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Domingo, 09 Março 2014

Pipo: não me enganei

Pipo Felipe Bronze

Em julho do ano passado, contei aqui do meu entusiasmo a respeito do Pipo, segunda casa do chef Felipe Bronze, então recém-inaugurada. Não foi sem certo receio que o fiz. Afinal, o lugar tinha apenas uma semana de vida e eu havia estado lá uma única vez. O fato é que saí dali com a impressão de estar diante de uma das melhores novidades entre as recentes inaugurações no Rio de Janeiro. Hoje, depois de ter voltado quase uma dezena de vezes, eu diria que não me enganei.

Numa cidade onde é tão fácil pagar caro pra comer mal, eu me animo cada vez menos a arriscar. Confesso que ando cansada de comer em vão. Como consequência disso, às vezes me vejo andando em círculos, percorrendo sempre a mesma meia dúzia de endereços onde saiba serem pequenas as chances de decepção. O Pipo rapidamente passou a fazer parte dessa lista.

Vou poupá-los de repetir tudo o que já tinha dito sobre o conceito da casa. Limito-me a comentar o que tenho comido por lá. Quase sempre, cumpro o mesmo ritual: peço uma Summer Ale, eventualmente uns pastéis, e então me concentro nos sanduíches, que me parecem o maior acerto do cardápio.

Além do Mc Pipo e do Cervantes, de que já tinha falado no post anterior, há o Camarones, o Ostrix e o De Panela. O primeiro traz camarões em ponto perfeito, maionese de gengibre e abacate.

Pipo Felipe Bronze

O Ostrix ameaçou minha predileção pelo Cervantes. Um pão de milho acomoda crocantes ostras fritas, maionese de ostras, limão confit e cebola roxa, numa combinação infernal. Bem, ao menos era assim até mês passado. Há poucos dias, soube que o sanduíche sofreu algumas mudanças. Sou da opinião de que não se mexe em time que está ganhando, mas, se era pra mudar, espero que tenha sido pra melhor.

ostrix pipo

O De Panela homenageia um clássico de botequim, o bom e velho sanduíche de carne assada. Imagino que a carne desfiada que chega na companhia de pão de leite, aïoli e picles de pepino não seja propriamente assada, mas o que me importa é que a versão do Pipo é deliciosa. Desde que a experimentei, entrou no páreo, ao lado do Ostrix e do Cervantes. Difícil dizer de qual dos três gosto mais. É dessas disputas acirradas, que só se definem no photochart.

Pipo Felipe Bronze

Na última visita, quebrei a rotina por um bom motivo. O almoço executivo, em cartaz de segunda a sexta, me fez deixar de lado os sanduíches. Por R$55,00, a fórmula inclui entrada (salada ou pastéis) e um dos PFs, abreviação de “Pratos do Felipe”, uma brincadeira que alude aos pratos substanciosos dos botecos cariocas, que ali ganham livres versões do chef, ao propor sua abordagem de clássicos como bife a cavalo, arroz de polvo e carne assada com arroz, feijão e farofa. Por R$65,00, a fórmula inclui uma das sobremesas do cardápio, que não considero exatamente o forte da casa.

Pipo Felipe Bronze

Tentei ser elegante e optar pela salada verde com tomates, mas é claro que acabei avançando nos pastéis da outra metade da mesa. A menos que o leitor tenha um tremendo autocontrole, não aconselho cometer tamanha bobagem. Os pastéis da casa são ótimos, especialmente os de carne seca com palmito pupunha e pimenta biquinho, e não merecem a substituição por salada.

Pipo Felipe Bronze  Pipo Felipe Bronze

Já quanto aos PFs, meu lado da mesa foi mais bem-sucedido. Do lado de lá, bife a cavalo, que eu temia ter o mesmo destino dos pastéis e terminar numa disputa de garfos. Não foi o caso. O prato era correto, não mais que isso.

Pipo Felipe Bronze

Nada faria sombra ao soberbo arroz de polvo sobre o qual recaiu minha escolha: polvo tenro, arroz úmido, aïoli saboroso. Uma beleza.

Pipo Felipe Bronze

O prato, que agora está também no cardápio permanente da casa, é das melhores coisas que comi ali.  Por ele, serei capaz de quebrar meu ritual mais vezes.

