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Terça, 02 Abril 2013

Mini Palais: Eric Frechon no Grand Palais

Mini Palais Paris

Não fossem as circunstâncias que me levaram ao Mini Palais em janeiro, talvez ainda demorasse a conhecer a brasserie contemporânea anexa ao Grand Palais. Não sei dizer por que, mas nem o cardápio assinado por Eric Frechon, nem as boas resenhas que já havia lido sobre a casa tinham despertado em mim entusiasmo suficiente pra colocá-la na minha relação de prioridades em Paris. Mas a notícia de que o restaurante estaria aberto no primeiro dia do ano levou-a imediatamente ao topo da lista. Ao saber, então, que o Grand Palais estaria aberto naquele dia, me acenando com exposição de Edward Hopper, me senti dona de um bilhete de loteria premiado. Não pensei duas vezes.

Ao chegar, a fila na porta dava a medida da falta de originalidade da minha ideia. O céu de azul irreal me inspirava otimismo e me fez resistir uma hora na espera por Hopper. Mas o frio era muito e trouxe de volta minha habitual impaciência, desencorajando-me diante da promessa de pelo menos mais uma hora na fila. Segui pra segunda parte do programa. A mesa reservada com antecedência garantia que a investida no Mini Palais seria mais bem-sucedida.

Mini Palais Paris

Mini Palais Paris

Quando me acomodei, ainda pensava na exposição perdida, mas a gougère tamanho GG que nos deu as boas-vindas me fez esquecer. Uma nuvem debaixo da crosta crocante, deliciosa, talvez a melhor que eu já tenha comido. Comeria mais uma, mas fiquei só na intenção. Me arrependo até agora.

Mini Palais

Comecei com uma gostosa conserva de sardinhas, acompanhada de excelente pão e ótima manteiga.

Mini Palais

Segui com o penne com chorizo e manjericão, que, confesso, pedi sem muita fé. Cada garfada a restabelecia. Massa no ponto certo, economia no molho, pontuado por tomates doces e pedacinhos de chorizo. Simples e muito gostoso.

Mini Palais

O anticlímax ficou por conta da sobremesa. Na versão meio inexpressiva do clássico Mont Blanc, só brilhava o sorvete de baunilha. O lindo baba ao rum da mesa vizinha me dava certeza de que havia escolhido mal.

Mini Palais

De modo geral, encontrei ali boa comida, ainda que não especial – à exceção da atordoante gougère, merecedora de todas as loas. Não são poucos os lugares onde já comi melhor em Paris. Mas, inclusive por estar onde está, considero voltar. Afinal, o lugar me soa como ótimo desfecho a uma visita ao Grand Palais. Especialmente, se o inverno estiver distante e houver a promessa de uma mesa na varanda, que muitos garantem ser das mais agradáveis da cidade.

 

Mini Palais – Avenue Winston Churchill - Grand Palais - 8ème

http://www.minipalais.com

 

Segunda, 25 Março 2013

Bubble Bar: encontrei meu lugar no Bazzar

Bazzar Bubble Bar

Há alguns anos frequento o Bazzar. Admiro a proprietária, a restauratrice Cristiana Beltrão, que, inteligente, viajada e sempre em dia com o que acontece nas mesas do mundo, conferiu à casa muito da sua personalidade. O ambiente do restaurante, de bom gosto indiscutível, se é cosmopolita, tem ao mesmo tempo DNA carioca. O cardápio, se não apresenta pratos inspirados ou propriamente originais, tem o mérito de reuni-los num balaio onde confluem várias vertentes e, ainda assim, contextualizá-los na proposta de privilegiar ingredientes e produtos brasileiros – sempre que possível, locais.

A questão é que embora sempre tenha tido ali refeições agradáveis, nunca chegaram a empolgar.  Em boa parte das visitas, saí com a impressão de que o caráter que a dona conferiu à casa não encontrava justa resposta na cozinha. Jamais comi mal, mas, muitas vezes, os pratos escolhidos me pareceram melhores no cardápio do que à mesa. Pois a recente reforma que deu ao Bazzar um belo balcão, de alguma forma, mudou minha relação com o restaurante.

