Pra quem quiser me visitar....
  • Duas vezes Frenchie: Frenchie to Go e Frenchie Bar à Vins
  • Copenhague em pequenos bocados
  • Artesanal: para onde aponta a cozinha de Roberta Sudbrack em 2014
  • Relæ, em Copenhague: pequeno notável
  • Pirouette: oásis em Les Halles
  • Noma, o lendário restaurante do chef René Redzepi em Copenhague: minhas impressões
  • Nordisk Brødhus: meu melhor café da manhã em Copenhague
  • Clamato, a nova casa do chef Bertrand Grébaut em Paris
  • Você já foi ao Paraíso Tropical? Não? Então, vá.
Segunda, 24 Junho 2013

Quinta do Vallado: meu pouso no Vale do Douro

Quinta do Vallado

Elegi a Quinta do Vallado como pouso no fim de semana que passei no Vale do Douro. A quinta que pertenceu a Dona Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha, uma das poucas em posse de seus descendentes é, hoje, um dos cinco produtores integrantes da associação conhecida como Douro Boys.

A propriedade estonteante, emoldurada pelos socalcos do Baixo Corgo, abriga uma guesthouse no edifício histórico, de 1733, e um hotel boutique inaugurado em 2012, em cujo projeto o xisto é elemento essencial. Embora a fachada ocre do século XVIII me fale mais à alma, fiquei com o conforto tão século XXI dos quartos do novo hotel. A varanda aberta pra inesquecível paisagem, só ela, já teria valido a escolha.

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Tudo ali evidencia bom gosto, sobriedade, elegância. O belo mobiliário – pudesse, teria trazido comigo todas as cadeiras e poltronas. A integração com o cenário e a inteligência de não pretender disputar com ele. As linhas da moderna adega, concluída no final de 2009. O serviço discreto – em muitos momentos, é quase possível esquecer que se está num hotel e sentir-se em casa. E mesmo detalhes menos perceptíveis, como o ar blasé com que nossa guia na visita à adega e às caves encarou o pedantismo de um americano, dono de loja de vinhos na Califórnia, que nos deu o desprazer de sua companhia.

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Do lado de fora, a propriedade é um convite a longas caminhadas. Além dos quilômetros de vinhas, há oliveiras, laranjeiras e outras árvores frutíferas, de onde sai a matéria-prima pro azeite ali produzido e pras geleias servidas no bom café da manhã.

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Quinta do Vallado

Tão fundamental quanto uma longa caminhada é reservar algum tempo pra se dedicar com afinco a nada fazer – de preferência, na companhia de um dos vinhos produzidos na quinta. Nada além de contemplar a força daquela paisagem que de modo tão peculiar alia a exuberância da natureza ao suor do homem. Agradecer ter olhos pra ver aquilo que o escritor duriense Miguel Torga tão bem definiu como um poema geológico.

Quinta do Vallado - http://www.quintadovallado.com/

 

Quinta, 20 Junho 2013

Cantinho do Avillez, em Lisboa

Cantinho do Avillez

O bistrô de José Avillez em Lisboa é, sem dúvida, uma casa portuguesa. Chamo de bistrô pelo ambiente sem afetação, a cozinha direta e os preços praticados – os pratos mais caros não chegam a 20 euros. Falo de um bistrô moderno, que fique claro. A comida é tratada com simplicidade, no sentido de que não se veem muitos adereços a tirar a atenção do produto, mas são evidentes a sofisticação técnica e a abordagem atual. E embora haja na boa miscelânea do cardápio referências de outras paragens, o que brilha é o acento português, ainda que sejam novas as perspectivas.

As azeitonas galegas do couvert me distraíram a boca enquanto eu amadurecia as escolhas. Os petiscos e pequenas entradas me pareceram particularmente atraentes e neles acabei concentrando grande parte dos pedidos.

Cantinho do Avillez

Comecei o percurso com as empadinhas de perdiz. Massa leve, recheio úmido, saboroso. Deliciosas.

Cantinho do Avillez

Segui com a gostosa frigideira de farinheira em crosta de broa e os camarões à Bulhão Pato.