 

Pipo - Rua Dias Ferreira 64 – Leblon

http://www.piporestaurante.com/

Terça, 25 Fevereiro 2014

A Queijaria, em São Paulo

A Queijaria

Apesar das propaladas mudanças na legislação que regulamenta a circulação de queijos artesanais no país, a verdade é que ainda é mais fácil fazer chegar às nossas mesas bons queijos estrangeiros do que exemplares brasileiros produzidos com leite cru. Há uma longa estrada a percorrer até que se tire da obscuridade os bons produtores artesanais espalhados pelos rincões do país, que enfrentam uma árdua luta contra a falta de conhecimento dos legisladores brasileiros e a falta de cultura do mercado consumidor, como comentei nesse post recente. Mas a esperança de dias melhores se renova diante de iniciativas de pessoas que trabalham pra mudar esse panorama. Gente como Bruno Cabral, da empresa Mestre Queijeiro, e Fernando Oliveira, proprietário da loja A Queijaria, inaugurada em São Paulo no ano passado. Esta última é o assunto do post de hoje.

A Queijaria

Aproveitei a última passagem por São Paulo pra fazer uma visita à loja. Em suas prateleiras, há apenas queijos brasileiros, grande parte deles produzida com leite cru. É merecedor de todos os aplausos o esforço empreendido ali no sentido de jogar luz no trabalho realizado por nossos artesãos. A Queijaria faz muito por eles, mas faz também por nós, consumidores, ajudando-nos a conhecer melhor o que o Brasil tem a nos oferecer e, como consequência, relativizar o discurso que muita gente aprendeu a repetir sem questionar: “Se quiser bom queijo, busque fora, pois no Brasil não há”. Entendam bem, não estou aqui pregando ufanismo. Quem quer que tenha a oportunidade de frequentar boas lojas de queijos no exterior sabe que temos muito a evoluir, inclusive, insisto, no que diz respeito à cultura do consumidor brasileiro. Mas há muita coisa boa sendo feita no país. Por que não ter pelo que é produzido aqui a mesma curiosidade com que nos lançamos a experimentar o que é feito na França ou na Itália?

A Queijaria

A Queijaria

A Queijaria

Nessa minha primeira visita à loja, além de trazer um Canastrinha do Zé Mário, que há muito já frequenta minha mesa, descobri uma pérola que ainda não conhecia: o queijo Catauá, produzido em Coronel Xavier Chaves, Minas Gerais. Se lamentei ter levado tanto tempo pra descobri-lo, por outro lado, agradeci ter encontrado quem me tirasse da ignorância com relação a esse belo exemplar da queijaria brasileira. 

A Queijaria

O que lamento de verdade é não ter por perto uma loja como A Queijaria pra me conduzir a outras joias que, como o Catauá, mereçam ser descobertas. Mas, embora eu não seja propriamente uma otimista convicta, saí dali confiante no surgimento iminente de mais lojas como esta.

A Queijaria - Rua Aspicuelta, 35 - Vila Madalena – São Paulo

https://www.facebook.com/aqueijaria

Sexta, 21 Fevereiro 2014

Mercados no Peru: Surquillo, em Lima, e San Pedro, em Cusco

Mercado de Surquillo

Quando contei aqui sobre minha recente viagem ao Peru, omiti um importante capítulo: os mercados. Perdoem a falta grave.

Na passagem por Lima, não havia como não programar uma visita ao famoso mercado de Surquillo. Uma beleza o colorido dos ajís e rocotos, das muitas frutas (chirimoya, lucuma, tumbo, pepinos) e das bancas de peixes e frutos do mar. Mercados são sempre uma boa forma de conhecer melhor a cultura de um lugar. O de Surquillo foi, além disso, uma oportunidade de me familiarizar um pouco com alguns alimentos estranhos ao meu repertório, com os quais eu inevitavelmente cruzaria nas mesas da cidade.

Mercado de Surquillo

Mercado de Surquillo

Mercado de Surquillo

Mercado de Surquillo

Mercado de Surquillo

Mercado de Surquillo

Mercado de Surquillo

Mercado de Surquillo

Já em Cusco, tomei o rumo do Mercado Central de San Pedro, que, de algum modo, me remeteu ao espírito do Mercado Ver-o-Peso, em Belém do Pará. Não espere grande organização e assepsia. É meio desordenado, nem tudo é limpo, mas a vida fluindo entre suas bancas faz daquela uma bagunça boa de testemunhar – exatamente o que sinto quando estou no famoso mercado de Belém.