Bazzar Bubble Bar

Batizado de Bubble Bar, o novo espaço oferece boa gama de champagnes e outros espumantes, além de uma seleção de jerez e cervejas artesanais, servidos em taça – prática rara nestas paragens, digna de aplausos mesmo – e conta com um cardápio não só mais enxuto, mas mais interessante e atual. Enxergo ali um bem-vindo sopro de renovação.

Apesar de confortável e elegante, o Bubble Bar não foge à característica dos balcões, que vejo como uma espécie de arquitetura da despretensão. Afinal, não comportam, nem fisicamente, metade dos rituais que tantas vezes engessam uma refeição e roubam-lhe parte do prazer. Portanto, além de nele descobrir o melhor ângulo da casa, me senti mais à vontade pra adotar uma prática que desconfiava fazer todo sentido ali: dispensada das amarras de uma refeição mais formal, pude me dedicar inteiramente às entradas, que sempre me pareceram melhores que os pratos principais e as sobremesas.

Bazzar Bubble Bar

Foi o que fiz nas últimas três visitas. Acomodada no balcão, me concentrei nos pequenos bocados e porções pra compartilhar na seleção idealizada pro novo espaço, recorrendo eventualmente a algumas predileções do cardápio do restaurante (pelo que entendi, os dois cardápios se comunicam em todo o salão).

Tenho revisitado velhos favoritos, como o escabeche de mexilhões com laranja ou o indispensável caldinho de feijoada, coroado com farofa de focaccia e crocante de couve.    

Bazzar Bubble Bar

Bazzar Bubble Bar

E venho encontrando boas novidades. Como a delicadeza do feijão manteiga de Santarém com tomates e vinagrete de caju.

Bazzar Bubble Bar

O sanduíche de pulled pork, que, pra mim, seria perfeito se o chutney de abacaxi fosse um pouquinho menos doce – e se dispensasse a companhia das batatas fritas industrializadas, que acho que não encontram lugar dentro da filosofia e do conceito da casa.

Bazzar Bubble Bar

A terrine de queijo de cabra com três pestos – beterraba, azeitona e pistache com manjericão.

Bazzar Bubble Bar

As gostosas sardinhas com alho e mini legumes confits.

Bazzar Bubble Bar  Bazzar Bubble Bar

Desde então, tenho saído mais feliz do que costumava sair dali. Descobri que uma simples mudança de ângulo pode transformar nossa relação com um restaurante. Como muito do que se passa na vida, é tudo uma questão de perspectiva. E talvez seja até mais que isso. Desconfio que Cristiana Beltrão trouxe à tona, na nova faceta do Bazzar, algo melhor que o próprio Bazzar.

 

Bazzar Bubble Bar – Rua Barão da Torre 538 – Ipanema

http://www.bazzar.com.br/

 

Quinta, 21 Março 2013

Mercat de Santa Caterina, em Barcelona

Mercat de Santa Caterina Barcelona

Uma visita ao Mercat de Santa Caterina me parece um programa obrigatório para quem quer que goste de comida e esteja de passagem por Barcelona. O edifício por si só já justifica a visita. É belíssimo o projeto de renovação do arquiteto Enric Miralles, especialmente o ousado telhado de cerâmica, de inspiração modernista.

Mercat de Santa Caterina

Nos corredores, não há a diversidade nem a exuberância do Mercat de la Boqueria, o mais emblemático mercado da cidade. Mas, além de ser muito mais vazio – o que lhe garante muitos pontos a favor –, é um ótimo lugar pra se abastecer de queijos, presuntos, embutidos, conservas, azeites... E o espaço mais compacto facilita a vida de pessoas que, como eu, tendem a entrar em transe diante de uma gama muito ampla de possibilidades quando o assunto é comida.

Mercat de Santa Caterina Barcelona

Mercat de Santa Caterina

Mercat de Santa Caterina

Mercat de Santa Caterina Barcelona

Mercat de Santa Caterina Barcelona

Mercat de Santa Caterina

Mercat de Santa Caterina

Entre uma compra e outra, aproveitei pra me acomodar em algum dos balcões que há no mercado, só pra não perder a oportunidade do tapeo. Na primeira visita, elegi o Bar Joan, bastante simples, mas autêntico. Embora não tenha experimentado nada especial, é sempre interessante estar entre os locais e familiarizar-se com o que comem corriqueiramente.

