Pra quem quiser me visitar....
  • Esse Brasil que a gente deixa pra depois
  • Uruguai à mesa: minha curta temporada na região de Maldonado
  • Glouton, em Belo Horizonte: a cozinha de Leonardo Paixão
  • Los Mellizos: churros e nostalgia em Montevidéu
  • Casa Cavé: pastéis e memória
  • Bitaca da Leste: pequena joia em Belo Horizonte
  • El Garzon: o refúgio uruguaio de Francis Mallmann
  • Restaurante Casa Velha: só Minas é assim
  • Miznon, em Paris: mais que um fast-food
Quarta, 02 Março 2016

Esse Brasil que a gente deixa pra depois

Novo Airão

[...] ainda há um Brasil bom que a gente desperdiça de bobagem, um Brasil que a gente deixa para depois, e entretanto parece que vai acabando; [...]. Só de repente a gente se lembra de que esse Brasil ainda existe, o Brasil ainda funciona a lenha e lombo de burro, as noites do Brasil são pretas com assombração, dizem que ainda tem até luar no sertão, até capivara e suçuarana – não, eu não sou contra o progresso ('o progresso é natural') mas uma garrafinha de refrigerante americano não é capaz de ser como um refresco de maracujá feito de fruta mesmo – o Brasil ainda tem safras e estações, vazantes e piracemas com manjuba frita, e a lua nova continua sendo o tempo de cortar iba de bambu para pescar piau. (Rubem Braga, Crônicas do Espírito Santo, p.12)

Perdoem se este blog lhes impinge Rubem Braga uma vez mais. Não, não pretendo fazer deste espaço um enfadonho exercício de citações. Se recorro novamente ao cronista, isso se dá por duas razões.

Primeiro porque Braga é companhia constante na minha vida; voz que, de certa forma, interiorizei. Sinto-o quase como um amigo, possivelmente porque suas palavras me ajudem como poucas na difícil tarefa de traduzir o mundo.

Segundo porque é recorrente essa estupefação diante dos rincões do Brasil por onde ando. “Por que atravessei anos deixando pra depois?” “Quanto desperdício não ter conhecido antes este lugar.” Foi exatamente o que senti nos dias que passei em Novo Airão, na Amazônia. Mesmo se não tive a chance de ir além da experiência rasa que tem o turista comum que se hospeda em qualquer dos hotéis de selva da região, tudo era impregnado desse Brasil que às vezes a gente esquece que ainda existe.

Novo Airão

A profunda comunhão do rio com a floresta. As noites que pareciam inventar diariamente novas estrelas. O silêncio de uma solidão ainda possível. O navegar quase sem ver gente – e quando havia gente, era de uma simplicidade rara. O tanto que a terra e as águas nos deram de comer. Graviola, cupuaçu, taperebá, tucumã e até azeitona, que ali não é o fruto da oliveira, mas algo muito diferente.  Tambaqui, matrinxã, pirarucu, tucunaré, sempre na companhia de banana pacovã. E, claro, amalgamando cada refeição, muita farinha de Uarini – que eu ouvia chamar carinhosamente de farinha ovinha e achava tão poético, mas, depois de tomar algumas broncas por lá, está entendido, é farinha de Uarini e não se fala mais nisso.

Novo Airão

Rio Negro

Novo Airão

Comunidade Tiririca

tucumã

Em breve, conto dos restaurantes que visitei e talvez do hotel onde estive hospedada, já que muitos leitores e seguidores me perguntaram sobre hospedagem na região. Por ora, o que eu queria era dizer desse país que a gente não deve desperdiçar, não deve deixar pra depois.

 

Quarta, 24 Fevereiro 2016

Los Mellizos: churros e nostalgia em Montevidéu

Parque Rodo

Imagino quanto se tenha modificado a capital uruguaia desde que Jorge Luis Borges escreveu o poema Montevidéu. Mas, de alguma forma, na atmosfera de suas ruas e no gestual de seu povo ainda é possível vislumbrar a "porta falsa no tempo", a tal cidade que mira o passado a que o escritor argentino se referiu. Ela se revela nas tantas casas de muros baixos que persistem, nas crianças brincando em seus cavalinhos de pau à beira-rio, nas cabeças brancas no comando de fornos e parrillas. Isso me pareceu ainda mais palpável diante da roda-gigante do Parque Rodó, um parque de diversões à moda antiga, que debruça sua nostalgia no rio-mar.

