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Terça, 15 Agosto 2017

yam'Tcha, em Paris: no tempo da delicadeza

yam'Tcha Paris

Cinco minutos foram o bastante pra que eu me sentisse transportada pra outro plano. A beleza do salão, as flores de cardo na janela, as xícaras de Oolong de boas-vindas faziam com que os ruídos da rua parecessem estar muito distantes de nós. Durante um par de horas, o discreto balé do serviço e a elegância da culinária franco-chinesa concebida por Adeline Grattard reafirmariam a impressão de um lugar especial, cuja cadência não se submete ao ritmo imposto do lado de lá da porta de entrada. No yam’Tcha, todos os detalhes revelam um profundo exercício de delicadeza.

yam'Tcha Paris

yam'Tcha Paris

Acomodada diante da cozinha aberta, eu observava a concentração e a firmeza de Grattard no comando da operação, e compreendia o resultado impecável. Da composição dos pratos à proposta de harmonização com vinhos e chás, tudo evidenciava precisão e equilíbrio.

yam'Tcha Paris

O creme de milho com queijo cremoso era resposta à altura aos melhores curaus que já experimentei.

yam'Tcha Paris

O creme de foie gras tinha a companhia de cogumelos de Paris, cèpes salteados e molho de savagnin.  Desconfiei quando anunciada a harmonização com um Pu-Erh de 6 anos, mas me rendi ao primeiro gole.

yam'Tcha Paris

yam'Tcha Paris

Houve ainda um frango suculento com delicioso molho cujos detalhes minha memória já não alcança – perderam-se na espuma dos meses que me separam daquele almoço.

yam'Tcha Paris

O frescor do sorbet de pera, de textura perfeita, com molho de gergelim preto e crocantes de gergelim, anunciava o princípio do fim.

yam'Tcha Paris

Em seguida, sorbet de framboesa sobre biscoito de especiarias, com figo e framboesas frescas.

yam'Tcha Paris

As mignardises (choux, guimauve de coco, chocolate) selariam a lembrança de uma dessas refeições que nos deixam a sensação de que nada é artificial, nada é excessivo, tudo está no lugar certo.

yam'Tcha Paris

 

yam’Tcha - 121 rue St. Honoré  - 1er arrondissement.

www.yamtcha.com

Terça, 11 Julho 2017

Uma nova geração de padeiros no Rio de Janeiro: Araucária Pães Artesanais e Maison do Zé

                    “Debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão”

(Chico Buarque - Milton Nascimento)

 

No Rio de Janeiro de uma década atrás, o que se forjava no trigo estava longe de ser milagre. O panorama da panificação carioca não era exatamente animador. Sempre houve exceções, gente disposta a ir além do baixíssimo padrão reinante. Mas nada que se comparasse à mudança de cenário que teve início há poucos anos com o trabalho sério de algumas padarias artesanais, entre as quais a The Slow Bakery vem se tornando a maior referência. De lá pra cá, felizmente temos visto surgir uma nova geração de padeiros empenhados em tirar de vez a cidade das trevas da panificação.

É o caso de José Pedro Fonseca (ou apenas Zé, como ele prefere ser chamado), Gabriel Magalhães e Tito Pal, da Maison do Zé, e de João Pessanha, da Araucária Pães Artesanais – a quem cedo a palavra no post de hoje. Entre tantos representantes dessa nova geração de padeiros, os que escolhi entrevistar têm trajetórias intimamente ligadas e uma grande afinidade na forma como se relacionam com a gastronomia: seu foco está no constante aperfeiçoamento, na partilha de conhecimento e na democratização do acesso à boa comida. Uma abordagem livre e generosa do ofício, o que, de certa forma, ousa contrariar a lógica de um mercado profundamente competitivo e ainda tão permeado por surrados conceitos de exclusividade e glamour.

Com a palavra, João, Tito, Gabriel e Zé (perdoem o amadorismo do vídeo; o importante é ouvir o que eles têm a dizer).

Araucária Pães Artesanais - vendas na Junta Local

Maison do Zé - Rua São José 35 - sobreloja - n. 227 (no mezanino do Terminal Menezes Cortes). Almoços às quartas-feiras; padaria e sanduíches às sextas-feiras. Vendas também na Junta Local.

Terça, 20 Junho 2017

Barcelona: uma cidade, muitas fomes

Barcelona

Na última passagem por Barcelona, percebi que há quase uma década venho seguindo um ritual em todas as visitas à cidade: ao chegar, a primeira refeição acontece invariavelmente no Cal Pep, um dos meus balcões favoritos no mundo.

Em março, quando lá estive pra acompanhar a terceira edição do Parabere Forum, não foi diferente. Deixei a bagagem no hotel e segui imediatamente pra Plaça de les Olles, sabendo exatamente o que desejava comer: almejas, croquetas, tortilla – a melhor de que tenho notícia. Ali, a memória jamais me traiu: à minha espera, sempre o mesmo ambiente vibrante, a mesma comida impecável, tudo intensificado pelo prazer do reencontro.