Mercado Central de San Pedro

Além de uma infinidade de tipos de milhos, grãos e batatas, há muitas bancas de frutas, onde se pode pedir um suco batido na hora, como eu fiz. Sem falar nas seções de carnes, que são uma verdadeira aula de anatomia de aves e suínos.

Mercado Central de San Pedro

Mercado Central de San Pedro

Mercado Central de San Pedro

Mercado Central de San Pedro

Mercado Central de San Pedro

Mercado Central de San Pedro

Mercado Central de San Pedro

Achei particularmente interessantes os tipos das vendedoras: suas tranças, seus chapéus, as roupas coloridas. Aliás, os trajes das mulheres na região de Cusco, mesmo as mais humildes, conferem a elas uma beleza e uma elegância muito peculiares.

Mercado Central de San Pedro

Mercado Central de San Pedro

Mercado Central de San Pedro

Mercado Central de San Pedro

Mesmo que você não seja aficionado por comida, eu diria que uma visita ao Mercado Central de San Pedro é programa fundamental se estiver de passagem por Cusco.

 

Mercado nº1 de Surquillo - Avenida Paseo de la Republica
(próximo ao cruzamento com Ricardo Palma) - Lima

Mercado Central de San Pedro – Calle Cascaparo s/n - Cusco

Terça, 18 Fevereiro 2014

Senzo: a morada de Virgilio Martínez em Cusco

Senzo Cuzco

No restaurante do hotel Palacio Nazarenas, edifício histórico situado numa das mais belas praças de Cusco, o chef Virgilio Martínez, do celebrado restaurante Central, em Lima, dedica-se a investigar ingredientes do Valle Sagrado e explorar suas possibilidades. Se a premissa de catalogação e experimentação não se distancia de sua proposta na capital, a morada cusquenha revela evidente propósito de conexão mais estreita com a região em que se encontra. Quanto à abordagem da cozinha, em quase nada me pareceu se assemelhar às complexas concepções de pratos e inspiradas soluções estéticas que o chef exibe em seu primeiro restaurante. Ao menos, no horário de almoço, quando não há a opção de menu degustação.

Senzo Cuzco

No silêncio cortante de um salão absolutamente vazio, comandado por serviço um tanto formal, iniciamos o percurso com um couvert que trazia mousse de tarwi, manteiga, sal de Maras e cacau, ao lado de pães que não eram maus, mas ficaram aquém da expectativa - não havia como evitá-la diante da lembrança dos excelentes pães que nos foram servidos no Central.

Senzo Cuzco

A boa salada “Punto 0” trazia alface, quinoa negra, milhos tostados, pedacinhos de bacon, tomates e cebolas crocantes.

Senzo Cuzco

Em seguida, uma gostosa entrada que combinava batatas secas ao sol com queijo andino, ají amarillo e flor de abobrinha.

Senzo Cuzco

A refeição subiu um tom com a alpaca defumada com palo santo. Ponto perfeito, carne saborosa. O arroz de choclo que nos foi recomendado como acompanhamento não era digno de nota.

Senzo Cuzco

Seguimos na ascendente com a sobremesa: nacos de chirimoya, levíssimo doce de leite, pedacinhos de ameixas, chia hidratada e papel arroz. Deu vontade de pedir bis.

Senzo Cuzco

Ao fim e ao cabo, ficou-me a impressão de uma cozinha que, se não decepciona, também não entusiasma. Um bom restaurante, que, no entanto, não me pareceu valer o que custa nem sustentar o prestígio que o nome do chef lhe confere.

 

Senzo - Palacio Nazarenas - Plaza Nazarenas 144 – Cuzco

http://www.palacionazarenas.com/web/onaz/cuzco_restaurant.jsp

Quinta, 30 Janeiro 2014

De volta ao Arturito

Arturito

Fazia mais de quatro anos que eu não ia ao Arturito. Nesse período, o restaurante passou por algumas mudanças, ajustes na proposta, inclusive no que diz respeito aos preços. Não as acompanhei de perto, mas ousaria dizer que, quaisquer que tenham sido as reformulações promovidas ao longo desse tempo, fizeram bem à casa.

O cardápio trafega por diferentes referências, tendo como aparente norte a intenção de oferecer comida descomplicada, calorosa e boa. Comida que acolhe, não intimida. E isso é costurado de ponta a ponta: desde o conceito da cozinha até a opção por um trabalho que seja o mais artesanal possível: quase tudo o que chega à mesa, dos pães aos sorvetes, é feito ali, fruto do calor das mãos de seus cozinheiros.

Começamos com as deliciosas lulas crocantes, assadas no forno a lenha, servidas com aïoli.

Arturito

Seguimos com a empanada salteña, de ótima massa e recheio saboroso.

Arturito

Finalmente, aquela que considerei a melhor das três entradas, talvez mais por gosto pessoal do que por qualquer outra razão. Adoro merguez, adoro berinjela. O que dizer das duas coisas juntas? Ali, a merguez artesanal ganha a providencial companhia da berinjela assada e, ainda, o frescor do creme azedo.

Arturito

A investida na seção mais substanciosa do cardápio teve como alvo o gostoso sanduíche de barriga de porco com picles, aïoli e rúcula. O pão me pareceu tostado demais, difícil de romper pra acessar o recheio numa bocada só, como pede todo bom sanduíche. Este, pra mim, o único senão.

Arturito

O desfecho do jantar veio na forma de uma das combinações que mais me agradam: laranja e chocolate. O bolo úmido de chocolate amargo contracenava com uma compota de kinkan e ganhava uma colherada da coalhada feita na casa. Uma delícia.

Arturito

Sem dúvida, um endereço que faria parte da minha rotina se eu vivesse em São Paulo.

 

Arturito – Rua Artur de Azevedo, 542 - Pinheiros

http://www.arturito.com.br

 

Quarta, 22 Janeiro 2014

Tordesilhas: o Brasil de Mara Salles

Tordesilhas Mara Salles

Aproveitei a última passagem por São Paulo pra conhecer o novo endereço do Tordesilhas. Fazia muito tempo que eu não revisitava o restaurante, o que é uma falha imperdoável. Sou fã da chef Mara Salles. Sua relação com o ingrediente brasileiro é de rara profundidade.  Num momento em que o verde-amarelo está na moda e acaba se tornando esteio de discursos vazios nas bocas de tantos chefs, é sempre bom voltar a Mara. Uma cozinheira que faz da investigação de nossa cultura culinária um verdadeiro caminho de vida, não um passaporte para a própria celebrização.

Tordesilhas

Um simples relato prato a prato de meu último jantar em sua casa não dá conta do que acabo de dizer. Mas isso não me impede de contar da beleza que é a seleção intitulada “Comissão de Frente”, uma miscelânea de pequenos bocados, que reúne ótimo pastel de camarão, carne seca na manteiga de garrafa com cebola, queijo de coalho com mel de rapadura e marinada de abobrinha, delicada e saborosa – pra minha surpresa, ao lado de elementos tão mais populares na mesa brasileira, uma simples abobrinha roubou a cena.

Tordesilhas

Já que comecei, deixem-me contar também do robalo em molho de moqueca, com caruru, acaçá e farofa de dendê, da seção “pratos da chef”, onde a tradição é parâmetro, mas não é amarra. O caruru era especialmente bom. Não me lembro de ter comido melhor fora da Bahia.

Tordesilhas

Não posso deixar de falar do curau de milho, que ainda não me saiu da memória. Uma aula de delicadeza. É o habitual acompanhamento do galeto assado, mas o garçom fez a gentileza de me trazer um à parte, diante do meu apelo.

Tordesilhas

Enfim, já que viemos até aqui, é preciso louvar o  pudim de tapioca, que é abordado com leveza e equilíbrio. A textura, um veludo. A calda, ponto perfeito, sem doçura excessiva.

Tordesilhas

Em certa passagem de seu belo livro “Ambiências – Histórias e Receitas do Brasil”, Mara diz que gostaria de fazer comida brasileira como Tom Jobim fazia música. De uma coisa eu não tenho dúvida: a brasilidade que habita as melodias de Jobim tem muito em comum com a chama que move os fogões dessa admirável cozinheira. Particularmente porque também a Mara Salles não interessa um Brasil exótico ou idealizado. Seu mergulho é mais profundo. Em sua cozinha, a bandeira do país não é erguida em vão.

 

Tordesilhas – Alameda Tietê 489 - Jardins

http://www.tordesilhas.com/

 

 

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