Pra quem quiser me visitar....
  • Provence: o mercado de Saint-Rémy
  • A hora do chá no Le Meurice, em Paris
  • Berlim, de bocado em bocado
  • “Redefinindo Sustentabilidade”: Parabere Forum chega à terceira edição debatendo a igualdade de gênero na gastronomia
  • Lenha no fogão: comida e memória no sul de Minas Gerais
  • Fazenda do Serrote: refúgio na divisa entre Rio e Minas Gerais
  • Restaurante Roberta Sudbrack fecha as portas no Rio de Janeiro: o fim pode ser uma ponte?
  • Padaria da Esquina, a nova casa de Vitor Sobral em São Paulo: minhas impressões
  • The Slow Bakery, o café
Segunda, 14 Novembro 2016

Berlim, de bocado em bocado

Berlim

Cheguei a Berlim sem grandes expectativas e com reserva em apenas um restaurante. Não tive tempo nem disposição pra planejar a viagem como gostaria. Talvez exatamente por isso tenham sido tão leves e felizes os dias que passei ali. O fato de não haver muitos planos engessando minha curta temporada na cidade abriu espaço pra algo que raramente me permito quando visito um lugar pela primeira vez: liberdade absoluta. Caminhar sem obrigações, descobrir a cidade ao sabor dos desejos do dia. A escolha de onde comer  seria ditada pela geografia do roteiro

Obrigatório mesmo só o primeiro café pela manhã na The Barn Coffee Roasters – na companhia de pães de canela, cookies ou uma fatia de bolo de cenoura, todos ótimos.

The Barn Coffee Roasters

The Barn Coffee Roasters

The Barn Coffee Roasters

Dependendo do rumo que tomássemos depois disso, havia ainda uma parada pra um delicioso apfel-zimt schnecke (pão de maçã com canela) na padaria Zeit Für Brot.  

Zeit Für Brot

Zeit Für Brot

Zeit Für Brot

Na tarde de domingo no mercado de pulgas do Mauerpark, fizemos como os locais: nos acomodamos no biergarten pra saborear despretensiosamente uma porção de currywurst, sob a poética luz da transição entre verão e outono.

Mauerpark

Mauerpark

Mauerpark

Se o dia nos levasse a um passeio no Tiergarten, ao fim do percurso, estávamos a uma breve caminhada da KaDeWe – que seria apenas mais uma entediante loja de departamentos, não fosse por seu maravilhoso food hall no último andar. A variedade de opções no balcão de salsichas e linguiças é capaz de deixar um estrangeiro em transe. Experimentei duas delas e gostei especialmente da Krainer Wurst, que não é alemã, mas eslovena. Os acompanhamentos, chucrute e salada de batata, eram saborosos e delicados. Como não bastasse, dali seguimos pra outro balcão, onde fomos ao encontro de um crocante Wiener Schnitzel.

Tiergarten

KaDeWe

KaDeWe

KaDeWe

KaDeWe

Se a tarde se encerrasse às margens do Landwehr, bucólico canal paralelo ao rio Spree, convinha antes uma pausa pra tomar um café no Five Elephant Coffee, de onde não se pode sair sem experimentar uma fatia de seu cheesecake, que faz jus à fama que tem.

Landwehr

Five Elephant

Five Elephant

Five Elephant

A flanar por Kreuzberg, era inevitável uma parada no Markthalle Neun, dos melhores programas a nos socorrer quando a fome nos alcançasse naquelas paragens. O mercado mantém o ambiente de galpão antigo, sem apelar pra manobras estéticas que lhe pudessem tirar a verdade em nome da modernidade. Às quintas-feiras acontece o festival de comida de rua, mas, como minha passagem pela capital alemã não calhou de coincidir com uma noite de quinta-feira, estive ali numa tarde no meio da semana, quando os corredores ficam pouco movimentados – o que não é mau pra alguém que, como eu, não seja afeito a multidões.

