Pra quem quiser me visitar....
  • Esse Brasil que a gente deixa pra depois
  • Uruguai à mesa: minha curta temporada na região de Maldonado
  • Glouton, em Belo Horizonte: a cozinha de Leonardo Paixão
  • Los Mellizos: churros e nostalgia em Montevidéu
  • Casa Cavé: pastéis e memória
  • Bitaca da Leste: pequena joia em Belo Horizonte
  • El Garzon: o refúgio uruguaio de Francis Mallmann
  • Restaurante Casa Velha: só Minas é assim
  • Miznon, em Paris: mais que um fast-food
Terça, 24 Novembro 2015

Glouton, em Belo Horizonte: a cozinha de Leonardo Paixão

Glouton Belo Horizonte

Acomodada no belo quintal do Glouton, eu relembrava as palavras da chef Tanea Romão numa conversa que tivemos em seu restaurante, em Tiradentes, há pouco mais de um ano. “Quando voltar a Belo Horizonte, vá ao restaurante do Leonardo Paixão, que é um dos grandes talentos da nova geração em Minas”, ela me disse então. O nome não era novidade pra mim, mas sua recomendação fez crescer meu interesse pelo trabalho do moço.

Glouton Belo Horizonte

Observava os quadros com motivos franceses espalhados pelas paredes e me perguntava se Tanea teria mesmo razão. A chegada do cardápio deixou tudo mais claro pra mim: em meio a referências outras, era possível vislumbrar na cozinha da casa um senso de pertencimento ao lugar onde está – o que diz respeito especialmente a escolha e abordagem de ingredientes. Talvez os quadros fossem apenas uma referência afetuosa ao país onde o chef morou e cursou gastronomia. Questão de gosto.

Glouton Belo Horizonte

A refeição que eu faria a seguir me daria certeza de que a mineira não exagerou quanto ao talento do colega.

Começamos pelo elogiado polvo com farofa crocante. Sabendo que não se tratava de farinha de mandioca, perguntei ao garçom o que havia na tal farofa. Quando ele disse “Neston”, quase fiquei surda pros demais ingredientes – amêndoas e trigo sarraceno. Ponderei mudar o pedido, mas decidi desafiar o preconceito e fui em frente. Não me arrependi, era uma delícia. O mesmo posso dizer do polvo, em ponto perfeito. 

Glouton Belo Horizonte

O tenro cupim assado com Caracu tinha a companhia de angu de canjica branca. Muito bom, mas ainda melhor estava a papada de porco com mil-folhas de mandioca e molho de laranja. Diante da carne úmida e extremamente saborosa, a faca se tornava mero adereço. Além do gostoso mil-folhas de mandioca, uma folha de acelga trazia crocância e bem-vinda nota de amargor a dialogar com a sutil doçura do molho de laranja.

Glouton BH

Glouton BH

No último ato, uma delicada homenagem ao Cerrado Mineiro: sorbet de cagaita, coulis de coquinho azedo e um delicioso pó de casca de buriti, que me fez esquecer a boa educação e limpar o prato com os dedos.

Glouton BH

 

Glouton – Rua Bárbara Heliodora 59 – Lourdes – Belo Horizonte

http://glouton.com.br/

Terça, 20 Outubro 2015

Bitaca da Leste: pequena joia em Belo Horizonte

Bitaca da Leste

Tempos estranhos esses em que, mesmo nas capitais brasileiras mais devotas dos botecos, é possível atravessar dezenas de quarteirões povoados por bares sem alma, modelo de negócio que aparentemente encontra terreno propício na esterilidade das nossas metrópoles. É assim em muitos bairros do meu Rio de Janeiro. Belo Horizonte não me parece ter melhor destino. Felizmente, a esperança ressurge a cada iniciativa que contraria essa lógica, como a nos lembrar que ainda há donos de bar que gostam mais de seu ofício do que de dinheiro.

