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Domingo, 26 Agosto 2012

O novo Café Carandaí

Café Carandaí

Como já disse há algum tempo, pra mim, a Casa Carandaí foi uma das melhores novidades do ano no Rio de Janeiro – as razões contei nesse post aqui. Pois ganhei um motivo pra prolongar minhas visitas à casa: o Café Carandaí, inaugurado nos fundos da loja há poucas semanas. O espaço foi projetado com bom gosto e tem a leveza que se espera de um café. O teto de vidro com treliças de madeira permite que a luz invada o salão, o que deixa tudo mais bonito.

Café Carandaí

Café Carandaí  Café Carandaí

Café Carandaí  Café Carandaí

A qualquer hora do dia, é um bom pretexto pra uma pausa despretensiosa antes ou depois de me abastecer nas prateleiras da loja. Seja pra uma baguete com manteiga na chapa logo cedo, um sanduíche ou um café com bolo ou, ainda, uma porção dos ótimos scones com geleia e creme no fim da tarde. Soube que aos sábados e domingos há um bufê de café da manhã, mas ainda não fui experimentar...

Café Carandaí  Café Carandaí

Café Carandaí

Antes de ir embora, garanto que não faltem na minha cesta itens de primeira necessidade: alguns queijos mineiros de leite cru e a irresistível compota de kinkan da marca gaúcha Doces Carmen. Deixo aqui uma dica: o queijo do Serro que trouxe de lá na semana passada estava absolutamente espetacular.

Café Carandaí

 

Casa Carandaí - Rua Lopes Quintas 165 – Jardim Botânico
http:/www.casacarandai.com.br/

Segunda, 20 Agosto 2012

A poesia da Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras

Aproveitei a breve visita a Vitória pra ir conhecer a Ilha das Caieiras, bairro pobre, cercado por um manguezal urbano, morada das desfiadeiras de siri da cidade, que ali mantêm viva a tradição da extração artesanal da carne de siri. Minha intenção era conhecer o bairro e almoçar no restaurante Siri na Lata, instalado na sede de uma cooperativa de desfiadeiras. Foi enorme a frustração ao chegar e descobrir que o restaurante não existe mais, assim como a cooperativa em questão, que se desarticulou no início do ano. Frustração vencida, me acomodei num dos outros restaurantes da ilha. Todos voltados, basicamente, à mesma proposta – moqueca, torta capixaba e alguns outros pratos, em cardápios que, obviamente, têm o siri como protagonista. Sem referência de nenhum deles, elegi o Pirão da Ilha.

Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras

Nem pensei em ficar na parte interna. A graça de almoçar ali é sentar no deque e devorar a paisagem, que, afinal, se revelaria o melhor do almoço. A comida simples, correta, não chegava a ser propriamente boa. Comi siri até não mais poder – na forma de casquinha, de moqueca, de recheio da torta capixaba –, mas confesso que o mais me entusiasmou na refeição foi a moquequinha de banana que vinha de acompanhamento. Bela surpresa.

Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras  Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras

Como disse, pra mim, o melhor de estar ali, além do contato com uma importante faceta da cultura gastronômica local, foi poder deixar o olhar solto na poesia do horizonte. A tarde de céu chumbo com rasgos de sol e o contraste entre a pobreza do lugar e a exuberância da natureza no entorno me remetiam a certos recantos de Belém, cidade que me atordoa e me encanta na mesma medida. No fundo, talvez haja mesmo algo em comum, algo da ordem de uma brasilidade que a gente, às vezes, nem sabe explicar muito bem, mas sabe sentir. E isso, em alguns momentos, é o que basta.

Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras

Ilha das Caieiras

 

Pirão da Ilha - Rua Felicidade Correia dos Santos, 32 – Ilha das Caieiras - Vitória

Segunda, 13 Agosto 2012

Paneleiras de Goiabeiras: panela de barro é que faz moqueca boa

Paneleiras de Goaiabeiras

"Todo capixaba tem um pouco de beija flor no bico, uma panela de barro no peito, uma orquídea no gesto, um cafezinho no jeito, um trocadilho na brincadeira, um Congo no andar, um jogo de cintura, um chá de cidreira, uma moqueca perfeita e uma rede no olhar." As palavras são de Elisa Lucinda e fazem mais sentido pra mim desde o último fim de semana.