Parque Rodo

A poucos passos da extemporânea roda, um quiosque de churros sublinhava aquele sentimento. Churros Los Mellizos, dizia o letreiro. Os que me haviam sido recomendados eram vendidos noutra banca, logo adiante. No entanto, ao perceber a maestria com que o dono do lugar manejava a fritadeira, eu soube que era ali que devia depositar meu desejo: "una docena, por favor". Chegaram finos, sequinhos, crocantes, polvilhados com açúcar e canela. Não me recordo de já ter comido melhores.  

Churros Los Mellizos

Churros Los Mellizos

A felicidade infantil com que os devorei em meio ao burburinho do parque me remeteu às predileções dos tempos de menina. Quis acreditar que uma fagulha da inocência perdida em tantas cidades insiste em sobreviver em Montevidéu.  

Parque Rodo

Churros Los Mellizos – Av. José Requena y García – Parque Rodó

 

Quinta, 28 Janeiro 2016

El Garzon: o refúgio uruguaio de Francis Mallmann

Restaurante Garzón

Ao olhar os preços no cardápio do El Garzon, é possível que você tenha vontade de ir embora. Se conseguir abstrair as cifras, há de encontrar bons motivos pra não se arrepender de ter ficado.

Restaurante Garzón

Na praça central de Pueblo Garzón, lugarejo perdido no tempo, Francis Mallmann arquitetou um restaurante de atmosfera única, cuja essência se descortina nos detalhes: a música, os arranjos de flores, o desenho peculiar dos bancos, os limões sobre as mesas, as parreiras no quintal.

Restaurante Garzón

Restaurante Garzón

Restaurante Garzón

Restaurante Garzón

Mais que elemento de ambientação, as toras de madeira empilhadas na entrada da casa simbolizam uma escolha. A decisão de banir da cozinha o gás propano e fazer da lenha seu único combustível traduz a filosofia deste cozinheiro pra quem o fogo, segundo suas próprias palavras, é fera onipresente em sua alma.    

Cultuado dentro e fora de sua terra natal, o argentino é especialista em algo a que muitos cozinheiros de renome internacional deixaram de se dedicar: fazer comida que nos inspire vontade de comer. Em muitos dos restaurantes celebrados na atualidade, o que está em questão, mais do que o alimento e seus significados, é a vaidade do chef. Suas bancadas tornaram-se palco de cansativo exercício de autorreferência. Mallmann me parece contrariar essa lógica. Não acho que ele seja menos vaidoso do que qualquer outra celebridade da gastronomia. Mas quando está diante do fogo, sabe ser instrumento, colocar-se a serviço da comida.

A ementa do El Garzon reafirmou minha impressão.

A pizza a la brasa, coberta com lascas de pecorino, folhas de rúcula, azeitonas negras e nacos de laranja chamuscada foi das coisas mais gostosas que comi em 2015. O contraste entre a doçura e o queimado nas laranjas exaltava as dissonâncias que o chef explora com tremendo equilíbrio.

Restaurante Garzón

A merluza com vegetais a la plancha tinha ponto perfeito. Nos sabores da gremolata, novamente equilíbrio e delicadeza. 

Restaurante Garzón

Se a milanesa foi a mais cara da minha vida, foi também a melhor de que me recordo. Carne rosada e suculenta sob a crosta que era quase um biscoito.

Restaurante Garzón

As frutas chamuscadas acompanhadas de mascarpone encerraram a refeição como um sopro na tarde de verão.

Restaurante Garzón

Vejo em Mallmann um cozinheiro que não reduz seu ofício a mera ferramenta de autopromoção nem faz dele puro exercício intelectual. Sua cozinha é, acima de tudo, uma celebração dos sentidos. Por isso mesmo, um tipo de chef cada vez mais raro entre seus pares.

 

El Garzon Hotel & Restaurante - www.restaurantegarzon.com

Quarta, 13 Janeiro 2016

Uruguai à mesa: minha curta temporada na região de Maldonado

Garzón Maldonado

Pra onde quer que se olhasse, só havia a amplidão do campo. Embora não se enxergasse o mar, ele estava logo ali, a quinze minutos de carro. Gastávamos as horas percorrendo estradas em que quase não se via gente. Perto do anoitecer, caminhadas na praia. Às vezes, invertíamos: mergulho no mar pela manhã; tarde dedicada a observar os animais no pasto, ouvir o vento, descobrir novas exclamações diante da intensidade e da persistência do poente.

Os dias eram assim em Paraje Garzón, lugarejo situado entre as águas do disputado balneário de José Ignacio e o silêncio, quase abandono, de Pueblo Garzón, um povoado perdido no tempo, que o chef argentino Francis Mallmann catapultou do esquecimento.

