Pra quem quiser me visitar....
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  • El Garzon: o refúgio uruguaio de Francis Mallmann
  • Restaurante Casa Velha: só Minas é assim
  • Esse Brasil que a gente deixa pra depois
  • Uruguai à mesa: minha curta temporada na região de Maldonado
  • Glouton, em Belo Horizonte: a cozinha de Leonardo Paixão
  • Los Mellizos: churros e nostalgia em Montevidéu
  • Casa Cavé: pastéis e memória
  • Bitaca da Leste: pequena joia em Belo Horizonte
Quarta, 06 Janeiro 2016

Casa Cavé: pastéis e memória

Casa Cavé

No apagar das luzes de dezembro, uma despretensiosa visita à Casa Cavé, histórica confeitaria no Centro do Rio de Janeiro, me rendeu um dos melhores momentos à mesa em 2015.

Pastéis de nata recém-assados (massa crocante, recheio gostoso) me levaram sem escalas ao querido Portugal. Através do olhar de minha mãe, que me acompanhava naquela manhã, eu iria ainda mais longe. Pra ela, havia mais que um país naqueles bocados. 

Fazia décadas que não entrava na Cavé. Diante do balcão de doces, viajou mais de cinquenta anos no tempo, lembrando a época em que visitava a confeitaria com minha avó e minha bisavó. Aquela seria apenas a ponta de um carretel de recordações. Desandou a falar de sua infância, dos passeios ao Centro com a mãe, dos cabritos inteiros que o pai trazia pra assar em casa, das receitas preparadas carinhosamente pela avó – peixes empanados no fubá, carne assada com molho ferrugem, filhoses, doce de banana "vermelhinho".

Eis a riqueza de fazer da refeição um ato compartilhado. Cada pessoa traz consigo à mesa sua bagagem cultural, sua história, suas lembranças. Tivesse ido sozinha à Cavé, eu provavelmente teria saboreado os pastéis de nata com o mesmo prazer, mas a experiência teria sido outra. Irremediavelmente outra.

 

Casa Cavé – rua Sete de Setembro 133 (esquina com Uruguaiana) – Centro

http://www.casacave.com.br/

Terça, 08 Dezembro 2015

Restaurante Casa Velha: só Minas é assim

Restaurante Casa Velha

Fazia pouco mais de uma hora que havíamos deixado Belo Horizonte. A caminho de Inhotim, parada providencial num povoado batizado Córrego do Feijão. A fachada do restaurante na praça central anunciava: “comida e estilo da roça”. Estávamos no lugar certo.

Restaurante Casa Velha

Diante do fogão a lenha, um verdadeiro banquete: pernil de porco pururuca, ensopado de língua de boi com linguiça, galinha caipira, cozido de costela e maçã de peito com milho, tutu, angu de fubá de moinho d'água, aipim, jiló, quiabo refogado.

Restaurante Casa Velha

Restaurante Casa Velha

Restaurante Casa Velha

Restaurante Casa Velha

O dono do restaurante, que nos recebe como em sua própria sala, pergunta se queremos ovos caipiras fritos e folhas refogadas (couve, mostarda, ora-pro-nóbis). Sim, queríamos tudo. Não renunciaríamos a nenhum daqueles pratos, que tinham jeito e gosto de casa, inclusive em suas eventuais imperfeições.   

Restaurante Casa Velha

Restaurante Casa Velha

Acomodada à sombra de uma jabuticabeira, sob os olhares dos cães e de olho nas redes que convidavam à sesta, eu me dava conta de que o que se serve ali é mais que comida. É acolhimento, conforto, memória. Um lugar que nos desperta sensação oposta àquela que Nina Horta descreve com tanta clareza na crônica Exílio: “E tem uma hora em que você está distraído, jantando num restaurante caro, e sente aquele ‘não pertencer’ no ar. (...) e você pensa: ‘O que estou fazendo aqui, jantando vieiras com aspargos sob um lustre de cristal preto?’. Não sou eu, com certeza.”  

O Casa Velha é o tipo de restaurante que nos ajuda a não esquecer quem somos.

 

Casa Velhawww.casavelhacorregodofeijao.com.br

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Terça, 24 Novembro 2015

Glouton, em Belo Horizonte: a cozinha de Leonardo Paixão

Glouton Belo Horizonte

Acomodada no belo quintal do Glouton, eu relembrava as palavras da chef Tanea Romão numa conversa que tivemos em seu restaurante, em Tiradentes, há pouco mais de um ano. “Quando voltar a Belo Horizonte, vá ao restaurante do Leonardo Paixão, que é um dos grandes talentos da nova geração em Minas”, ela me disse então. O nome não era novidade pra mim, mas sua recomendação fez crescer meu interesse pelo trabalho do moço.

Glouton Belo Horizonte

Observava os quadros com motivos franceses espalhados pelas paredes e me perguntava se Tanea teria mesmo razão. A chegada do cardápio deixou tudo mais claro pra mim: em meio a referências outras, era possível vislumbrar na cozinha da casa um senso de pertencimento ao lugar onde está – o que diz respeito especialmente a escolha e abordagem de ingredientes. Talvez os quadros fossem apenas uma referência afetuosa ao país onde o chef morou e cursou gastronomia. Questão de gosto.

Glouton Belo Horizonte

A refeição que eu faria a seguir me daria certeza de que a mineira não exagerou quanto ao talento do colega.

Começamos pelo elogiado polvo com farofa crocante. Sabendo que não se tratava de farinha de mandioca, perguntei ao garçom o que havia na tal farofa. Quando ele disse “Neston”, quase fiquei surda pros demais ingredientes – amêndoas e trigo sarraceno. Ponderei mudar o pedido, mas decidi desafiar o preconceito e fui em frente. Não me arrependi, era uma delícia. O mesmo posso dizer do polvo, em ponto perfeito. 

Glouton Belo Horizonte

O tenro cupim assado com Caracu tinha a companhia de angu de canjica branca. Muito bom, mas ainda melhor estava a papada de porco com mil-folhas de mandioca e molho de laranja. Diante da carne úmida e extremamente saborosa, a faca se tornava mero adereço. Além do gostoso mil-folhas de mandioca, uma folha de acelga trazia crocância e bem-vinda nota de amargor a dialogar com a sutil doçura do molho de laranja.

Glouton BH

Glouton BH

No último ato, uma delicada homenagem ao Cerrado Mineiro: sorbet de cagaita, coulis de coquinho azedo e um delicioso pó de casca de buriti, que me fez esquecer a boa educação e limpar o prato com os dedos.

Glouton BH

 

Glouton – Rua Bárbara Heliodora 59 – Lourdes – Belo Horizonte

http://glouton.com.br/

Terça, 20 Outubro 2015

Bitaca da Leste: pequena joia em Belo Horizonte

Bitaca da Leste

Tempos estranhos esses em que, mesmo nas capitais brasileiras mais devotas dos botecos, é possível atravessar dezenas de quarteirões povoados por bares sem alma, modelo de negócio que aparentemente encontra terreno propício na esterilidade das nossas metrópoles. É assim em muitos bairros do meu Rio de Janeiro. Belo Horizonte não me parece ter melhor destino. Felizmente, a esperança ressurge a cada iniciativa que contraria essa lógica, como a nos lembrar que ainda há donos de bar que gostam mais de seu ofício do que de dinheiro.

Foi isso que senti ao chegar à Bitaca da Leste, no bairro de Santa Tereza: esperança. No comando do lugar, um jovem casal disposto a investir num tipo de estabelecimento que nossas grandes cidades insistem em sufocar. Misto de mercearia e botequim, o espaço inaugurado no ano passado ostenta em suas prateleiras bons representantes do artesanato culinário de Minas Gerais: doces, queijos, farinhas. Pilotada por um dos donos (o chef Luiz Paulo Mairink), a cozinha funciona três vezes por semana: nas noites de terças e quintas e nos almoços dos sábados. No enxuto cardápio, é possível encontrar iguarias como torresmo de barriga de porco, sanduíche de linguiça, escondidinho de jiló, além dos PFs da casa.

