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Segunda, 17 Novembro 2014

Sullivan Street Bakery: uma das melhores maneiras de começar o dia em Nova York

Sullivan Street Bakery

Entre os muitos endereços onde gosto de começar o dia em Nova York, um dos meus favoritos é a Sullivan Street Bakery. É minha padaria do coração em Manhattan. Frequento desde que era somente uma portinha na rua 47 (o endereço anterior, inaugurado no Soho na década de 90, não cheguei a conhecer). A portinha continua lá, mas, desde 2012, à pequena loja em Hell’s Kitchen somou-se uma nova filial no Chelsea, mais espaçosa e com café anexo. Foi ali que passei algumas das minhas manhãs nessa última visita à cidade.

Sullivan Street Bakery

Seus pães estão entre os melhores da ilha. Não bastasse isso, eles surgem em ótima companhia no cardápio do café da manhã. Pra mim, que acredito que pão com ovo é uma das melhores combinações já concebidas pelo homem, foi uma alegria encontrar uma seleção de panini d’uovo numa padaria daquela qualidade. Em comum, os sanduíches têm os cremosos ovos mexidos e o soberbo pão de crosta dourada e crocante, feito a partir da mesma base que dá origem à ótima pizza bianca da casa. Os demais ingredientes (queijos, prosciutto, verduras) variam em algumas versões. Minha preferida foi justamente a mais simples delas: além dos ovos, apenas cebolas caramelizadas.

Sullivan Street Bakery

Recomendo não partir sem uma incursão na ala doce do balcão. As tortas de frutas costumam ser ótimas. Não posso deixar de falar também dos deliciosos bomboloni de baunilha, que são ainda melhores logo que saem do forno, quando se percebe bem a leveza da massa, recheada com delicado creme de baunilha.

Sullivan Street Bakery

Sullivan Street Bakery

Na Sullivan, não há dia que se inicie em vão.

 

Sullivan Street Bakery - 236 9th Ave -  Chelsea

www.sullivanstreetbakery.com/

Segunda, 10 Novembro 2014

Roberta’s, no Brooklyn: mais que uma pizzaria

Roberta's Brooklyn

Eu poderia abrir esse texto dizendo que quem passa diante da insuspeita portinha vermelha na Moore Street não supõe o tremendo restaurante que ela esconde. Seria mero exercício de retórica, já que o Roberta’s se tornou um dos mais comentados endereços do Brooklyn nos últimos anos. A julgar por minha recente visita, eu diria que a casa faz mesmo jus a cada linha elogiosa publicada a seu respeito.

Roberta's Brooklyn

Roberta's

É difícil descrever o lugar, que tem vários ambientes diferentes e atmosfera ímpar. Das mesas coletivas de madeira às luzinhas coloridas penduradas displicentemente, dos acabamentos cheios de remendos ao figurino dos garçons, tudo poderia deixar a  impressão de se tratar de mais um daqueles lugares calculadamente desalinhados, cheios de atitude, mas nem tanto conteúdo. Falsa ideia. Ao sair dali, você já terá entendido o espírito da coisa. Mais que parecer, o Roberta’s quer ser.

Roberta's

Roberta's

A fama do endereço vem das centenas de pizzas que saem diariamente do forno a lenha na entrada do salão. São realmente incríveis. Mas a simples leitura do cardápio revela haver mais que isso na cozinha do chef Carlo Mirarchi - que, aliás, mantém, anexo ao Roberta's, o celebrado "Blanca", onde serve disputados menus degustação.

No primeiro ato - pão e manteiga feitos na casa -, o restaurante já dizia a que veio. Quem serve pão e manteiga daquela qualidade só pode levar comida muito a sério.

Roberta's

Em seguida, um prato tão simples quanto delicioso: abóboras assadas, boudin noir, beurre noisette. Matéria-prima superior, delicadeza na execução, diálogo entre os sabores.

Roberta's

Chegamos, enfim, às pizzas. Massa excelente. Novamente, ingredientes primorosos nas coberturas, a começar pela mozzarella, de produção própria. Ao lado dela, molho romesco, linguiça defumada e cebola na versão intitulada “Paparizza”. Na “Famous Original”, além da mozzarella, molho de tomate, caciocavallo e pimenta.

Roberta's

Roberta's

Comida descomplicada e impecável num ambiente sem pretensão, sem protocolo, mas cheio de personalidade. O tipo de lugar onde tem me interessado, cada vez mais, saciar minha fome.