Há muito tempo tinha vontade de ver de perto o trabalho das Paneleiras de Goiabeiras, reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Brasileiro. Aproveitei uma rápida passagem por Vitória e rumei pra rua das Paneleiras, onde fica o galpão sede da associação. Lá é possível acompanhar as diversas etapas do processo artesanal de confecção das famosas panelas de barro – as tais que todo capixaba carrega no peito –, fundamentais no preparo da tradicional moqueca. Desde o molde da argila trazida do Vale do Mulembá até o fascinante espetáculo da queima.

Bonito perceber o orgulho com que aquelas mulheres – e mesmo alguns homens, pois, embora seja essa uma atividade marcadamente feminina, veem-se, aqui e ali, homens que aprenderam o ofício com as mães e a ele se dedicam – falam do artesanato que faz parte das vidas de suas famílias há gerações. Programa obrigatório numa visita à cidade.

Paneleiras de Goaiabeiras

Paneleiras de Goaiabeiras  Paneleiras de Goaiabeiras

Paneleiras de Goaiabeiras  Paneleiras de Goaiabeiras

Paneleiras de Goaiabeiras

Paneleiras de Goaiabeiras

Paneleiras de Goaiabeiras

Paneleiras de Goaiabeiras  Paneleiras de Goaiabeiras

Paneleiras de Goaiabeiras

Paneleiras de Goaiabeiras

Paneleiras de Goaiabeiras  Paneleiras de Goaiabeiras

 

Paneleiras de Goiabeiras – rua das Paneleiras 55 – Goiabeiras - Vitória

Quinta, 09 Agosto 2012

Comendo e aprendendo

Quanto mais eu como, mais me convenço de que opinião alguma que eu manifeste aqui pode se pretender definitiva. Porque restaurantes, como nós, são engrenagens vivas. Portanto, sujeitas a constantes mudanças – para o bem e para o mal. Quantas vezes voltamos a um restaurante e ele já não é o mesmo – ou nós já não somos? Entender isso torna mais interessante o processo de confrontar as próprias verdades.

Nos últimos meses, me peguei pensando a respeito disso em duas ocasiões. Uma delas no restaurante Quadrucci, onde, ultimamente, vinha tendo refeições que não iam além do razoável. Em meu último almoço na casa, comi, de modo geral, surpreendentemente bem. Num percurso de altos e baixos, me vi diante de pelo menos dois pratos que se revelaram boas surpresas. Um trazia camarões e lulas (estas não tão boas quanto os camarões) sobre uma delicada base de tomate e mascarpone. O outro, ainda melhor, era uma deliciosa compota de pato confit com alho poró e laranja, que me fez querer voltar. Saí me perguntando se o Quadrucci mudou pra melhor ou se aquele foi um dia atipicamente feliz na vida de um restaurante mediano. O tempo me dirá. O importante é que eu esteja aberta a ouvir o que ele tenha a dizer.

Quadrucci  Quadrucci

A outra situação que me trouxe de volta essa reflexão aconteceu no Aconchego Carioca. Uma série de recentes refeições ali me fez pôr em xeque uma velha convicção minha. Frequento o Aconchego desde que ficava do outro lado da rua Barão de Iguatemi e era, indiscutivelmente, um bar. A casa cresceu, ganhou porte de restaurante, mas, pra mim, manteve a mesma alma. Sempre achei que o lado bar do cardápio valia imensamente mais a investida que a faceta restaurante – nunca fui muito feliz com minhas incursões pelos pratos principais. Tomei isso como verdade. E passei muito tempo sem questionar.