Cantinho do Avillez

Cantinho do Avillez

O melhor do jantar ainda estava por vir. Os soberbos fígados de galinha salteados com compota de cebola e Porto, em execução perfeita, eram uma manteiga. Daqueles pratos que dão sumiço às palavras. O silêncio se instalou por alguns momentos. Seguiram-se interjeições. Não se trata de apreço à retórica; as linhas que agora escrevo expressam exatamente o que se passou. A satisfação foi tanta que pedimos bis.

Cantinho do Avillez

Estava bom o bacalhau com migas e ovo em baixa temperatura. O problema foi ter vindo depois dos fígados, que tornariam difícil o caminho de qualquer prato que lhes sucedesse...

Cantinho do Avillez

Encerramos, enfim, com avelã em três variações: ótimo sorvete, espuma aveludada, ainda melhor, e uma chuva de avelã ralada pra finalizar. Saibam que a foto, definitivamente, não faz jus à sobremesa.

Cantinho do Avillez

Saí com a certeza de que, morasse eu em Lisboa, a cozinha viva e descomplicada do Cantinho do Avillez me veria com frequência.

 

Cantinho do Avillez - Rua Duques de Bragança 7 – Chiado

http://cantinhodoavillez.pt/

 

 

Domingo, 16 Junho 2013

LX Factory, em Lisboa: comida, diversão e arte.

LX Factory Lisboa

Assim como me encanta a Lisboa dos telhados vermelhos, das paredes de azulejos, das igrejas antigas, dos centenários jacarandás, também me fascina a cidade que se reinventa. Expressão dessa faceta, a LX Factory foi uma das boas surpresas que cruzaram meu caminho nessa última visita.

Instalada numa área antes ocupada por um complexo fabril em Alcântara, além de abrigar escritórios de empresas, é palco de uma série de eventos culturais e acolhe em seus corredores algumas lojas, a livraria “Ler devagar” e uma série de espaços dedicados à gastronomia.

LX Factory Lisboa

LX Factory Lisboa

LX Factory Lisboa

Não tive tempo pra explorá-la como gostaria, mas, do pouco que vi, não tenho dúvida de que seria frequentadora assídua se vivesse em Lisboa.

Quanto às comidas, fiz duas incursões. Uma delas na Landeau Chocolate, pra experimentar a torta que fez fama além-mar e arrebatou entusiasmados elogios no New York Times. Não sei se é pra tanto, mas a torta é, de fato, muito gostosa. Uma base que se assemelha a um brownie sustenta delicada cobertura, algo como uma etérea mousse de chocolate – que me pareceu ter notas de caramelo, embora a vendedora tenha me assegurado que era mesmo só chocolate.

Landeau Chocolate

Landeau Chocolate

Landeau Chocolate

Landeau Chocolate

A outra parada foi o interessante Mercado 1143, dedicado inteiramente a produtos portugueses.

Mercado 1143 LX Factory

Mercado 1143

Mercado 1143

Além de queijos, compotas, conservas, vinhos, azeites, o Mercado tem uma linha de padaria e confeitaria de fabricação própria. Do que experimentei, tudo estava bom: os biscoitos, os pães de Deus, o pão de cerveja e o delicioso pastel de feijão.

Mercado 1143

Mercado 1143

Mercado 1143

Mercado 1143

Mercado 1143

Lamentei não ter tido tempo pra voltar com calma e conhecer o restaurante 1300 Taberna. Fica-me como bom motivo pra retornar em breve. No mais, tenho que confessar que LX me deixou uma pontinha de inveja de Lisboa e uma imensa vontade de que alguém encampe ideia semelhante na minha cidade.

 

LX Factory – Rua Rodrigues de Faria, 103 – Alcântara

http://www.lxfactory.com

Mercado 1143 – Rua Rodrigues Faria 103, Loja A – Alcântara

http://www.mercado1143.pt/

Landeau Chocolatehttp://www.landeau.pt/

 

 

Segunda, 10 Junho 2013

Portugal: comida e memória

Não são poucos os brasileiros que já me confessaram falta de interesse em conhecer as mesas de Portugal. Não sabem o que perdem. Preciso reconhecer que, de fato, o cenário da restauração em Lisboa é mais restrito, se compararmos a cidade com outras capitais europeias mais festejadas. Mentiria se dissesse que não é. O visitante não vai encontrar ali oferta que se assemelhe à profusão de bares de tapas memoráveis e restaurantes de excelência que tem a Espanha. Nem algo como a ampla gama de brilhantes neobistrôs e padarias e confeitarias superlativas que há na França. Mas, afinal, não fui buscar Espanha ou França em Portugal.