Quando a fome se impunha, havia sempre um fogo a lenha a nos acudir. O Uruguai não se rendeu ao sous vide. Em todas as cozinhas por que passei nesta curta temporada em Maldonado, encontrei lenha movendo fornos, grelhas, fogos abertos. Há algo de tão remoto quanto essencial nessa prática, que ali felizmente não se perdeu.

 

LA LINDA – PANADERÍA Y CAFÉ

La Linda Manantiales

O terraço cercado de verde, o mobiliário em madeira, os jasmins perfumando as mesas, o quintal colorido por buganvílias, o generoso forno na cozinha aberta, de onde sai grande parte do que é feito na casa: tudo ali inspira vontade de ficar. Este lindo endereço em Manantiales se revela um bom lugar pra tomar o café da manhã ou pra fazer uma pausa no decorrer do dia.

La Linda Manantiales

La Linda Panadería

La Linda Panadería

Nem tudo que experimentei era digno de nota, mas os ótimos bolos, como o de laranja e o de cenoura, os deliciosos alfajores artesanais e o fogo a lenha anunciando choripáns nos fins de tarde estão entre as boas razões pra voltar.

La Linda Panadería

La Linda Panadería

La Linda Panadería

La Linda Panadería

La Linda Panadería

18 de Julio y Montevideo - Manantiales

http://www.lalindabakery.com/

 

MARISMO / CANTINA DEL VIGÍA

Marismo José Ignacio

O chão é a areia de José Ignacio; o teto, as árvores e as estrelas. Meu encantamento com o cenário idílico do Marismo se esvaiu tão logo percebi que não seria possível enxergar a comida em meu prato. Precisei me socorrer da luz do telefone celular pra saber aonde levar o garfo. Perdoem-me, mas meu romantismo não resiste a tanto.

Talvez se deva a esse incômodo o fato de ter achado o lugar superestimado e a comida aquém do que se cobra por ela. Minha memória me diz que o risoto de frutos do mar tinha textura estranha e sabor adocicado, além de trazer lulas e polvo além do ponto, e que o famoso cordeiro assado, embora gostoso, não chegava a justificar a fama que tem. O melhor da noite foi a impecável provoleta, a mesma servida no outro restaurante do chef Federico Desseno, inaugurado em 2014 na cidade de Maldonado, a cerca de uma hora dali.

Cantina del Vigía Maldonado

A proposta de sua nova casa me agrada mais: ambiente mais autêntico e caloroso, preços consideravelmente mais baixos. A ação acontece em torno de dois lindos fornos de barro movidos a lenha. Me acomodei diante deles e dali não tirei os olhos a noite inteira.

Cantina del Vigía Maldonado

Cantina del Vigía

A provoleta, como eu dizia, é perfeita (se isso é possível): levada ao calor da lenha, fica inflada e ganha uma crosta infernal.

Cantina del Vigía

Cantina del Vigía

Seguimos com uma milanesa napolitana que, embora tivesse quantidade excessiva de queijo, era muito gostosa. Como acompanhamento, ótimos vegetais assados. 

Cantina del Vigía

O anticlímax ficou por conta da sobremesa, um rogel cuja delicadeza do merengue era ofuscada pelo excesso de açúcar da camada de biscoito com doce de leite.

Cantina del Vigía

Marismo – La Farola – Ruta 10, Km 185 – José Ignacio

Cantina del Vigía – calle Zelmar Michelini 744 – Maldonado

https://www.facebook.com/cantinadelvigia

 

PARADOR LA HUELLA

Parador La Huella

Debruçado sobre as areias da bela Playa Brava, este é, sem dúvida, o mais festejado endereço de José Ignacio. Durante o verão, funciona em vários turnos por dia pra dar conta das hordas de turistas. Um desafio pra quem, como eu, prefere evitar lugares lotados.

Estrategicamente, reservei meu almoço pra depois das três, na tentativa de fugir do horário de pico. Ainda contei com uma ajuda inesperada: a chuva que cairia naquela tarde me levaria a conseguir algo impensável num mês de dezembro: La Huella com apenas metade da ocupação. O cheiro da chuva, o vento frio, a ausência de fila na porta são o oposto do que a maioria dos mortais espera de um famoso restaurante de praia. Pra mim, era o cenário perfeito.

Parador La Huella

Ao me acomodar, tive a estranha sensação de estar num lugar perdido em alguma altura dos anos 90: sushi bar na entrada, garçonetes vestindo shorts curtos, pastinhas no couvert e um petit gâteau de doce de leite anunciado como sobremesa incontornável. A beleza da paisagem e o conforto da lenha queimando na cozinha ajudariam a atenuar o estranhamento daquela primeira impressão.