Aconchego Carioca

Pois, nos últimos meses, estive na casa com olhos mais investigativos, por conta de uma votação para um prêmio de gastronomia. Me obriguei a confrontar minhas verdades e visitar e revisitar alguns pratos. E me vi, pra dizer o mínimo, diante do melhor bobó (cujo único senão era o arroz do acompanhamento) e do melhor escondidinho que comi no Rio de Janeiro nos últimos tempos.

Aconchego Carioca

Aconchego Carioca

Mudei eu ou mudou o Aconchego? Provavelmente, eu. Mas pouco importa. O que interessa é que ganhei novos motivos pra voltar ainda mais vezes à casa que, hoje, considero um restaurante quase tão bom quanto o bar que é. Sim, ainda acho que o lado bar é onde mais brilha a alma da dona, Kátia Barbosa. Mas quem sabe o tempo ainda me convença do contrário...

Segunda, 06 Agosto 2012

Bráz: fora de série o ano todo

Pizzaria Bráz

O leitor que correr ainda há de alcançar as últimas fornadas do Festival Fora de Série da pizzaria Bráz, que esse ano homenageia a Sicília. Se perder, não chega a ser grave. Primeiro, porque ano que vem tem mais. Depois, porque a Bráz, na minha opinião, é fora de série o ano inteiro.

Embora dificilmente atravesse um mês sem ir à pizzaria, raramente falo sobre a casa nesse espaço – certamente, faz mais de dois anos a última vez, talvez três. Não é por acaso que isso acontece. Evito porque conheço alguns dos sócios, especialmente, o braço da Bráz no Rio de Janeiro, Eduardo Cunha, que conheci antes de a marca aportar na cidade e, ao longo do tempo, tornou-se um amigo querido. O fato é que, embora eu visite a casa muito mais vezes por minha conta do que na companhia de Eduardo, acabo não me sentindo suficientemente isenta pra elogiá-la aqui.

Acontece que, dia desses, me dei conta de que, agindo assim, possivelmente cometa um erro tão grave quanto deva ser elogiar desmedidamente um estabelecimento de um amigo: o de omitir minha opinião a respeito de um lugar sobre o qual acho que se deva jogar luz. Percebi que talvez eu jamais tenha dito aqui que acho a Bráz a melhor pizzaria do Rio de Janeiro. Pois acho. Então, por que não dizer? A cada vez que visito outras pizzarias na cidade, reafirmo minha convicção. Pizza é pão e o da Bráz é simplesmente soberbo. Fora isso, a matéria-prima utilizada nas coberturas é evidentemente superior.

Pizzaria Bráz  Pizzaria Bráz

No mais, gosto do ambiente da casa, que tem cara de pizzaria, com a necessária dose de informalidade e calor, sem qualquer traço de afetação. O salão da Bráz, diferente dos de tantos outros estabelecimentos do gênero, não quer ser outra coisa que não o salão de uma pizzaria.

Pizzaria Bráz  Pizzaria Bráz

Pizzaria Bráz  Pizzaria Bráz

Voltando ao Fora de Série, durante a temporada do festival, as fornadas revelam ingredientes especiais, muitos trazidos diretamente da Itália. Há três anos não perco uma edição. Ainda não esqueci a linguiça ao estilo da de Castelpoto, na Campânia, que brilhou no ano passado. Na edição desse ano, estive nada menos que três vezes. Experimentei todos os sabores e gostei especialmente das doces cebolas de Giarratana, dos sensacionais tomatinhos de Pachino e da pizza que traz alcaparras de Salina, além de filés de aliche, azeitonas e alho – esta última, pra mim, a melhor entre todas.

Pizzaria Bráz  Pizzaria Bráz

Pizzaria Bráz  Pizzaria Bráz

Mas, como disse no início desse post, o festival é só um motivo a mais pra ir a Bráz, que, por todos os motivos que mencionei, me vê o ano inteiro.