Mercat de Santa Caterina Barcelona

Mercat de Santa Caterina Barcelona

Na segunda visita, foi a vez do Cuines Santa Caterina, belo restaurante que abriga um balcão logo na entrada. Claramente voltado pra um público bastante diferente do que frequenta o Bar Joan. Não saí do trivial: pimientos de padrón, tortilla, polvo à galega. Nada digno de nota.

Cuines Santa Caterina

Cuines Santa Caterina

O melhor ali é mesmo perder-se entre as inúmeras bancas, que são um desafio à meta que tenho tentado – sem sucesso – me impor ultimamente: não trazer comida na bagagem nos retornos de viagem. Tenho vários motivos pra me empenhar nisso, entre eles, a habitual tensão no momento de passar pela alfândega. Mas a verdade é que saí do Santa Caterina com a sensação de que preciso mesmo é comprar uma mala maior.

 

Mercat de Santa Caterina - Avinguda de Francesc Cambó, 16 - Barcelona

Segunda, 18 Março 2013

Bar Mut, em Barcelona: frutos do mar incríveis, serviço incrivelmente hostil

Bar Mut Barcelona

Entramos no salão absolutamente vazio, cinco minutos atrasados para a reserva feita para as 20h. Somos acomodados e a primeira coisa que ouvimos do maître é “preciso de sua mesa livre às 22h”. Começava mal nossa noite no Bar Mut. E seguiria pior. Ao saber que éramos brasileiros, o sujeito guardou no bolso alguma simpatia que ainda lhe restasse. Ao notar que eu ousaria não acatar inteiramente suas sugestões e teria a petulância de ponderar o que tinha vontade de comer naquela noite, não teve mais dúvidas: não gostava de mim. Ao menos nisso, concordávamos. Eu também não gostava nada dele. Dali pra frente, de minha boca só ouviria monossílabos em resposta a qualquer pergunta que me fizesse.

Bar Mut Barcelona

Bar Mut Barcelona

Uma pena, pois o que aconteceu após tão peculiar acolhida foi uma sequência de belos bocados, frutos do mar fresquíssimos e executados com maestria. Como a delicadeza das gambas, cheias de frescor, quase doces. Ou o belo polvo na brasa. Ou, ainda, a atordoante frigideira de lulas com cebolas caramelizadas.

Bar Mut

Bar Mut  Bar Mut

Embora a inquietante vontade de ir embora persistisse desde as boas-vindas, não sairia dali sem experimentar o prato-assinatura da casa, o carpaccio de huevos.  Uma cama de gemas moles recebe nacos de camarão, pinoli, e uma chuva de finíssima batata palha. Faz jus à fama que tem. Uma delícia.

Bar Mut carpaccio de huevos

Mas não tinha jeito. Àquela altura, podiam me servir ouro em pó que o incômodo já estava instalado. Saí dali chateada com o tratamento hostil que recebemos e desabafei onde podia: nos porões das lamúrias das redes sociais. No que me respondeu a querida Adriana Setti, que vive há mais de uma década na cidade: “Bem-vinda a Barcelona, onde o cliente nunca tem razão.” Ao que parece, nem a pior das crises é capaz de fazer as pessoas reverem certas atitudes em alguns cantos do velho mundo. Naquela noite, apesar do baile de eficiência que nos dá o serviço europeu, eu encontraria mais felicidade no sorriso de um garçom num pé-sujo qualquer do meu Rio de Janeiro.

Bar Mut – Carrer de Pau Claris, 192                        

http://www.barmut.com/

Segunda, 11 Março 2013

Abri, em Paris: não se deixe enganar pela fachada

Abri Paris

Olhando a fachada do restaurante na foto acima, você se animaria a entrar? Talvez, desavisada, eu também não entrasse. Mas cheguei ao número 92 da rue du Faubourg-Poissonnière sabendo bem aonde ia. O Abri foi um dos endereços mais festejados na rentrée parisiense em 2012. Não sei se é pra tanto, só o tempo dirá. Mas há bons motivos pra ir conferir o falatório. Seja o excelente custo-benefício do almoço em cartaz de terça a sexta-feira – 22 euros por duas entradas, prato e sobremesa. Seja a aula de eficiência dada pelo chef japonês Katsuaki Okiyama, no comando da minúscula cozinha encravada entre as mesas, onde conta com apenas mais uma pessoa nos fogões. Seja, enfim, o fato de a casa ter um mil-folhas que está entre as melhores sobremesas que já experimentei em Paris.

Abri Katsuaki Okiyama

O menu começou com um delicado carpaccio de robalo, com ervas, framboesa, beterraba e julienne de repolho roxo.

Abri Paris

Em seguida, bom creme de abóbora com emulsão de lardo defumado.

Abri Paris

A vitela, soberba, ponto perfeito, era uma manteiga. Chegou à mesa na econômica companhia de uma solitária batata, repolho roxo e deliciosa emulsão de cebola.

Abri Paris

O clímax ficou por conta do já famoso mil-folhas da casa (dei sorte, as sobremesas mudam sempre), uma espécie de versão alta costura do clássico francês. Massa folhada dourada e crocante, recheada com creme de confeiteiro de sutileza ímpar e lâminas de maçã. E uma quenelle de impecável sorvete de baunilha a lembrar que a coisa podia ficar ainda melhor. Por ele, voltaria algumas vezes ao Abri.

Abri Paris

 

Abri – 92 rue du Faubourg-Poissonnière – 10ème

Quinta, 07 Março 2013

Suculent, casa de comidas: sob o céu do Raval

Suculent Barcelona

Nem só de refeições especiais é feita uma viagem. Entre um e outro momento mais marcante à mesa, é importante entregar-se a refeições mais corriqueiras, menos pretensiosas, que se prestem a vestir o desejo do dia. No domingo em que tomei a direção do Suculent, restaurante que tem como um de seus sócios o chef Carles Abellan, o céu de Barcelona encarnava um azul que tornava difícil fazer qualquer coisa que não fosse olhar pro alto. O que eu queria naquele fim de manhã era um lugar onde pudesse tirar prazer de pratos simples e tradicionais, nada que exigisse de mim grandes exercícios intelectuais. Se possível, com acesso a uma nesga de céu que me lembrasse o dia que me aguardava do lado de fora.

Suculent Barcelona

Definindo-se como “casa de comidas”, designação que seus donos preferem à nomenclatura restaurante, trata-se de endereço onde se aborda a cozinha da terra sem ortodoxia, mas também sem modernice. E com competência. Estava no lugar certo.

Suculent Barcelona

Começamos com tempura de calçots com molho romesco. Os calçots, algo como um encontro entre cebolinha e alho-poró, são uma tradição na Catalunha (um dia ainda hei de participar de uma calçotada) e têm no romesco uma bela companhia. Não eram muito sequinhos, mas estavam gostosos.

Suculent Barcelona

Seguimos com as batatas Suculent, um cone de batatas bolinha mergulhadas em molho romesco e aïoli. Deliciosas, ainda que não tão bravas – o romesco podia ser mais picante.

Suculent Barcelona

Com as sardinhas defumadas em escalivada, encerramos o tapeo e abrimos caminho pra um perfumado arroz caldoso que trazia almejas, anêmonas-do-mar, butifarra negra e abobrinha.

Suculent

Suculent Barcelona

Finalmente, uma bela versão de tocinillo del cielo: creme de baunilha, creme de ovos e um levíssimo merengue. Cada mergulho da colher naquele copo era imediatamente seguido de uma interjeição.

Suculent

Acrescento que o almoço aconteceu numa das mesas que a casa mantém na calçada, diante da Rambla del Raval, de onde se abria, não uma nesga, mas o céu inteiro sobre nós. Naquela tarde, o Suculent, sem grandes arroubos nem pratos que me marcarão por uma vida, me deu exatamente aquilo de que eu precisava.  

 

Suculent – Rambla del Raval 43 - Barcelona

http://www.suculent.com

 

 

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