Parador La Huella

Parador La Huella

Uma gostosa pizza bianca com rabanete e folhas de gengibre foi boa companhia enquanto esperávamos o prato principal: corvina branca feita na parrilla, por onde também passaram os vegetais que a acompanharam, ainda melhores que o peixe: abóbora, abobrinha, cenoura, beterraba, todos deliciosos, assim como as batatas ao murro.

Parador La Huella

Parador La Huella

Parador La Huella

Parador La Huella

A passagem dos dias me trouxe a perspectiva de que talvez justamente em seu anacronismo é que resida parte do charme daquele lugar. O descompromisso com o moderno e a proposta de simplicidade soam quase como deboche das urgências dos restaurantes de hoje. Não chego a sentir saudades do famigerado volcán de dulce de leche, mas, de alguma forma, aquela refeição plantou em mim uma agradável nostalgia.

Calle de los Cisnes - Playa Brava – José Ignacio

http://www.paradorlahuella.com/

 

EL GARZON

Lugar único, refeição sem senões. Mais não digo, pois o restaurante do chef Francis Mallmann em Pueblo Garzón é assunto do próximo post.

Restaurante Garzón

 

Quarta, 06 Janeiro 2016

Casa Cavé: pastéis e memória

Casa Cavé

No apagar das luzes de dezembro, uma despretensiosa visita à Casa Cavé, histórica confeitaria no Centro do Rio de Janeiro, me rendeu um dos melhores momentos à mesa em 2015.

Pastéis de nata recém-assados (massa crocante, recheio gostoso) me levaram sem escalas ao querido Portugal. Através do olhar de minha mãe, que me acompanhava naquela manhã, eu iria ainda mais longe. Pra ela, havia mais que um país naqueles bocados. 

Fazia décadas que não entrava na Cavé. Diante do balcão de doces, viajou mais de cinquenta anos no tempo, lembrando a época em que visitava a confeitaria com minha avó e minha bisavó. Aquela seria apenas a ponta de um carretel de recordações. Desandou a falar de sua infância, dos passeios ao Centro com a mãe, dos cabritos inteiros que o pai trazia pra assar em casa, das receitas preparadas carinhosamente pela avó – peixes empanados no fubá, carne assada com molho ferrugem, filhoses, doce de banana "vermelhinho".

Eis a riqueza de fazer da refeição um ato compartilhado. Cada pessoa traz consigo à mesa sua bagagem cultural, sua história, suas lembranças. Tivesse ido sozinha à Cavé, eu provavelmente teria saboreado os pastéis de nata com o mesmo prazer, mas a experiência teria sido outra. Irremediavelmente outra.

 

Casa Cavé – rua Sete de Setembro 133 (esquina com Uruguaiana) – Centro

http://www.casacave.com.br/

Terça, 08 Dezembro 2015

Restaurante Casa Velha: só Minas é assim

Restaurante Casa Velha

Fazia pouco mais de uma hora que havíamos deixado Belo Horizonte. A caminho de Inhotim, parada providencial num povoado batizado Córrego do Feijão. A fachada do restaurante na praça central anunciava: “comida e estilo da roça”. Estávamos no lugar certo.

Restaurante Casa Velha

Diante do fogão a lenha, um verdadeiro banquete: pernil de porco pururuca, ensopado de língua de boi com linguiça, galinha caipira, cozido de costela e maçã de peito com milho, tutu, angu de fubá de moinho d'água, aipim, jiló, quiabo refogado.

Restaurante Casa Velha

Restaurante Casa Velha

Restaurante Casa Velha

Restaurante Casa Velha

O dono do restaurante, que nos recebe como em sua própria sala, pergunta se queremos ovos caipiras fritos e folhas refogadas (couve, mostarda, ora-pro-nóbis). Sim, queríamos tudo. Não renunciaríamos a nenhum daqueles pratos, que tinham jeito e gosto de casa, inclusive em suas eventuais imperfeições.   

Restaurante Casa Velha

Restaurante Casa Velha

Acomodada à sombra de uma jabuticabeira, sob os olhares dos cães e de olho nas redes que convidavam à sesta, eu me dava conta de que o que se serve ali é mais que comida. É acolhimento, conforto, memória. Um lugar que nos desperta sensação oposta àquela que Nina Horta descreve com tanta clareza na crônica Exílio: “E tem uma hora em que você está distraído, jantando num restaurante caro, e sente aquele ‘não pertencer’ no ar. (...) e você pensa: ‘O que estou fazendo aqui, jantando vieiras com aspargos sob um lustre de cristal preto?’. Não sou eu, com certeza.”  

O Casa Velha é o tipo de restaurante que nos ajuda a não esquecer quem somos.

 

Casa Velhawww.casavelhacorregodofeijao.com.br

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