Cal Pep Barcelona

Cal Pep Barcelona

Cal Pep Barcelona

Com a saudade remediada no almoço, eu me permiti tomar novos rumos no jantar. Fui conhecer a Bodega 1900, bar onde Albert Adrià homenageia as tradicionais bodegas. Faz isso à sua maneira, o que significa dizer que instalações, serviço e cozinha estão além do que se poderia esperar de um “boteco”.

Barcelona Bodega 1900

Barcelona Bodega 1900

Ao longo de um par de horas, sem me dar conta, eu me indagava se o celebrado bar de Adrià era capaz de me proporcionar tanto prazer quanto o bom e velho balcão predileto. A resposta era vacilante. As croquetas da Bodega 1900, por exemplo, jamais resistiriam a tal comparação. O mesmo se diga dos grãos de bico com polvo e pé de porco. Já o pan con tomate da casa, delicado e crocante, era imensamente superior a boa parte dos exemplares que já experimentei nos bares catalães. Uma lição de como o simples se agiganta quando executado com maestria. Comi quatro deles e comeria outros mais se a prudência não me houvesse impedido. A mesma superioridade se evidenciava na oferta de sobremesas. A tarta de queso, acompanhada de sorvete de baunilha, era especialmente boa, um veludo.

Barcelona Bodega 1900

Barcelona Bodega 1900

Barcelona Bodega 1900

Barcelona Bodega 1900

Ao fim da noite, a dúvida se instalou: fazia sentido a comparação? Seria necessária ou ao menos útil? Naquele momento me pareceu apenas um exercício tolo, estéril. Por que ceder a ele, se os desejos que nos movem são tão cambiantes, se nos levam a diferentes escolhas, dependendo de nosso estado de espírito ou de tantas outras circunstâncias? Por que limitar as possibilidades se a cidade as amplia? A sorte de estar num lugar como Barcelona, capaz de saciar tantas e diferentes fomes, há de ser celebrada somando, não subtraindo.

Cal Pep - Plaça de les Olles, 8

https://www.calpep.com/

Bodega 1900 - Carrer de Tamarit, 91

https://www.bodega1900.com/

Quinta, 04 Maio 2017

Aïoli no Bistrot du Paradou

Le Bistrot du Paradou

Instalado num belo casarão em Maussane-les-Alpilles, um desses vilarejos provençais que parecem perdidos no tempo, o Bistrot du Paradou é o tipo de restaurante que vale a viagem. Peço desculpas pelo clichê, mas aqui ele se justifica, pois me refiro a uma experiência que dificilmente se poderia reproduzir em outro lugar.

Le Bistrot du Paradou

Le Bistrot du Paradou

O menu único inclui entrada, queijos e sobremesa, além do prato principal, que varia a cada dia da semana. Minha visita aconteceu numa sexta-feira, dia de aïoli, a maionese rústica de alho que é receita típica da região.

Le Bistrot du Paradou

Eu poderia falar sobre a deliciosa salada de tomates, cebolas, pimentões, anchovas em conserva e azeitonas pretas, que já nos aguardava sobre a mesa quando chegamos. Havia ainda pães recém-assados, azeitonas verdes das proximidades de Orange e azeite A.O.P. produzido ali mesmo, em Maussane. Comer local é coisa séria naquelas paragens.

Bistrot du Paradou

Bistrot du Paradou

Bistrot du Paradou

Sem dúvida, devo falar sobre o aïoli, feito com o mesmo azeite que acompanhava a salada. De sabor profundo, embora extremamente delicado, nele mergulhamos cenouras, couve-flor, batatas, ovos cozidos, bacalhau e escargots.

Bistrot du Paradou

Bistrot du Paradou

Bistrot du Paradou

Bistrot du Paradou

Poderia ainda ressaltar que as sobremesas ficam muito aquém dos pratos. Mais vale abrir mão delas e encerrar com a excelente seleção de queijos da casa. 

Bistrot du Paradou

Bistrot du Paradou

Mas, acima de tudo, é sobre a atmosfera daquele lugar que preciso falar. O aïoli no Bistrot du Paradou, mais que uma refeição, é uma celebração. Uma festa. Nas grandes mesas, grupos tagarelavam, riam e até cantavam. Meu almoço ali foi daqueles momentos em que se vislumbra na comida um instrumento de verdadeira comunhão.

Le Bistrot du Paradou

Le Bistrot du Paradou - 57, av. de la Vallée-des-Baux – Maussane-les-Alpilles

Quarta, 19 Abril 2017

A Casa do Porco Bar: Jefferson Rueda finalmente em casa

A Casa do Porco

Visitei algumas vezes o Attimo durante o período em que Jefferson Rueda esteve no comando da cozinha. Sempre comi muito bem, mas era palpável a desconexão entre o ambiente do restaurante e sua proposta culinária. A sensação era a de que o chef não se sentia em casa. O que ficou ainda mais claro pra mim quando estive, há alguns meses, em sua nova morada.  Na Casa do Porco, Rueda é grande porque ali pode ser inteiro.

