08/03/2010 - 00h40
O mezzogiorno do Fasano al Mare - março/2010

Estive, em janeiro, no Fasano São Paulo, num jantar abaixo das minhas expectativas, como contei aqui. Pouco mais de um mês depois, num almoço no Fasano al Mare, foi inevitável traçar um paralelo entre as duas casas, a paulista e a carioca. A todo momento, as comparações me assaltavam. Ainda que involuntariamente...
O salão do Fasano al Mare não é tão bonito e impactante como o da matriz em São Paulo. Por outro lado, é menos sisudo, mais leve, mais iluminado. De frente pra praia de Ipanema, sofre a natural influência do ambiente onde está inserido.
  
A cozinha é comandada por Luca Gozzani, egresso da Enoteca Pinchiorri, em Florença, um dos grandes ícones da gastronomia italiana. No cardápio, entre massas e risottos, brilham os peixes e frutos do mar. No horário de almoço, de segunda a sexta, há o mezzogiorno, fórmula que inclui entrada, prato e sobremesa por R$78,00. Fui de mezzogiorno.
No couvert, grissinis e pães. Entre eles, um pãozinho de cebola sensacional. Poderia comer quilos daquele pão.

De entrada, delicadas lulas acompanhadas de saborosos gnocchis de azeitonas pretas.

Em seguida, um bom risotto de limão com camarões, que seria ainda melhor se não tivesse vindo tão carregado no limão...

A carta de sobremesas me pareceu um tanto monótona. Merengue italiano, creme brulê, sorvete, petit gâteau. Pois bem. Entre escolhas banais, fomos surpreendidas pela maestria com que foram executados os nossos pedidos. O creme brulê de frutas vermelhas estava um veludo. E o petit gâteau, sobremesa banalizada ao extremo nos cardápios em cena por aí (e, que, em geral, me recuso a pedir), foi um dos melhores que já experimentei. Talvez, justamente, por não ser tecnicamente um petit gâteau. Era uma massa de amêndoas crocante por fora e fofíssima por dentro, recheada de um creme fumegante de chocolate branco e limão siciliano. À parte, um belo sorvete de chocolate. Nem precisava.
  

Antes da conta, deliciosos biscoitinhos pra acompanhar o café. Embora muitos restaurantes ignorem ou negligenciem essa etapa, considero importantíssimo o desfecho de uma refeição.

O fato é que, do couvert aos petit fours, apesar de um ou outro deslize, comi melhor aqui do que no Fasano São Paulo. Ao menos, saí com essa sensação. Seria o detalhe de ter desembolsado uma quantia, digamos, mais palatável? Ou a questão de não nutrir expectativas tão altas como as que nutria quanto à casa mãe? Ou, afinal, será que foi a proximidade do mar que fez bem ao Fasano?
Fasano al Mare – Av. Vieira Souto 80 – Ipanema
www.fasano.com.br
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02/03/2010 - 09h00
A doce vida em Barcelona - março/2010
Remexendo meus arquivos outro dia, percebi que, em outubro passado, ao revelar por aqui minhas andanças em Barcelona, falei dos melhores bares de tapas, contei das minhas refeições no Moo e no Espai Sucre e, imperdoavelmente, me esqueci de mostrar meu roteiro pelas confeitarias e chocolaterias da cidade. Falha grave. Logo eu que sou enlouquecida por doces e não passo sem eles em lugar algum! Então, lá vai. Antes tarde do que nunca...
Como em toda viagem que faço, o tempo me deu uma rasteira e acabei não conferindo lugares obrigatórios, como a loja de chocolates de Enric Rovira e a boutique de Oriol Balaguer. Mas, viagem é isso mesmo: nunca dá tempo de ver tudo o que se quer. Quem sabe quando o dia tiver mais de 24 horas, eu viro esse jogo...
Uma das primeiras na minha lista foi a tradicional confeitaria Escribà. O que tem de antiga tem de famosa. Um clássico de Barcelona. Parte de sua fama se deve ao trabalho inventivo de Christian Escribà, conhecido por transformar a confeitaria em espetáculo, concretizando o lema da casa: “No solo hacemos pasteles, creamos ilusiones”. Curiosamente, uma decepção minha passagem por lá. Os doces eram até bonitos, mas uma bobagem... Nada de especial.

  
Bom mesmo foi admirar o imóvel, verdadeira jóia modernista.
  
  
Muito melhor foi minha incursão na Bubó, a moderna confeitaria de Carles Manpel no coração do Borne.
  
Tudo ali era lindo, lúdico e encantador. Quase tudo era delicioso. Jamais me esqueço das bolinhas vermelhas que se revelaram lichias geladíssimas recheadas de uma leve mousse de chocolate branco.
  
  
  
Outra que eu, obviamente, não deixaria de visitar é a Cacao Sampaka, loja onde absolutamente tudo é a respeito do cacau e seu derivado.
  
  
Ao fundo, um charmosíssimo bar onde se pode sentar para degustar delícias a base de chocolate.
  

Deu tempo, ainda, de conferir a Caelum, escondidinha entre as vielas do centro histórico. A loja, com ar de viagem ao passado, vende exclusivamente produtos fabricados em conventos pela Espanha afora.
  
  
Há, ainda, um salão com uma mesinha ao fundo, expondo algumas coisinhas que se podem provar ali mesmo. Nem tudo é incrível, mas, garimpando, encontram-se verdadeiras relíquias como as Yemas de Santa Clara, que mereceriam uma oração em sua homenagem, de tão boas que são... Confesso que me arrependo até hoje de só ter trazido uma caixa pra casa. Deveria ter comprado um estoque...

  
Escribà – Rambla de les Flors 83. Também na Gran Vía.
www.escriba.es
Bubó – Caputxes 10
www.bubo.ws
Cacao Sampaka – Carrer Consell de Cent 292
www.cacaosampaka.com
Caelum – Carrer Palla 08
24/02/2010 - 07h00
Duplo sotaque na feijoada do 66 Bistrô - fevereiro/2010

Bistrô francês servindo feijoada? Isso mesmo. O 66 Bistrô, casa comandada por Thomas Troisgros no Jardim Botânico, vem se consagrando como uma das melhores opções pra feijoada de sábado no Rio. No charmoso jardim de inverno do bistrô, em paralelo ao cardápio usual, monta-se um buffet onde se servem, lado a lado, a feijoada brasileira e o cassoulet, a deliciosa versão francesa do prato.
  
Tão logo se anuncia a opção pelo buffet, um saboroso caldinho de feijão chega à mesa pra lhe dar as boas-vindas...

Mas, antes de começar o ritual, não dá pra dispensar uma porção das boas gougères da casa...

Só depois disso é que me entrego ao colorido da mesa das feijoadas.

O feijão preto à brasileira vem com os acompanhamentos de sempre, com o detalhe de que a farofa é feita com panko (farelo de pão japonês). Muito gostosa, mas ainda fico com a nossa boa e velha farinha de mandioca. O grande diferencial é que se tem a opção de saborear também a feijoada francesa, que eu, particularmente, adoro. E o cassoulet de Thomas é dos bons.
Deixo aqui um conselho: da feijoada vá direto pro cafezinho e a conta. As sobremesas (pelo menos as que passaram pela minha mesa no dia em que estive lá), apesar de lindas, mostraram-se absolutamente dispensáveis.
  
66 Bistrô – Rua Alexandre Ferreira 66
Jardim Botânico
www.66bistro.com.br
Não comerei da alface a verde pétala...
Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro, dêem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão
(Vinícius de Moraes)
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