Foi isso que senti ao chegar à Bitaca da Leste, no bairro de Santa Tereza: esperança. No comando do lugar, um jovem casal disposto a investir num tipo de estabelecimento que nossas grandes cidades insistem em sufocar. Misto de mercearia e botequim, o espaço inaugurado no ano passado ostenta em suas prateleiras bons representantes do artesanato culinário de Minas Gerais: doces, queijos, farinhas. Pilotada por um dos donos (o chef Luiz Paulo Mairink), a cozinha funciona três vezes por semana: nas noites de terças e quintas e nos almoços dos sábados. No enxuto cardápio, é possível encontrar iguarias como torresmo de barriga de porco, sanduíche de linguiça, escondidinho de jiló, além dos PFs da casa.

Bitaca da Leste

Bitaca da Leste

Bitaca da Leste

Nos acomodamos no diminuto balcão e, embalados por um LP de Paulinho da Viola, tivemos uma refeição que iluminou nossa tarde e nos deixou imensa vontade de voltar. Eis o breve, mas memorável percurso.

Delicioso escondidinho de jiló com requeijão moreno de Turmalina.

Bitaca da Leste

Torresmo de barriga de porco, que é previamente assado e rapidamente finalizado na fritura, apenas o suficiente pra pururucar. Infernal.

Bitaca da Leste

Pão recheado com saborosa linguiça (de porco com páprica) e chucrute, ambos feitos ali, e ainda um naco do mesmo requeijão moreno que abrilhantou o escondidinho.

Bitaca da Leste

Pra alimentar a saudade, trouxe comigo um pouco da bitaca: pequena marmita da carne de lata de produção própria, uma beleza. Dessas coisas que me põem a pensar que preciso ir a Minas com mais frequência.

 

Bitaca da Leste – rua Salinas 2421 – Santa Tereza

https://www.facebook.com/bitacadaleste

Quarta, 07 Outubro 2015

Miznon, em Paris: mais que um fast-food

Miznon Paris

Ao cruzar a entrada do Miznon, fui confrontada com o amadorismo da minha escolha: de última hora, eleger pro almoço de domingo um dos endereços mais comentados do Marais recentemente. Encontrei salão lotado, fila no caixa pra fazer os pedidos e considerável espera pra recebê-los. Tivesse pensado um pouco mais, teria tido a sabedoria de programar a visita numa tarde no meio da semana. Mas a fome me fez vencer o ímpeto de ir embora.

Miznon Paris

Miznon Paris

A lotação nos horários de pico não deixa dúvida de que o sucesso do fast-food contemporâneo criado pelo chef Eyal Shani em Tel Aviv se repete em Paris. Não é difícil entender por quê. Apesar da alta concentração de hipsters por metro quadrado e do serviço confuso, o conceito é interessante e a comida é realmente boa.  

Miznon Paris

Miznon Paris

Miznon Paris

Grande parte do enxuto cardápio é dedicada a sanduíches no pão pita, com opções de recheios de carne, peixe e vegetais. Experimentei o kebab da casa, em que o excelente pão ganha a companhia de deliciosas almôndegas de cordeiro. A versão de boeuf bourguignon me intrigou. Por que tirar o clássico do prato e metê-lo num sanduíche? A curiosidade venceu, resolvi provar.  O resultado é meio feio, bagunçado, difícil de abocanhar, mas, afinal, muito saboroso.

Miznon Paris

Miznon Paris

Os vegetais grelhados e assados revelam-se mais que meros acompanhamentos e brilham tanto quanto os protagonistas no cardápio do Miznon. A couve-flor, campeã de vendas, faz jus à fama que tem, mas a batata doce assada, quase um purê, estava ainda melhor. Roubou a cena.

Miznon Paris

Miznon Paris

 

Miznon – 22 rue des Ecouffes – 4ème

https://www.facebook.com/miznonparis

 

Terça, 15 Setembro 2015

Puro Restaurante: minhas primeiras impressões

puro restaurante

Nestes mais de sete anos de blog, acompanhando idas e vindas no cenário da restauração no Rio de Janeiro, tenho aprendido a lidar com a espera antes de emitir opinião sobre um novo lugar. Salvo algumas notáveis exceções, estabelecimentos estreantes costumam claudicar, precisam de tempo pra amadurecer. Não há nada de extraordinário nisso. Extraordinária é a exaltação que prematuramente os cerca. Na cena carioca, é comum uma nova casa ser contemplada com relatos extremamente elogiosos antes mesmo de ganhar consistência. Não raro, começa a arrebatar prêmios quando ainda nem teve oportunidade de merecê-los. Não há quem me convença de que isso não seja prejudicial a seu amadurecimento.