Markthalle Neun

Markthalle Neun

Comprei uma cerveja no bar e segui pra Kumpel & Keule, templo de carnes e embutidos, onde servem algumas das salsichas expostas na vitrine, além de um hambúrguer tão simples quanto gostoso: carne saborosa, folhas frescas, bacon defumado no próprio mercado. Quando os ingredientes são bons assim, não é preciso muito mais.

Markthalle Neun

Markthalle Neun

Markthalle Neun

Markthalle Neun

A atmosfera do mercado, em alguma medida, soou como uma síntese das impressões que Berlim deixou em mim: uma cidade que me transmitiu a sensação de raro equilíbrio entre memória e modernidade, artesanato e tecnologia, metrópole e cidade do interior. Só penso em voltar.

The Barn Coffee Roasters – Schönhauser Allee 8 / Também na Auguststraße 58

 http://barn.bigcartel.com/

Zeit Für Brot – Alte Schönhauser Straße 4

http://www.zeitfuerbrot.com/

KaDeWe – Tauentzienstraße 21-24

http://www.kadewe.de/en/home_english/

Five Elephant Coffee – Reichenberger Straße 101

http://www.fiveelephant.com/

Markthalle Neun – Eisenbahnstraße 42-43

https://markthalleneun.de/

Segunda, 10 Outubro 2016

Dufte Padaria Alemã: mais uma boa descoberta na Junta Local

Dufte Padaria Alemã

Ao passar pela banca da Dufte Padaria Alemã numa das últimas edições da feira Junta Local, não houve como não notar os lindos bolos expostos: um de queijo, outro de maçã. Tive vontade de provar os dois, mas, àquela altura, nada mais cabia na bolsa que eu levava.

Guardei o nome do produtor, procurei nas redes sociais, entrei em contato por e-mail. Soube que não tem endereço aberto ao público, mas aceita encomendas. Fiz algumas nas semanas seguintes, a fim de satisfazer a curiosidade que me consumia desde então. 

Pelo que experimentei, eu diria que a linha de confeitaria me entusiasmou mais que seu trabalho de panificação. Talvez porque o Rio de Janeiro já tenha evoluído mais nesse último quesito do que no primeiro. Se recentemente a cidade passou a contar com padeiros de primeira grandeza, quando o assunto é confeitaria, não temos tido a mesma a sorte. São raros os endereços a nos salvar da infâmia.

Resta aos inquietos buscar caminhos menos óbvios, como os que me levaram à Dufte.

Seus berliners – sonhos, para os íntimos – são gostosos, mais delicados do que os que costumamos encontrar por aqui. Optei pela versão sem recheio e providenciei o acompanhamento: geleia de morango com amora, feita em casa.

Dufte Padaria Alemã

Dufte Padaria Alemã

Encomendei também os dois bolos que me desconcertaram naquele primeiro encontro, semanas antes: käsekuchen, bolo alemão feito com queijo quark, mais aerado, menos denso que o cheesecake americano, e apfelkuchen, bolo de maçã, leve e perfumado. Ambos equilibrados, sem exagero de açúcar. Deliciosos.

Dufte Padaria Alemã

Dufte Padaria Alemã

Trabalhos como esse nos provam que as respostas estão por aí, à espera de que as desvendemos. Se as vitrines que povoam os logradouros públicos, mesmo os supostamente mais privilegiados, nem sempre nos dão o que merecemos, há em nosso socorro as redes sociais e as iniciativas de gente inconformista como a turma da Junta Local. Basta manter os olhos bem abertos.

 

Dufte Padaria Alemãhttps://www.facebook.com/Dufte-Padaria-Alem%C3%A3-1660241080887286/

duftepadaria@gmail.com

Terça, 20 Setembro 2016

Fazenda do Serrote: refúgio na divisa entre Rio e Minas Gerais

Fazenda do Serrote

Cinco anos atrás, uma amiga me descreveu a Fazenda do Serrote, em Santo Antônio do Aventureiro, como a materialização do éden. Aquela conversa ficou na minha memória, jamais esqueci. No último fim de semana, meio de improviso, acabei buscando ali a pausa de que andava precisando.