Do balanço dos oito dias dessa minha última visita ao país, poderia tirar uma amostra de bons motivos a salvar da descrença os pouco convictos. As cores, a luz,  a poesia derramada e a capacidade de reinvenção de Lisboa, cidade pela qual me apaixonei novamente. Sim, cidades são como gente; jamais se revelam por inteiro, há sempre algo ainda por desvendar. E é nisso que reside a graça dos reencontros.

Lisboa

Lisboa

Lisboa

Lisboa

Lisboa

Lisboa

A beleza e a nostalgia que brotam em cada rua, em cada praça do Porto.

Porto

Porto

Porto

Porto

O exagero de natureza do Vale do Douro.

Vale do Douro

Vale do Douro

Vale do Douro

Vale do Douro

As boas mesas por onde andei, sobre as quais falarei aqui nos próximos dias. Lugares onde comi bem e quase sempre barato. Tão barato que não há como não pensar no quanto o Brasil anda ridiculamente caro.

Mas há mais que isso. Os brasileiros que, como eu, tenham sido criados na presença de tachos movidos por mãos portuguesas dificilmente passarão por aquele país sem se comover. A cada esquina, topamos ainda com referências desse Portugal de que nosso imaginário é impregnado desde criancinhas, pelo que diziam e faziam as avós, as bisavós. Eu, que levei minha mãe comigo nessa viagem, vivi isso com intensidade ao longo dos últimos dias. “Era assim mesmo que a minha avó fazia os carapaus”. “Era exatamente desse jeito que meu pai gostava do bacalhau.” “Olha o doce de tomate, igualzinho ao que preparava a vovó.” Foram oito dias ouvindo-a dizer coisas assim. E vislumbrando na comida a essencial conexão com a memória, com ainda mais força do que me havia acontecido na última visita ao país, anos atrás.

A embalar tudo isso, a acolhida de uma gente que não se encontra em outros cantos da Europa. Até hoje, jamais encontrei em outro povo no hemisfério norte o calor do povo português. Nem aquele irresistível jeito de falar, cheio de melodia e de diminutivos. “A menina quer provar uns carapauzinhos?” “Um queijinho de ovelha?” “Uns pastelinhos de bacalhau?” É absolutamente diferente de nos ofertarem uns carapaus, um queijo de ovelha, uns pastéis de bacalhau. Mas é preciso saber ouvir.

Vale do Douro

 

Segunda, 20 Maio 2013

Esquina Mocotó, a nova casa do chef Rodrigo Oliveira em São Paulo

Esquina Mocotó Rodrigo Oliveira

Em março do ano passado, em visita ao Engenho Mocotó, soube do novo restaurante que o chef Rodrigo Oliveira planejava abrir na Vila Medeiros, na mesma rua que abriga o Mocotó. Rodrigo e seu parceiro constante na cozinha do Engenho, o chef Julien Mercier, me contaram, então, sobre os testes de pratos que já realizavam àquela altura. A curiosidade se instalou. Convivi com ela por mais de um ano. Semana passada, após alguns adiamentos e algumas mudanças no conceito original, a casa foi finalmente inaugurada.

O Esquina Mocotó é, pra dizer o mínimo, uma iniciativa corajosa. Rodrigo, que considero um dos mais talentosos chefs em atuação no Brasil, conquistou todos os louros depois de assumir o comando do restaurante do pai, o Mocotó, um dos meus favoritos no país. Podia deitar em berço esplêndido, mas optou por sair da zona de conforto. Ousou abrir, exatamente ao lado do consagrado restaurante da família, um novo espaço, com conceito bastante diferente do primeiro. O catalisador das ideias ali esquadrinhadas me parece ser a mesma brasilidade que sempre o conduziu em suas intervenções no Mocotó. Mas o horizonte aqui é outro. Livre dos parâmetros de uma cozinha regional, o chef assimila um universo maior de referências e digere essa brasilidade a partir de uma perspectiva própria, com liberdade para conceber um trabalho mais autoral.