Por que trago essa reflexão à baila? Porque fui tomada por ela nas três visitas que fiz ao (já premiado) Puro desde sua abertura, seis meses atrás. Em todas elas, tive a impressão de estar diante de uma das mais interessantes entre as recentes inaugurações na cidade. O cardápio idealizado pelo chef Pedro Siqueira é bem resolvido e, de modo geral, permeado por uma noção de brasilidade que não chafurda no óbvio. Mas, como é de se esperar nos primeiros meses de vida de um restaurante, sente-se que ainda há muito a lapidar.

puro restaurante

puro restaurante

Minhas refeições ali foram sempre marcadas por altos e baixos. A favor da casa, devo dizer que os pratos quase sempre estiveram saborosos. Se vi boas ideias traduzidas em receitas bem executadas, também testemunhei deslizes. Eu diria que ainda há um ajuste fino a ser feito, de modo que se alcance mais equilíbrio e sutileza no resultado.

Da seleção de entradas, experimentei três. Ótimo pão de queijo com pernil. Bolinhos de arroz de carreteiro, que podiam estar menos gordurosos, mais crocantes. E moela de pato confitada com cebola caramelizada, uma das melhores coisas que comi ali. Perfeita em sabor e textura, tinha a providencial companhia de fatias de brioche pra secar o molho. Voltei a ela meses depois e não encontrei exatamente o mesmo brilho, mas, ainda assim, estava muito boa.

puro restaurante

puro restaurante

puro restaurante

Entre os principais, o que mais me entusiasmou foi o matambre com abóbora caramelada e farofa de erva-mate, que evidencia as raízes do chef. Carne tenra, deliciosa. A abóbora assada seria um belo acompanhamento, não fosse o fato de estar excessivamente doce. Revisitei o prato em outra ocasião. Carne igualmente impecável; abóbora menos doce, porém ainda além do ideal.

puro restaurante

A sublinhar que a cozinha lida bem com carnes, houve também um suculento filé de costela com farofa de milho e legumes tostados. Os vegetais (cebola roxa, aspargo, vagem, ervilha) eram muito saborosos, mas podiam ter menos gordura.

puro restaurante

Do almoço executivo – que, apesar de ter preço convidativo, me parece oferecer um repertório menos interessante que o do cardápio fixo –, provei os “fettuccine à carbonara caipira”. Pedaços grandes de carne de porco roubavam delicadeza ao prato, que em nada me lembrou um bom carbonara.

puro restaurante

Quanto às sobremesas, as três que experimentei estiveram aquém da cozinha salgada.

“Torta quebrada de maçã” (também do executivo): nacos de biscoito, delicadas lâminas de maçã e um creme que não tinha sinal algum de baunilha – o que não seria um problema se o ingrediente não tivesse sido mencionado pelo garçom.

puro restaurante

Creme gelado de limão com farofa de cuca. Embora não estivesse mau, não chegava a ser bom.

puro restaurante

Gostoso doce de abóbora, com bem-vindo frescor de raspas de limão, comprometido, porém, pelo sorvete de tapioca, cuja textura não era boa.

puro restaurante

Em todas as visitas, tive vontade de voltar e acompanhar a evolução do Puro. Prevalece a sensação de que talvez seja só questão de tempo e empenho até que se alinhe a execução ao conceito. Tomara que a euforia da mídia, ávida por novidade, não convença o chef de que vale a pena pegar atalhos.

 

Puro Restaurante – Rua Visconde de Carandaí 43 - Jardim Botânico.

http://www.purorestaurante.com.br/

 

Quarta, 26 Agosto 2015

Sébastien Gaudard, um dos melhores pâtissiers em atuação em Paris

Sébastien Gaudard

Numa cidade com tantos chefs pâtissiers talentosos, é difícil eleger os que mais se distinguem sem correr o risco de omitir alguém injustamente. Mas eu diria que em qualquer seleção haveria lugar pra Sébastien Gaudard entre os melhores.