Fazenda do Serrote

Telefonei pro hotel poucos dias antes e encontrei um último quarto ainda disponível. A boa notícia veio acompanhada de uma informação que representava uma ameaça a minha expectativa de dias de sossego e contemplação: haveria 28 crianças hospedadas na fazenda naquele fim de semana. Sim, vinte e oito. Emudeci por uns minutos, mas confirmei a reserva.  Fui em frente, em busca do paraíso que me fora prometido.

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Passado o receio inicial, compreendi que o lugar ganha certo encanto com a presença dos miúdos, esses seres que, como diria Drummond, são comandados pela imaginação e dispõem de todos os filtros da poesia.

Foi divertido ouvir os gritinhos da menina deslumbrada diante de um coelho, como se se tratasse de um acontecimento raro como a passagem de um cometa. Achei graça no garoto sentado à beira do lago empunhando uma vara sem linha, nem anzol, na ilusória crença de que arremataria muitos peixes. Me vi curiosa diante de um par de pequenas botas cor-de-rosa à porta de um dos quartos, imaginando quem seria sua dona. Ri ao ouvir o menino que voltava da ordenha dizendo que havia tirado leite "pra cidade inteira".

No Serrote, os universos dos adultos e das crianças dialogam com leveza e naturalidade, sem a artificialidade e o mau gosto que costumam imperar em boa parte dos chamados hotéis-fazenda.

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Ao burburinho dos miúdos, somavam-se o mugido das vacas, o relincho dos cavalos e a inigualável sinfonia das aves, muitas delas em toda parte – em voos rasantes no lago, em revoada invadindo os salões do casarão ou em reuniões improvisadas à sombra das árvores. 

Melodia mais doce só mesmo a da sineta anunciando que a refeição estava posta. Os jantares não me pareceram dignos de nota, mas no café da manhã e nos almoços Dona Luzia revelava os atributos que a mantêm há vinte anos no comando daquela cozinha.

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Pela manhã, pães de queijo, broinhas de milho, bananas fritas, geleias de frutas (jambo, carambola, manga, goiaba, jabuticaba).

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

À tarde, ao lado de pratos menos atraentes, havia sempre uma bem-vinda receita mineira. No sábado, delicioso tutu,acompanhado de arroz, farofa e almeirão refogado. No domingo, feijão tropeiro, que é um dos meus fracos – sobrava-lhe um tanto de sal, mas não lhe faltava sabor. Assim como não me faltou coragem pra pedir bis.

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Encerrando todas as refeições, doce de leite, ambrosia e doces de mamão, abóbora, goiaba, laranja. 

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Fazenda do Serrote

Embora a atmosfera da fazenda nos desse a sensação de deixar o tempo em suspenso, o relógio galopava rumo ao inevitável: a difícil tarefa de lidar com a segunda-feira, quando se passa o dia à espera do som da sineta e ele não vem.

 

Fazenda do Serrote - fazendadoserrote.com.br

Domingo, 14 Agosto 2016

Caricatura do Rio de Janeiro em reportagem sem profundidade no NYT: “The restaurant scene here can most charitably be described as ‘meh’”

Fiquei surpresa ao ler no New York Times o artigo intitulado  Rio’s Carnival for the Senses Ends at the Food Line. Ainda me pergunto como um jornal que aborda o que se passa nas cozinhas de Nova Iorque com tanta seriedade e tanta competência permitiu-se publicar reportagem tão rasa a respeito do cenário gastronômico no Rio de Janeiro.

Me sinto à vontade para criticar a pouca profundidade com que se abordou a questão porque jamais me abstive de fazer as críticas que a cidade merece nesse quesito. Preços extorsivos e serviço ineficiente estão entre elas. Não sou uma bairrista ingênua, sei que não ostentamos em cada esquina restaurantes com os atributos encontrados nas mesas de metrópoles como Barcelona, Paris ou Nova Iorque. Nem é preciso ir tão longe. Sou da opinião de que mesmo São Paulo está anos-luz à frente do Rio no que diz respeito a esta oferta. Contudo, isso não significa que sejamos tão desinteressantes como o NYT faz crer.