Bitaca da Leste

Bitaca da Leste

Bitaca da Leste

Nos acomodamos no diminuto balcão e, embalados por um LP de Paulinho da Viola, tivemos uma refeição que iluminou nossa tarde e nos deixou imensa vontade de voltar. Eis o breve, mas memorável percurso.

Delicioso escondidinho de jiló com requeijão moreno de Turmalina.

Bitaca da Leste

Torresmo de barriga de porco, que é previamente assado e rapidamente finalizado na fritura, apenas o suficiente pra pururucar. Infernal.

Bitaca da Leste

Pão recheado com saborosa linguiça (de porco com páprica) e chucrute, ambos feitos ali, e ainda um naco do mesmo requeijão moreno que abrilhantou o escondidinho.

Bitaca da Leste

Pra alimentar a saudade, trouxe comigo um pouco da bitaca: pequena marmita da carne de lata de produção própria, uma beleza. Dessas coisas que me põem a pensar que preciso ir a Minas com mais frequência.

 

Bitaca da Leste – rua Salinas 2421 – Santa Tereza

https://www.facebook.com/bitacadaleste

Quarta, 07 Outubro 2015

Miznon, em Paris: mais que um fast-food

Miznon Paris

Ao cruzar a entrada do Miznon, fui confrontada com o amadorismo da minha escolha: de última hora, eleger pro almoço de domingo um dos endereços mais comentados do Marais recentemente. Encontrei salão lotado, fila no caixa pra fazer os pedidos e considerável espera pra recebê-los. Tivesse pensado um pouco mais, teria tido a sabedoria de programar a visita numa tarde no meio da semana. Mas a fome me fez vencer o ímpeto de ir embora.

Miznon Paris

Miznon Paris

A lotação nos horários de pico não deixa dúvida de que o sucesso do fast-food contemporâneo criado pelo chef Eyal Shani em Tel Aviv se repete em Paris. Não é difícil entender por quê. Apesar da alta concentração de hipsters por metro quadrado e do serviço confuso, o conceito é interessante e a comida é realmente boa.  

Miznon Paris

Miznon Paris

Miznon Paris

Grande parte do enxuto cardápio é dedicada a sanduíches no pão pita, com opções de recheios de carne, peixe e vegetais. Experimentei o kebab da casa, em que o excelente pão ganha a companhia de deliciosas almôndegas de cordeiro. A versão de boeuf bourguignon me intrigou. Por que tirar o clássico do prato e metê-lo num sanduíche? A curiosidade venceu, resolvi provar.  O resultado é meio feio, bagunçado, difícil de abocanhar, mas, afinal, muito saboroso.

Miznon Paris

Miznon Paris

Os vegetais grelhados e assados revelam-se mais que meros acompanhamentos e brilham tanto quanto os protagonistas no cardápio do Miznon. A couve-flor, campeã de vendas, faz jus à fama que tem, mas a batata doce assada, quase um purê, estava ainda melhor. Roubou a cena.

Miznon Paris

Miznon Paris

 

Miznon – 22 rue des Ecouffes – 4ème

https://www.facebook.com/miznonparis

 

Terça, 15 Setembro 2015

Puro Restaurante: minhas primeiras impressões

puro restaurante

Nestes mais de sete anos de blog, acompanhando idas e vindas no cenário da restauração no Rio de Janeiro, tenho aprendido a lidar com a espera antes de emitir opinião sobre um novo lugar. Salvo algumas notáveis exceções, estabelecimentos estreantes costumam claudicar, precisam de tempo pra amadurecer. Não há nada de extraordinário nisso. Extraordinária é a exaltação que prematuramente os cerca. Na cena carioca, é comum uma nova casa ser contemplada com relatos extremamente elogiosos antes mesmo de ganhar consistência. Não raro, começa a arrebatar prêmios quando ainda nem teve oportunidade de merecê-los. Não há quem me convença de que isso não seja prejudicial a seu amadurecimento.