 

Roberta’s - 261 Moore St – Brooklyn

http://www.robertaspizza.com/

 

Quarta, 22 Outubro 2014

De volta ao Bar da Dona Onça

Bar da Dona Onça

São muitos os motivos que me levam de volta ao Dona Onça. Antes de tudo, o lugar em si. Instalado no térreo do icônico edifício Copan, o bar da chef Janaína Rueda é um manifesto de celebração do centro de São Paulo. No salão, certa elegância de bar antigo se mistura à tremenda irreverência que é marca registrada de sua dona, o que se traduz num ambiente único. Ainda que fosse só pelo lugar, eu voltaria sempre. Mesmo que a ementa fosse desinteressante ou que a comida fosse má. Felizmente, não é o caso.

Bar da Dona Onça

Bar da Dona Onça

O jeito de comer à brasileira é fio condutor de um cardápio de fôlego, que vai dos excelentes petiscos aos arrozes, dos PFs às sopas, passando por uma seleção de massas e culminando num extenso rol de pratos de carne, onde há desde frango com quiabo até dobradinha. Me pergunto se a cozinha transita por todos esses caminhos com igual desenvoltura. Não estive lá tantas vezes a ponto de ter a resposta. O fato é que, nas visitas que fiz ao longo dos últimos anos, jamais testemunhei deslizes – talvez alguma inconsistência nas sobremesas, que me parecem um tom abaixo da cozinha salgada.  Há pouco mais de um mês, durante uma semana a trabalho no centro da cidade, a fome me levou ao bar duas vezes. Fui feliz em ambas.

Gosto particularmente dos petiscos e pratos que homenageiam a comida mais caseira. Coisas que não encontramos tão facilmente em restaurantes, como couve-flor à milanesa e bolinhos de espinafre – é preciso falar dos bolinhos de espinafre do Dona Onça, extremamente delicados e saborosos. Um tipo de comida muito presente na mesa da minha mãe e que, portanto, é sempre um conforto reencontrar.

Bar da Dona Onça

Bar da Dona Onça

Os croquetes de carne de panela, muito gostosos, são também merecedores de todas as loas.

Bar da Dona Onça

O prazer particular que me trouxeram os bolinhos de espinafre repetiu-se com o arroz de fígado acebolado. Ali, a lembrança foi ainda mais longe e me levou às iscas de fígado da infância na casa da avó. Na versão de Janaína, elas chegam cheias de sabor, num molho intenso que umedece o arroz. As cebolas ora surgem crocantes, ora caramelizadas. Um belo ovo frito deixa o prato ainda melhor.

Bar da Dona Onça

Filhos de outras mães, netos de outras avós talvez não vislumbrem naquele repertório tantos significados, mas apenas a oportunidade de uma ótima refeição. Pra mim, é mais que isso. É a possibilidade de encontrar na comida a tão fundamental conexão com a memória.

 

Bar da Dona Onça – Avenida Ipiranga, 200 - Edifício Copan, lojas 27 e 29 – Centro –São Paulo.

http://bardadonaonca.com.br/

Segunda, 13 Outubro 2014

Casa Mathilde: pra ver a cidade

Casa Mathilde São Paulo

Fazia tempo que eu queria visitar a Casa Mathilde, doçaria portuguesa inaugurada no centro velho de São Paulo no ano passado. O desejo era alimentado por meu apreço pelos doces portugueses, mas também pelo fato de estar a loja numa região que há muito eu tinha vontade de conhecer.  Sou fascinada por centros antigos de cidades grandes. Mesmo quando decadentes, costumam guardar uma elegância que quase sempre se perde no crescimento desenfreado das selvas de concreto. Em São Paulo não é diferente.

A praça onde está instalada a confeitaria é pura poesia urbana. O relógio, as bancas à moda antiga, o soberbo edifício Martinelli, tudo isso está ao alcance dos olhos de quem se acomoda numa das mesas do segundo andar, diante de suas paredes envidraçadas. Foi exatamente onde me acomodei.

Casa Mathilde São Paulo

Casa Mathilde São Paulo

Casa Mathilde São Paulo

Com os olhos colados na janela, imaginando como teria sido aquele lugar décadas atrás, volta e meia eu me permitia desviar a atenção em direção ao cardápio. A cada pedido, ia percebendo que nem tudo o que sai dos fornos da casa é igualmente bom – impressão que uma breve espiada em suas vitrines já me havia antecipado. As empadas, por exemplo, não me entusiasmaram. Nem poderiam, afinal, chegaram frias à mesa. O jesuíta (que tinha a massa folhada um tanto murcha, recheada com inexpressivo creme de ovos) não revelava a mesma delicadeza dos doces que eu experimentaria a seguir e também na visita seguinte – aproveitando que passava a semana no centro da cidade, reincidi dois dias depois.

O recheio dos pastéis de nata não me pareceu semelhante ao dos autênticos pastéis de Belém. Ainda assim, estavam frescos (massa sequinha e crocante) e muito gostosos nas duas visitas. Quentinhos, logo que saem do forno, são um alento pra quem tem um oceano a vencer se quiser ir ao encontro dos originais.

Casa Mathilde

Casa Mathilde

O pastel de Santa Clara tinha massa delicada e ótimo recheio.

Casa Mathilde

As queijadas da Mathilde, de interior úmido sob a crosta dourada, eram deliciosas. Não resisti, pedi mais um par delas pra viagem.

Casa Mathilde

Casa Mathilde

Eu diria que o tesouro da Casa Mathilde não está tanto em suas vitrines de doces como no fato de seu salão revelar-se um privilegiado observatório da cidade. Mas, convenhamos, umas queijadas e uns pastéis de nata recém-saídos do forno só podem deixar melhor o exercício de contemplação.

 

Casa Mathilde - Praça Antonio Prado 76 – Centro – São Paulo

www.casamathilde.com.br

Quinta, 02 Outubro 2014

Sabor Rural, em Tiradentes: antídoto pros males da urbe

Sabor Rural Tiradentes

Passamos a estação de trem, pegamos a estrada de terra. A paisagem que emoldura o caminho é tão bonita, tão bucólica que faz o destino parecer menos importante. Todavia, chegamos. E o que nos espera é um restaurante que mais parece o sítio de um amigo do que um estabelecimento comercial.

Sabor Rural Tiradentes

Sabor Rural Tiradentes

Galinhas perambulam absolutamente indiferentes a nossa chegada. Já os cachorros acomodados na entrada despertam do estado de profunda preguiça pra nos receber. Reafirmam a sensação de acolhimento que a atmosfera do lugar antecipava. Àquela altura, já estávamos convencidos de que seríamos felizes ali. Ainda que a comida não fizesse jus ao cenário. Ainda que o serviço não estivesse no compasso da urgência de visitantes urbanos demais.

Sabor Rural Tiradentes

Sabor Rural Tiradentes

Sabor Rural Tiradentes

Matamos a sede com limonada servida na chaleira, geladinha. À fome mais premente respondemos com pasteis de angu com carne (boa massa, recheio saboroso), selando a felicidade à mineira.

Sabor Rural Tiradentes

Sabor Rural Tiradentes

O feijão tropeiro que veio em seguida não estava entre os melhores que já comi, mas era bom. O mesmo não posso dizer das carnes de porco que o acompanhavam, ressecadas, maltratadas mesmo. Os pedaços que sobraram fizeram a alegria dos cães, cujo crivo era consideravelmente menos severo.

Sabor Rural Tiradentes

Sabor Rural Tiradentes

Ao longe, o som da maria-fumaça, partindo rumo a São João del Rei, nos lembrava de que havíamos perdido a hora e o trem. Não lamentamos. Era Tiradentes nos libertando do triste ritmo da cidade grande.

 

Sabor Rural – Estrada da Caixa d’Água, Km 4 (por trás da estação de trem) -  Tiradentes

 

Quarta, 24 Setembro 2014

Kitanda Brasil, em Tiradentes

Kitanda Brasil

Quem se dirigir ao Kitanda Brasil esperando encontrar um restaurante convencional corre sério risco de se decepcionar.  Desde a arquitetura do lugar até o modo de operar, tudo ali é mais casa, menos restaurante. Não me refiro apenas aos horários de funcionamento restritos, às poucas mesas disponíveis, ao ritmo do serviço, mais lento que o habitual, e aos preços, mais baixos que a média. Refiro-me também ao fato de que é a própria dona, a chef Tanea Romão, que nos recebe e nos guia até o fim da refeição. Contando com a ajuda de uma única auxiliar, divide-se entre cozinha e salão ao longo da noite. Eu diria que o Kitanda se confunde com Tanea. Sem ela, a experiência não existe. Se isso é bom ou mau, depende do olhar do visitante.