Fica a impressão de que o jornalista não empenhou um mínimo de tempo e boa vontade em se aprofundar no assunto sobre o qual discorre. É o que sugere o fato de dedicar grande parte do artigo a um minucioso relato do culto ao Biscoito Globo, que ele alça ao patamar de grande ícone de nossa cultura culinária, o que o leva a concluir que a falta de sabor da rosquinha seria uma tradução perfeita do que é nossa comida. Isso é tão reducionista quanto avaliar a cena gastronômica nos EUA a partir da adoração dos americanos por manteiga de amendoim. Ou imaginar que se pode definir o gosto dos nova-iorquinos a partir de sua paixão pelos black-and-white cookies ou da popularidade dos enjoativos cupcakes da famosa Magnolia Bakery.

Reducionismo é o que se vê também no comentário irônico em que contextualiza o restaurante de Rafa Costa e Silva, o Lasai, como "comida de inspiração basca". Será que ele esteve lá? Se esteve não deve ter experimentado a tapioca de rabada ou o bolo de fubá com sorvete de banana. Talvez não tenha entendido os muitos pratos produzidos com o que há de melhor nas hortas do chef e nas dos pequenos produtores que integram sua rede de fornecedores.

Não é difícil pensar em tantos outros lugares a respeito dos quais o repórter poderia ter pesquisado se, de fato, quisesse saber o que o Rio tem de bom a oferecer. E não é razoável o argumento de analisar sob a perspectiva dos não iniciados, que têm grandes chances de acabar matando sua fome em estabelecimentos de baixa qualidade. Afinal, isso também acontece com os incautos em cidades como Nova Iorque e Paris, onde os bons restaurantes são muitos, mas, ainda assim, menos numerosos que as centenas de endereços inexpressivos ou mesmo ruins.   

Para não ficar na abstração, exemplifico. Suponho que o jornalista não tenha experimentado os bolinhos de aipim, os bolinhos de feijoada ou a moqueca de banana-da-terra com palmito pupunha no Aconchego Carioca. Provavelmente não descobriu a The Slow Bakery, excelente padaria artesanal onde poderia ter provado um clássico do nosso café da manhã - o pão com manteiga dourado na chapa, acompanhado de café com leite - numa de suas melhores versões. Naturalmente, não passou pela loja Chocolate Q, onde poderia ter conhecido o trabalho de Samantha Aquim, que produz exclusivamente com cacau brasileiro chocolates que, em matéria de sabor, não perdem para as barras da celebrada Mast Brothers. Nem se interessou em experimentar os deliciosos sorvetes de frutas produzidos na Vero – caju, manga, abacaxi com cardamomo, banana com cumaru, para citar alguns.

A curiosidade não o teria levado ao restaurante de Roberta Sudbrack , onde a chef exibe um Brasil moderno e profundo, que não cede à armadilha do exotismo? Presumo que também não tenha estado no Olympe, cujo cardápio, ao lado das criações atuais de Thomas Troisgros, estampa a história de seu pai, o chef Claude Troisgros, um dos responsáveis por fazer com que os cariocas começassem a valorizar os produtos brasileiros.  Possivelmente não visitou o Oro, onde Felipe Bronze apresenta sua moderna cozinha brasileira, a partir de um olhar lúdico. 

Se tivesse feito isso, quem sabe pudesse ter oferecido ao leitor do Times um retrato menos caricato do Rio de Janeiro.

 

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Quinta, 04 Agosto 2016

The Slow Bakery, o café

The Slow Bakery

Já falei algumas vezes sobre a The Slow Bakery neste blog. A última delas foi num post publicado em março, quando a padaria havia acabado de ganhar endereço aberto ao público, com um café anexo à área de produção. Já fazia quase um ano que seus maravilhosos pães frequentavam minha mesa, mas sobre o café ainda era cedo pra opinar. Hoje, quatro meses e muitas visitas depois, não só posso, mas devo fazê-lo.

Trata-se de um dos lugares que mais tenho frequentado no Rio. As razões pra isso não são poucas. Algumas são objetivas, como a qualidade dos pães e de tudo mais que se serve ali. Outras, bastante subjetivas, como a admiração e o respeito que tenho pela dupla que comanda o espaço, Rafael e Ludmila, e minha afinidade com sua visão do mundo das comidas. É gente competente e séria, que não busca fama e status, mas realização. O sucesso é consequência.

The Slow Bakery

Lembro bem o dia em que essa admiração ultrapassou os pães e chegou às pessoas por trás dos fornos. Numa das edições da feira Junta Local no ano passado, fui à banca da padaria pra me abastecer e acabei engrenando uma conversa com Ludmila. Comentei que já era cliente na venda on-line fazia alguns meses e ela então perguntou meu nome. Quando respondi, ela dirigiu-se ao parceiro e disse: “Rafa, você não vai acreditar, essa é a Constance”. Das primeiras palavras dele não me recordo, pois, àquela altura, a timidez embotava minha compreensão. Mas consegui recuperá-la a tempo de ouvir o mais importante: “Olha, foi lendo seu blog que descobri os incríveis pães da Flávia Maculan. Pensei: ‘esse é o pão que eu quero fazer’. Entrei em contato com ela, que me recebeu em São Paulo, foi muito bacana.”

Naquele momento, entendi que tão grandes quanto os pães da The Slow Bakery são as pessoas que a comandam. Só os grandes são capazes de tamanha humildade. Essa impressão é reforçada em mim a cada visita desde que o café foi inaugurado. Além de comer bem, sempre aproveito pra observar o movimento da cozinha e trocar dois dedos de prosa com o casal.

The Slow Bakery

Digo tudo isso pra que fique claro pro leitor que não são meramente objetivos os motivos que me munem de paciência pra enfrentar as filas de espera e as falhas que ainda há no serviço – que ficam bastante evidentes nos horários de pico. Mas quem se dispuser a ir em frente, há de encontrar compensações. Compartilho aqui algumas delas.

No café da manhã, não abro mão do pão dourado na chapa e do ótimo pingado, que elevam o clássico de nossos desjejuns a outro patamar. Nos dias em que a fome é maior, vou além e acrescento ao pedido uma panelinha de ovo.

The Slow Bakery

The Slow Bakery

Os sanduíches da casa são deliciosos. Ostentam virtude rara nas mesas cariocas, a de unir excelentes pães a ingredientes igualmente excelentes nos recheios. No misto-quente, brilha o sabor do queijo meia cura da Mantiqueira, que reaparece no queijo-quente, onde ganha a companhia de um naco de parmesão da Mantiqueira. No Croque do Padeiro, ressurgem estes mesmos queijos: um no recheio, ao lado de presunto e delicado bechamel; o outro, gratinado, na finalização. Já o Italianinho traz mortadela, mostarda e rúcula entre duas fatias de uma tremenda focaccia.  

The Slow Bakery

The Slow Bakery

The Slow Bakery

Além do que já está no cardápio, há boas promessas de novidades. Tenho visto receitas sendo testadas, como os bolos feitos com fermento natural, em cujo aperfeiçoamento a equipe ainda está trabalhando. Ou o ótimo brioche, resultado de 48 horas de fermentação, que tive a chance de experimentar antes de ser colocado à venda.  O brioche, aliás, é base da mais nova criação em teste, que prestará homenagem a um ícone das lanchonetes cariocas, o joelho, tão negligenciado nos balcões da cidade.

The Slow Bakery

Por todas essas razões, sigo voltando a este belo lugar com que Ludmila e Rafael nos presentearam. Num cenário onde o sucesso é cada vez mais perseguido como fim em si mesmo, e não necessariamente resultado de trabalho e dedicação, é um alento contar com um mais um endereço onde há comida de verdade feita por gente de verdade, não por personagens.

The Slow Bakery – Rua São João Batista 93 – Botafogo

http://www.theslowbakery.com.br/

Quinta, 07 Julho 2016

O novo Oro: Felipe Bronze de volta em novo endereço

Restaurante Oro

Lembro com clareza a noite em que fui jantar pela primeira vez no Oro. Era novembro de 2010 e Felipe Bronze havia acabado de inaugurá-lo. Seu passado claudicante e polêmico inspirava receio geral. Cheguei ao restaurante sem grande expectativa e tive a surpresa de um ótimo jantar.