Eu conhecia superficialmente sua loja na rue des Martyrs. Foi no novo endereço, na rue des Pyramides, que pude observar melhor seu trabalho. Embora, esteticamente, Gaudard não adote uma linguagem moderna, sua abordagem dos clássicos da confeitaria francesa é absolutamente atual, o que se percebe na leveza e no equilíbrio que confere a muitas das receitas executadas.

Sébastien Gaudard

A atordoante vitrine torna árdua a escolha. Acabei preterindo alguns favoritos, como Paris-Brest e Mont Blanc, pra experimentar as tortas de frutas da casa, famosas por delicadeza e frescor. Comi uma boa torta de maçã, mas o que me marcou a memória foi a bourdaloue (pera com amêndoas), que felizmente estava na lista das tartes du jour quando estive lá. Era primavera e os morangos roubavam a cena, mas a bourdaloue está entre as minhas predileções, não pude resistir. A massa era morena, crocante, impecável; o recheio, sutil, pouco doce. Uma delícia.

Sébastien Gaudard

Sébastien Gaudard

No segundo andar da loja, há um salão de chá onde, além de toda a linha de pâtisseries, um enxuto cardápio entra em cena no almoço e no chá da tarde. Aristocrático demais pro meu gosto, mas isso se torna menos importante diante da qualidade do que se serve ali. Não podia deixar de provar o croque-monsieur, eleito o melhor da cidade pelo Le Figaro em 2015. A versão do pâtissier faz jus ao prêmio. Os nacos de presunto do Aveyron e comté AOC ganham a companhia de um bechamel bastante mais leve que o tradicional.

Sébastien Gaudard

Ainda levei pra viagem um choux caramelizado e deliciosas frutas confitadas.

Sébastien Gaudard

Sébastien Gaudard

Já na porta, ponderei voltar pra arrematar umas castanhas glaçadas e uns chocolates. Pelo bem da minha saúde financeira, saí sem olhar pra trás.

 

Sébastien Gaudard - 22 Rue des Martyrs - 9ème (loja) / 1 rue des Pyramides - 1er (loja e salão de chá)

http://www.sebastiengaudard.com/

Quinta, 06 Agosto 2015

Le Case della Saracca: minha morada no Piemonte

Le Case della Saracca

De um lado, vislumbrava o caminho que conduz ao belíssimo anfiteatro na parte mais alta da aldeia. De outro, a paisagem que, meses depois, ainda parece colada à minha retina: vinhedos a perder de vista, emoldurados ao longe pelos Alpes. Na chegada ao B&B Le Case della Saracca, uma construção medieval no centro histórico de Monforte d’Alba, eu não tinha dúvida de estar num canto do planeta onde as obras do homem e da natureza são superlativas.

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

Quem opta por se hospedar ali abre mão de alguns confortos típicos de hotéis, mas as compensações não são poucas. Não há TV nos quartos e o sinal de Internet é temperamental, mas, diante da impressionante edificação em pedra, do belo mobiliário e das poéticas janelas e varandas abertas pro vilarejo, quem precisa desses aparatos?

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

Os quartos são, na verdade, um anexo do bar comandado pelo proprietário do lugar, que soube modernizar o imóvel sem descaracterizá-lo.  O espaço intimista me pareceu ideal pra um aperitivo ao anoitecer.

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

A acompanhar a boa oferta de vinhos em taça, que vai além dos tintos que fazem a fama da região, uma seleção de queijos e charcutaria é oferecida pela casa. No cardápio, há uma gama maior de salames e presuntos, além de deliciosos exemplares da queijaria local e algumas opções de pratos.

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

Conforme a noite avançasse, era entregar-se ao dilema diário de escolher onde jantar, tendo a poucos minutos de distância lugares como Roddino e Serralunga d'Alba, que me proporcionaram minhas mais felizes refeições na temporada no Piemonte, como contei neste post e neste outro.

 A volta pra casa tinha sempre a companhia da neblina que invadia as ruas desertas de Monforte, dando a elas um ar ainda mais nostálgico. Era quase possível ouvir Nino Rota. Mas a trilha sonora imaginária logo se rendia ao silêncio profundo que embalaria nosso sono.

Le Case della Saracca

Le Case della Saracca

Le Case dela Saracca – Via Camillo Benso Conte di Cavour, 5 - Monforte d’Alba

http://www.saracca.com/

 

 

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