Instalado no Centro de São Paulo, a poucos passos do Edifício Copan, onde sua mulher, Janaína Rueda, comanda o Bar da Dona Onça (um dos meus lugares favoritos na cidade), o cozinheiro está à vontade: numa verdadeira ode à anatomia suína, serve comida impecável em ambiente democrático e a preços palatáveis.

A Casa do Porco

Assim que nos acomodaram na parte externa, fomos informados de que o menu De tudo um porco (sequência com diversos  itens do cardápio em pequenas porções) poderia ser servido ali, na calçada, sem firulas. E não há a exigência de que todos à mesa optem por ele. Eis um dos grandes méritos da Casa do Porco: fazer-nos lembrar que o artesanato culinário pode ser concebido com criatividade, refinamento e simplicidade a um só tempo, e que a grande cozinha não precisa estar cercada de rituais excessivos, nem atada a um surrado conceito de exclusividade.

A Casa do Porco

Enquanto decifrávamos a extensa ementa (num primeiro momento me pareceu até extensa demais, o que quase sempre é um risco), pedimos uma porção com algumas das linguiças de produção própria, acompanhadas de cavolo nero, repolho e farofa de cebola. Deliciosas. A de molejas ainda não me saiu da memória.

a casa do porco

Sucumbimos enfim ao menu-degustação. O percurso começou com embutido de cabeça de porco e presunto cozido, acompanhados de pão da casa, mostarda, picles e compota de cebola com bacon. Em seguida, bocados como tostada de morcilla com tangerina (a profundidade de sabor da linguiça dialogando com o frescor da fruta), croquete e delicado pão no vapor com barriga de porco.

a casa do porco

a casa do porco

a casa do porco

a casa do porco

Não se pode deixar de mencionar o feliz casamento do torresmo de pancetta com goiabada picante. 

a casa do porco

Ao fim da sequência, uma das grandes estrelas do cardápio: Porco San Zé, assado por alguns pares de horas, úmido, pele crocante, um assombro. Chega na companhia de tutu de feijão, tartar de banana, couve e farofa.

a casa do porco

a casa do porco

Antes de me despedir, fui ao encontro do indefectível pudim de leite da chef confeiteira Saiko Izawa, que acompanha Rueda desde os tempos do Attimo.

a casa do porco

O almoço aconteceu numa tarde de domingo, horas antes de embarcar de volta ao Rio de Janeiro. No trajeto em direção ao aeroporto, meu marido sintetizou o prazer daquela refeição: "Pegaria a ponte aérea só pra comer ali de novo."

 

A Casa do Porco Bar – Rua Araújo 124 - Centro

 

 

 

 

Quarta, 05 Abril 2017

Provence: o mercado de Saint-Rémy

Marché Saint-Rémy-de-Provence

No começo do mês passado, passei alguns dias na casa de meus tios em Raphèle-les-Arles, na Provence, onde valorizar produtos locais não é modismo, mas algo naturalmente incorporado às rotinas das pessoas. Essa filosofia posta em prática cotidianamente projeta-se nos espaços públicos através dos muitos mercados de rua, que acontecem em diversas edições semanais.

Marché Saint-Rémy-de-Provence

Marché Saint-Rémy-de-Provence

Marché Saint-Rémy-de-Provence

Em minha visita anterior ao sul da França, estive no marché de Arles e jamais me esqueci do perfume de azeitonas que tomava conta do lugar. Desta vez, fui conhecer o de Saint-Rémy, que é um dos mais famosos da região. Buquês de lavanda, mudas de oliveiras, azeitonas de diversos tamanhos e cores, azeites do vale de Baux-de-Provence, embutidos, queijos de cabra de produção local, como o Banon e o Picodon. Por toda parte, havia placas com a identificação da procedência dos produtos – e ninguém acha que vai salvar o mundo fazendo isso; fazem porque sempre fizeram, porque é natural que seja assim quando se valoriza o que há por trás da comida.

Marché Saint-Rémy  Marché Saint-Rémy

Marché Saint-Rémy  Marché Saint-Rémy

Marché Saint-Rémy  Marché Saint-Rémy

mercados provençais  mercados provençais

 Marché Saint-Rémy Marché Saint-Rémy-de-Provence

Meus tios, que vivem na Provence há quatro décadas, não frequentam restaurantes estrelados no guia Michelin, nem estão a par das novidades recentes no ranking da revista inglesa Restaurant, mas os caminhos das feiras sabem na ponta da língua. E, embora nem desconfiem disso, suas práticas à mesa não podiam estar mais de acordo com o que anda em voga mundo afora. O azeite consumido em sua casa é comprado em um vizinho, que é produtor. Os ovos vêm das galinhas do quintal de outra vizinha. Alecrim há aos montes nos jardins dos arredores. Cogumelos o tio colhe pessoalmente. Mostrou-me o manual em que estuda as espécies pra não correr o risco de trazer pra casa algum que não seja comestível. E me levou a conhecer as estradas onde põe em prática o que aprende nos livros.

Pensei em contar a eles como estão afinados com o que há de mais atual nas listas de tendências gastronômicas divulgadas nos últimos anos. Certamente achariam graça.

 

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