Meu desejo de conhecer seu trabalho vem desde os tempos em que ela ainda vivia em Gonçalves – onde funcionou o Kitanda Brasil até 2012, quando, então, mudou-se pra Tiradentes. Suas pesquisas, seu interesse por nossas tradições culinárias, sua curiosidade por ingredientes pouco usuais (que fica evidente em sua horta de plantas não convencionais), sua busca por uma cozinha calcada na memória, tudo isso alimentava em mim esse desejo. Depois de conhecê-la, posso dizer que, de fato, todas essas coisas estão ali presentes e talvez tenham me marcado até mais do que propriamente a comida que me foi servida.

Kitanda Brasil

Diante da simplicidade de pratos de ágata e copos americanos, ao som de boa música, e acompanhados do perfume da comida que era preparada na cozinha aberta a poucos passos de nós, percorremos um menu de oito cursos (a mais curta das opções disponíveis). Às vezes, o intervalo entre um e outro se alongava demais, perdia-se o ritmo. Mas isso era compensado pela abordagem da chef ao servir e explicar cada prato. Nada da chatice ou do tecnicismo que dão o tom da descrição de pratos nos restaurantes modernos, mas apenas o empenho em contar a história por trás de cada receita, falar da carga afetiva que cada uma delas encerra. Ao final de sua fala, não me sentia entediada, mas enriquecida.

Começamos com o couvert, que trazia deliciosos nacos de massa de pastel, acompanhados de manteigas aromatizadas com geleias, que me pareceram, todas, doces demais.

Kitanda Brasil

No primeiro ato do percurso, a estrela era o lambari da horta (linda folha aveludada, cuja textura lhe vale também o nome de orelha de coelho) empanado em fubá. O creme de cupuaçu que acompanhava me pareceu fora de contexto. No copo, suco de limão com capim santo.

Kitanda Brasil

O cuscuz de frango com farinha de milho que veio em seguida era de pedir bis. Eu abriria mão de alguns dos bocados do jantar por mais um tanto dele.

Kitanda Brasil

Era gostoso o bolinho de feijão fradinho, espécie de acarajé mineiro, mas o melhor era a memória decantada ao servi-lo – segundo Tanea, o bolinho, muito tradicional na região, era vendido nas ruas em tabuleiros. É preciso falar ainda do molho de pimenta porreta que o acompanhava, feito com uma coleção de pimentas de quinze anos, compradas pela cozinheira Brasil afora.

Kitanda Brasil

Outro dos meus favoritos, a polenta “de rapa” homenageava a tradição do interior, onde se aproveita a rapa do angu feito na véspera, adicionando-se leite pra soltá-la no dia seguinte. Ali, preparada com fubá mimoso e requeijão de corte e coroada com serralha refogada. Uma delicadeza.

Kitanda Brasil

O ótimo patê de fígado contracenava com jiló em calda de hibisco, numa alusão ao clássico do Mercado Central de Belo Horizonte. O senão ficou por conta da calda, muito doce, que prevalecia sobre o sabor do jiló.

Kitanda Brasil

Na reta final, dois pratos de fôlego. O cuscuz de canjiquinha com bochecha de boi era muito gostoso. Já o derradeiro ato não me agradou tanto: feijão fradinho na manteiga de garrafa, pé de porco recheado com carne de joelho, banana, coulis de azedinha. Saboroso, mas muito pesado. E não me refiro à natureza substanciosa do prato, mas ao fato de ter sido o momento do percurso em que a execução me pareceu menos delicada.

Kitanda Brasil

Kitanda Brasil

A sobremesa era uma brincadeira com a crendice que ainda faz crianças atravessarem a infância temendo a dita fatal combinação de manga com leite. Intitulada “fruto proibido”, trazia manga verde batida com leite e rapadura.

Kitanda Brasil

A noite me rendeu ainda meia hora de prosa com Tanea, de quem fiquei fã. É sempre bom cruzar com cozinheiros que lidam com a comida com tamanha profundidade. Sua cozinha não tem brigada, não tem aparato moderno ou louça cara, nem precisão cirúrgica na técnica. Mas tem raízes, tem sentido. Tem verdade.

 

Kitanda Brasil - Rua Padroeiro Santo Antônio – Tiradentes

https://www.facebook.com/KitandaBrasil

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