Esquina Mocotó Rodrigo Oliveira

Estive lá, como convidada num jantar fechado, organizado pela jornalista Alexandra Forbes, onde Rodrigo apresentou uma prévia do novo trabalho. Portanto, no relato que faço agora, não tenho a pretensão de uma análise crítica. Quero voltar em breve, num dia de funcionamento normal do restaurante, para, então, poder tirar maiores conclusões. Por ora, apenas compartilho aqui um pouco do espírito do Esquina Mocotó.

O enxuto cardápio, que tem na qualidade do produto sua maior estrela, sofrerá mudanças semanalmente ou de tempos em tempos. Nele, o único prato importado da carta do Mocotó são os incontornáveis dadinhos de tapioca com queijo coalho.

Esquina Mocotó

A entrada batizada de “A Porcaria” é senha de felicidade para quem, como eu, for amante de carne de porco. Uma tábua de madeira traz salame, presunto cru de Catanduva, terrine de porco, picles de cebola, compota de cebola roxa e uma nova versão dos dadinhos, em que se adiciona carne de porco à receita. Sim, ainda tinha como ficar melhor...

Esquina Mocotó

Não deu pra ir em frente sem pedir bis.

Experimentamos, ainda, pratos como o tutano com vinagrete de língua, acompanhado de pães feitos na casa...

Esquina Mocotó

A saborosa panelinha de moela...

Esquina Mocotó

O ovo mole com cogumelos, legumes e caldo de galinha...

Esquina Mocotó

Os delicados nhoques de mandioca com quiabo, tucupi e queijo de cabra.

Esquina Mocotó

Encerramos com o frescor do ótimo sorvete de cajá em purê de manga.

Esquina Mocotó

Deixo aqui uma confissão. Embora, racionalmente, soubesse ser improvável, alimentava a expectativa de encontrar na carta a deliciosa cartola do Mocotó – pra mim, sua melhor sobremesa. Nem em Pernambuco experimentei tão boa. Tornou-se obrigatória nas minhas visitas à casa, tanto quanto os famosos dadinhos. Não foi dessa vez. Quem sabe na próxima visita?

 

Esquina Mocotó – Av. Nossa Senhora do Loreto 1108 – Vila Medeiros - São Paulo

Quinta, 16 Maio 2013

Dona Vivinha, doceira de Ponte Nova e musa inspiradora do “Rancho da Goiabada”

Goiabada Dona Vivinha

Jamais me esqueço da primeira vez em que ouvi falar em Dona Vivinha. Faz mais de uma década. Meu pai tinha em mãos uma lata de goiabada e uma de mangada, que alardeava como as melhores que já havia provado. Tinha sido presenteado pelo compositor João Bosco, que é filho de Ponte Nova – capital da goiabada cascão –, e dependente crônico dos doces caseiros produzidos por uma conterrânea. Tempos depois, soube que os estoques da goiabada feita pela mineira, trazidos frequentemente por João de sua cidade natal, inspiraram Aldir Blanc na letra da canção “Rancho da Goiabada”.

Jamais esqueci aquela tarde em que devoramos os doces de Vivinha às colheradas. Semana passada, ao descobrir que podem ser encomendados para entrega fora de Minas Gerais, telefonei imediatamente. Fiz a compra, paguei o sedex e aguardei com ansiedade – e alguma dúvida; afinal, mais de dez anos me distanciavam da tarde guardada na lembrança. A memória não me traiu. A goiabada, de consistência perfeita e sabor equilibrado, é, de fato, uma delícia – embora não tire da goiabada Zélia o posto de minha favorita. Ainda melhor é a mangada. Não me recordo de ter experimentado outra mais gostosa.

Goiabada Dona Vivinha

Dispenso o cigarro e o beijo da mulata Leonor. Mas de uma boa goiabada cascão não abro mão. Com muito queijo, sempre.

 

Dona Vivinha – (31) 32613370

© 2012 Pra quem quiser me visitar - Todos os direitos reservados - Design de Branca Escobar

Envie para um amigo:

*
*

Fale comigo:

*

Assinar Newsletter:

Remover email: