção de que o Rio de Janeiro ainda está engatinhando quando o assunto é pâtisserie...). Guardadas essas ressalvas, é lá que encontro deliciosos financiers, ótimas queijadinhas e pastéis de Belém, algumas tortas bem gostosas. E, nos últimos tempos, até macarons. Não, não se parecem com os franceses no que se refere à massa. Aliás, há algum tempo, já desisti de encontrar por aqui macarons cuja massa cresça o suficiente e tome a consistência dos exemplares franceses. Mas, deixando de lado essa questão, os do Garcia & Rodrigues são bons, muito bons. À exceção dos de pistache, feitos com uma base muito artificial, os outros dois sabores que experimentei (maracujá e chocolate) mereciam bis. Especialmente por um detalhe que, pra mim, faz toda a diferença: o recheio não é feito com creme manteiga – que eu, particularmente, detesto –, mas com ganache.

  
  
Enfim, é lá que eu encontro, ainda, os ótimos chocolates de Christian Mattos (da Les Amants du Chocolat). E pra encerrar, o Garcia tem também um serviço de sorveteria que considero o melhor do Rio. Em nenhuma das sorveterias badaladas da cidade – e eu gosto muito de algumas delas – eu encontro sorvetes como os do Garcia: completamente artesanais, com textura cremosíssima, daqueles que começam a derreter ao simples toque da taça. Os sabores variam constantemente, mas dificilmente consigo sair das escolhas de sempre, que oscilam entre caramelo, mel, café e nougat.


Enfim, é nessas facetas que, pra mim, está o bom do Garcia & Rodrigues. É por elas que volto sempre.
Garcia & Rodrigues – Av. Ataulfo de Paiva 1251, Leblon
www.garciaerodrigues.com.br
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25/08/2010 - 03h00
Enosfera: refeições despretensiosas na charmosa enoteca do Leblon
  
Estive na Enosfera logo que inaugurou, um projeto de Luciano Pessina e Alessandro Cucco (da Osteria dell’ Angolo). A casa, algo como um misto de loja de vinhos e bar de tapas à italiana, caminha pra completar dois anos de vida e, desde sua abertura, muita coisa mudou. A começar pela administração, que passou às mãos do fotógrafo Sergio Pagano (no salão) e do chef Roberto Dalla Corte (na cozinha). O cardápio foi remodelado. No diminuto salão — que continua um charme —, as poucas mesas comunitárias deram lugar a algumas mesas individuais. E, pelo que me disse o próprio Pagano em dezembro passado, o cenário viria ganhando ares de balada no turno da noite, quando um DJ entra em cena.
  
Quanto à minha relação com a Enosfera, não mudou muito desde a primeira vez. Continuo preferindo ir durante o dia, quando tudo é mais calmo, silencioso e iluminado (confesso que o lado "balada" da boutique de vinhos eu não fui conferir...). E continuo adotando a mesma prática sempre: jamais vou pra almoçar propriamente (embora os preços do almoço executivo de segunda a sexta estejam muito convidativos); acabo sempre optando por passear pelo menu de entradas, numa refeição despretensiosa, mas, em geral, bem sucedida. Confesso que as “tapas” italianas dos primeiros dias, que ficaram pouco tempo em cartaz, me pareceram melhores do que as que vieram depois, com a reformulação – lembro-me, em especial, da sarde in saor, que era sensacional e jamais me saiu da memória... Mas o cardápio segue enxuto e bem resolvido, perfeito pro uso que gosto de fazer dele.
Na minha última investida, começamos com a salada de polvo mediterrânea, que trazia polvo, batatas, lascas de aipo, azeitonas e tomatinhos. Cheia de leveza e frescor, embora faltasse sabor...

Em seguida, a ótima burrata veio acompanhada de um pesto aveludado e das sensacionais cebolas de Tropea (trazidas em conserva), que são de uma doçura comovente. Experimentei-as pela primeira vez em janeiro, no BottaGallo, e não deixei de pensar nelas por um minuto sequer. De lá pra cá, foi somente na Enosfera que as reencontrei. Quando bati os olhos no cardápio, não pensei duas vezes. Qualquer que fosse o prato que trouxesse as doces cebolas roxas seria bem recebido em minha mesa...
  
Assim foi com a Degustação de Linguiças, que também as trazia, ao lado de azeitonas, coadjuvando a bela seleção de lingüiça italiana e chorizo.

O desfecho natural seria um tiramisù ou uma panna cotta. Mas, parei por aí e saí sem sobremesa. Antes que aqueles que me conhecem bem (e sabem que não saio de lugar algum sem sobremesa...) pensem que enlouqueci, esclareço: minutos antes tinha tido a notícia de que a sorveteria do Garcia & Rodrigues, a poucos passos dali, havia voltado a funcionar a pleno vapor e não pude me conter; precisava ir até lá. Mas isso já é assunto para um próximo post...
Enosfera – Av. Gal. San Martin 1241 - Leblon
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19/08/2010 - 08h00
Pequenos Vícios
Adoro rituais. Sou um ser movido a rituais. E sou cheia de manias. Quando gosto de determinadas coisas, sou capaz de atravessar semanas repetindo-as à exaustão. É assim com música, por exemplo. De tempos em tempos, elejo certos discos que ouço obsessivamente. Se gosto de uma faixa em especial, não consigo evoluir, fico igual a disco arranhado, que não sai do lugar. Nesses dias frios que andam rondando o Rio de Janeiro só tem dado a voz de Chet Baker no meu iPod. Há uns 15 dias que ouço sem parar... Enfim, com as comidinhas que povoam meu dia a dia também é assim. Vou alternando ciclos de predileções. A cada temporada, eu me dedico a repetir pequenos vícios. À exaustão.
Assim é que há alguns meses eu não consigo eleger outra forma de cumprir um ritual que adoro: uma pausa preguiçosa no meio do dia. Tirar uns minutinhos pra sentar num café, numa padaria, numa confeitaria e deixar a vida em suspenso. Acho importante, sempre que possível, fazer essas pequenas pausas no ritmo de um dia. E, como ia dizendo, há alguns meses que não consigo fazê-las de outra forma: invariavelmente, dou uma paradinha na Beth Chocolates, peço um leggero e um brigadeiro amargo. Outro dia caiu a ficha de que ando me repetindo demais. Cheguei no balcão, pedi um leggero e a menina que me atendia completou: “e um brigadeiro amargo, certo?”. Quase morri de vergonha...

Outro ritual que adoro cultivar é o de me abastecer de revistas de viagem e gastronomia ou de guias dos meus próximos destinos pelo mundo e mergulhar no meu sofá, devidamente acompanhada de alguma coisinha pra mastigar entre uma página e outra. E essas “coisinhas”, claro, também costumam seguir aquele mesmo mecanismo da repetição... Entre os vícios que tenho cultivado, estão as mixed nuts da boutique Aquim, uma sensacional mistura de amêndoas, castanhas, avelãs, passas, deliciosamente caramelizadas e impregnadas de especiarias, com um toque meio apimentado coroando tudo. Só consigo parar de comer quando acabam...
  
... e os pacotinhos de corn flakes cobertos de chocolate do Celeiro. Sei que é uma bobagem, que dá pra fazer em casa fácil, fácil. Mas adoro encontrá-los prontinhos, embrulhadinhos, esperando por mim.
  
Butique Aquim - Avenida Ataulfo de Paiva 1321 - Leblon
www.aquimgastronomia.com.br
Celeiro – Rua Dias Ferreira 199 - Leblon
www.celeiroculinaria.com.br
Beth Chocolates – Loja 309 A do Shopping Leblon (Av. Afrânio de melo Franco 290) – Leblon
www.bethchocolates.com.br
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Não comerei da alface a verde pétala...
Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro, dêem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão
(Vinícius de Moraes)