Por que trago essa reflexão à baila? Porque fui tomada por ela nas três visitas que fiz ao (já premiado) Puro desde sua abertura, seis meses atrás. Em todas elas, tive a impressão de estar diante de uma das mais interessantes entre as recentes inaugurações na cidade. O cardápio idealizado pelo chef Pedro Siqueira é bem resolvido e, de modo geral, permeado por uma noção de brasilidade que não chafurda no óbvio. Mas, como é de se esperar nos primeiros meses de vida de um restaurante, sente-se que ainda há muito a lapidar.

puro restaurante

puro restaurante

Minhas refeições ali foram sempre marcadas por altos e baixos. A favor da casa, devo dizer que os pratos quase sempre estiveram saborosos. Se vi boas ideias traduzidas em receitas bem executadas, também testemunhei deslizes. Eu diria que ainda há um ajuste fino a ser feito, de modo que se alcance mais equilíbrio e sutileza no resultado.

Da seleção de entradas, experimentei três. Ótimo pão de queijo com pernil. Bolinhos de arroz de carreteiro, que podiam estar menos gordurosos, mais crocantes. E moela de pato confitada com cebola caramelizada, uma das melhores coisas que comi ali. Perfeita em sabor e textura, tinha a providencial companhia de fatias de brioche pra secar o molho. Voltei a ela meses depois e não encontrei exatamente o mesmo brilho, mas, ainda assim, estava muito boa.

puro restaurante

puro restaurante

puro restaurante

Entre os principais, o que mais me entusiasmou foi o matambre com abóbora caramelada e farofa de erva-mate, que evidencia as raízes do chef. Carne tenra, deliciosa. A abóbora assada seria um belo acompanhamento, não fosse o fato de estar excessivamente doce. Revisitei o prato em outra ocasião. Carne igualmente impecável; abóbora menos doce, porém ainda além do ideal.

puro restaurante

A sublinhar que a cozinha lida bem com carnes, houve também um suculento filé de costela com farofa de milho e legumes tostados. Os vegetais (cebola roxa, aspargo, vagem, ervilha) eram muito saborosos, mas podiam ter menos gordura.

puro restaurante

Do almoço executivo – que, apesar de ter preço convidativo, me parece oferecer um repertório menos interessante que o do cardápio fixo –, provei os “fettuccine à carbonara caipira”. Pedaços grandes de carne de porco roubavam delicadeza ao prato, que em nada me lembrou um bom carbonara.

puro restaurante

Quanto às sobremesas, as três que experimentei estiveram aquém da cozinha salgada.

“Torta quebrada de maçã” (também do executivo): nacos de biscoito, delicadas lâminas de maçã e um creme que não tinha sinal algum de baunilha – o que não seria um problema se o ingrediente não tivesse sido mencionado pelo garçom.

puro restaurante

Creme gelado de limão com farofa de cuca. Embora não estivesse mau, não chegava a ser bom.

puro restaurante

Gostoso doce de abóbora, com bem-vindo frescor de raspas de limão, comprometido, porém, pelo sorvete de tapioca, cuja textura não era boa.

puro restaurante

Em todas as visitas, tive vontade de voltar e acompanhar a evolução do Puro. Prevalece a sensação de que talvez seja só questão de tempo e empenho até que se alinhe a execução ao conceito. Tomara que a euforia da mídia, ávida por novidade, não convença o chef de que vale a pena pegar atalhos.

 

Puro Restaurante – Rua Visconde de Carandaí 43 - Jardim Botânico.

http://www.purorestaurante.com.br/

 

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