Pizzaria Bráz

 

Bráz – Rua Maria Angélica 129 – Jardim Botânico. Também na Avenida Érico Veríssimo 46 – Barra da Tijuca.
http:/www.brazpizzaria.com.br/

Quarta, 01 Agosto 2012

Epice: um ano depois

Epice Alberto Landgraf

Evito reler textos que tenha escrito há mais de seis meses. Muitas vezes, já não me reconheço neles; em tantas outras, tenho a impressão de não ter expressado adequadamente o que queria dizer naquele momento. É quase torturante. Portanto, evito. Mas, há alguns dias, saindo de um almoço no Epice, não resisti à curiosidade de retomar minhas impressões na última visita, que aconteceu exatamente um ano antes. Na época, a casa tinha poucos meses de vida e eu não conhecia pessoalmente o chef Alberto Landgraf. Hoje eu diria que, depois de doze meses, algumas conversas com o chef e uma nova visita, sinto que as primeiras linhas que esbocei sobre o restaurante faziam sentido. Ao menos pra mim.

Deixei o Epice, após esse último almoço, com uma sensação muito semelhante à que me tomou na primeira vez: a de estar diante de um trabalho em flagrante evolução, comandado por um chef de grande talento e rara sobriedade. Um cozinheiro que sabe o que quer e sua a camisa diariamente pra não perder o foco. Pedra sobre pedra, Alberto vai construindo um caminho consistente, em constante amadurecimento. Posso dizer que estive num restaurante ainda melhor do que o que me recebeu um ano antes. E, mesmo assim, provavelmente inferior àquele que encontrarei nos próximos doze meses.

Quanto ao almoço, comecemos pelo começo. Os pães do couvert riam de mim. Ousei dizer, na última visita, que não eram tudo o que poderiam ser. Pois trataram de ser. Consideravelmente melhores, desta vez só não os comi todos porque não estava sozinha à mesa.

Epice Alberto Landgraf

O primeiro prato aquietou um desejo que me acompanhava há algum tempo. Finalmente, o encontro com a famosa orelha de porco da casa. Crocantíssima, saborosíssima – sim, todos os superlativos se justificam aqui. Coadjuvando, tiras de couve manteiga – quase um biscoito – e gotas de mostarda.

Epice Alberto Landgraf

Por alguns minutos, acreditei que aquele seria o melhor prato do almoço. A crença foi quebrada pelo prato seguinte: mandioca, ovo de codorna pochê, avelã, molho de Jerez. Sublime. Seguiu invicto até o fim da refeição.

Epice Alberto Landgraf

Na sequência, um poético jardim de vegetais, cada um deles em sua máxima expressão de sabor.

E

A garoupa confitada veio acompanhada de picles de cebola roxa que eram tão bons, tão bons que roubaram a cena – e, junto, minha atenção: devorei-os antes de me lembrar de fotografar.

Enfim, músculo de wagyu com tutano sauté e alcachofras grelhadas. Apesar da qualidade da carne e da execução impecável, confesso que, pra mim, foram as alcachofras as estrelas do prato.

Epice Alberto Landgraf

A primeira sobremesa era pura delicadeza. Morangos, sorbet de morango, placas de merengue, pistache, pó de tomilho-limão. Leve, fresca, uma delícia.

Epice Alberto Landgraf

Na última sobremesa, engatei uma conversa com o chef e, quando me dei conta, novamente era tarde pra fotografar. Chocolate AMMA de diferentes teores de cacau (45, 50 e 75%) trabalhado em diferentes texturas: sorbet de chocolate, mousse desidratada e ganache congelada salpicada com sal Maldon – esta última, minha favorita. Gostei, mas gostei ainda mais da anterior. E confesso que a “Pera”, que encerrou minha refeição um ano antes, segue como franca favorita.

Ao fim do almoço, eu e o amigo que compartilhou a mesa comigo nos perguntávamos se daqui a cinco anos encontraremos o Epice exatamente como o restaurante que é hoje. Landgraf garante que, no que depender dele, a casa continuará sendo o que é. Nem diferente, nem maior, apenas melhor – esta, claramente, uma obsessão na vida do chef. Assim seja.

 

Epice – Rua Haddock Lobo 1002 – Jardins
http:/www.epicerestaurante.com.br/

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