Há poucos dias, ao entrar na casa reinaugurada em abril em novo endereço, o sentimento era parecido, ainda que os motivos fossem de outra ordem. A circunstância atual do chef é bastante diferente daquela em que ele se encontrava seis anos atrás. Ao longo desse tempo, Bronze parece ter abalado a incredulidade de formadores de opinião e recuperado o respeito de seus pares. A ameaça à solidez do trabalho realizado nos últimos anos talvez assuma agora novos contornos. No comando de diversos programas de TV, ele ganhou status de celebridade, o que sempre me soa perigoso, não só pela superexposição em si, mas porque cozinheiros nesta condição tendem a passar mais tempo fora da cozinha do que dentro dela.

O fato é que, como naquela primeira visita em 2010, embora eu tenha chegado receosa quanto ao que encontraria, fui novamente surpreendida com uma bela refeição. 

Oro Felipe Bronze

É possível vislumbrar sinais de amadurecimento no novo Oro, que aparentemente vai se despindo de alguns excessos. Não apenas o cardápio é mais enxuto, mas também foi abolida em boa hora a teatralidade do manejo do nitrogênio líquido no salão, técnica explorada em alguns preparos da casa.

Seguindo a mesma toada, a cozinha também parece refletir certa depuração. A abordagem lúdica permanece, especialmente na primeira etapa da refeição, os snacks. Mas fica a impressão de que a concepção dos pratos começa a deixar de lado elementos supérfluos, desnecessários.

Restaurante Oro

Delicadeza, equilíbrio e sabor deram o tom em quase todos os pequenos bocados servidos como snacks. Achei especialmente bons o crocante de lulas com aïoli, o dim sum de rabada, a tapioca de pastrami e o incontornável Cervantes, sanduíche de brioche no vapor com costelinha de porco empanada.

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Entre os pratos principais propostos no dia em que estive lá (o cardápio muda periodicamente), houve alguns deslizes, mas eram todos muito saborosos. O cherne com pó de azedinha, acompanhado de batata baroa em várias texturas, tinha ponto perfeito. Já o ponto do polvo, que contracenava com creme de amêndoas, estava além do ideal. O mesmo se diga da costela, que tinha o interior úmido, mas as bordas algo ressecadas.

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Melhor prato do almoço, o arroz meloso de favas, com caldo intenso, rico em colágeno, escondendo entre os grãos uma gema de ovo curada, estava delicioso – eu dispensaria apenas o pó de pipoca na borda do prato. 

Oro Felipe Bronze

Na sobremesa Via Láctea, senti falta do equilíbrio presente até então. O sorvete – que o cardápio anunciava ser de leite queimado, mas a equipe informou ser de queijo feta – não tinha qualquer traço de doçura e seu sabor não me pareceu dialogar com o ótimo doce de leite, que, disposto em farta quantidade, prevalecia sobre tudo mais.  

Oro Felipe Bronze

Na Tudo Chocolate, aconteceu o oposto: o destaque era justamente o sorvete, feito de chocolate branco – que, segundo me disse um dos cozinheiros, passa previamente pela brasa.

Oro Felipe Bronze

Acompanhando o café, uma seleção de guloseimas que é diversão garantida: brigadeiros, quindins, churros, cocada nitrocongelada e marshmallows de paçoca.

Oro Felipe Bronze

A julgar pela refeição que me proporcionou, eu diria que o Oro voltou mais bem resolvido, mais maduro. Resta saber se seguirá depurando. O tempo dirá se Bronze conseguirá administrar com sabedoria os desafios que a fama televisiva pode lhe trazer. Mas, como ele mesmo me disse numa entrevista anos atrás, trata-se de um cozinheiro que precisa se alimentar de desafios e talvez só consiga se reinventar na corda bamba.

 

Oro Restaurante – Av. General San Martin 889 – Leblon

http://www.ororestaurante.com.br/

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