Pra quem quiser me visitar....
  • Oficina do Sabor, em Olinda
  • Marie-Anne Cantin: todo dia é dia de queijo
  • Mercat de Santa Caterina, em Barcelona
  • Cozinhando Escondidinho, no Recife
  • Mini Palais: Eric Frechon no Grand Palais
  • Bar Mut, em Barcelona: frutos do mar incríveis, serviço incrivelmente hostil
  • Alkimia: a casa do chef Jordi Vilà em Barcelona
  • Bubble Bar: encontrei meu lugar no Bazzar
  • Abri, em Paris: não se deixe enganar pela fachada
Quinta, 29 Novembro 2012

Decifrando Notting Hill

Notting Hill

Até ano passado, jamais havia incluído Notting Hill na minha rota em Londres. O bairro virou cenário de filme em Hollywood, me pareceu ter ficado turístico demais e, portanto, eu acabava evitando. Finalmente, me dei conta de como era bobo e preconceituoso esse pensamento. Então, dediquei um dia inteiro a ele em minha última visita à cidade, pra ver se me redimia...

Notting Hill

Notting Hill  Notting Hill

Notting Hill

Fui com a intenção de vagar por suas ruas sem destino certo. O dia de céu azul quase irreal inspirava a falta de compromisso. Tinha na bolsa uma lista de endereços gastronômicos a conferir, claro, não consigo evitar. Mas nada além de uns poucos lugares a percorrer no ritmo que as ruas do bairro me levasse. Nada de reservas com hora marcada nem protocolos de restaurantes estrelados – sim, deixei o The Ledbury pra próxima, assim, garanto um bom motivo pra voltar logo.

Comecei a caminhada com uma generosa fatia de bolo na Hummingbird Bakery.

Notting Hill  Hummingbird Bakery

Dali, segui pra The Spice Shop, cujo perfume de especiarias veio me buscar ainda na esquina.

The Spice Shop

The Spice Shop  The Spice Shop

Do outro lado da rua, está a livraria Books for Cooks, que convida a gastar horas entre suas prateleiras.

Books for Cooks

Books for Cooks

Books for Cooks

Para o almoço, escolhi o cultuado bufê do Ottolenghi, onde tudo é fresco e saboroso: dos pães às saladas, passando por tortas e bolos deliciosos. Do rosbife com molho de beterraba e raiz forte à salada de favas gigantes, das abóboras assadas ao bolo de cenoura com nozes, tudo o que comi ali estava muito, muito bom.

Ottolenghi

Ottolenghi  Ottolenghi

Ottolenghi  Ottolenghi

Ottolenghi

Parei ainda pra fazer umas compras na filial londrina da Daylesford, incrível loja nos Cotswolds, que trabalha primordialmente com produtos de sua própria fazenda na região.

Daylesford Organic  Daylesford Organic

Daylesford Organic

No fim da tarde, livre do peso de preconceitos e da tirania dos relógios, fui me espreguiçar no Kensington Gardens, que me parece o desfecho perfeito pra um passeio em Notting Hill. Não imagino liberdade maior que a minha naquele momento. Talvez a da pequena aí na foto, que, afinal, ainda pode sair de tule cor-de-rosa sem se preocupar se exagerou...  

Kensington Gardens

 

Hummingbird Bakery – 133 Portobello Road

http://hummingbirdbakery.com/

 

The Spice Shop – 1 Blenheim Crescent

 

Books for Cooks – 4 Blenheim Crescent

http://www.booksforcooks.com/

 

Ottolenghi – 63 Ledbury Road

http://www.ottolenghi.co.uk/

 

Daylesford - 208-212 Westbourne Grove

http://www.daylesfordorganic.com/engine/shop/index.html

 

 

 

Segunda, 26 Novembro 2012

Brasil Rural Contemporâneo 2012

Brasil Rural Contemporâneo

Foi a leitora Maria das Graças, que sabe das coisas, quem me lembrou que no último fim de semana aconteceria na Marina da Glória a edição 2012 da feira Brasil Rural Contemporâneo. Graças a ela (perdoem o inevitável trocadilho), não deixei cair no esquecimento. Sábado, amanheci lá.

Brasil Rural Contemporâneo

Fiquei impressionada com o tamanho da feira. Passei ali mais de duas horas e, certamente, não dei conta de ver tudo o que havia pra ver. Agricultores, produtores, artesãos de todos os cantos do Brasil lotavam os galpões, vendendo seus produtos. Provei muita coisa e voltei com uma bolsa cheia pra casa: desde farinha de mandioca do Vale do Juruá até embutidos do Rio Grande do Sul, passando por artesanato indígena de Rondônia, doce de leite do Mato Grosso do Sul e melado e açúcar mascavo de produtores de um assentamento no Tocantins. Evidentemente, nem tudo o que vi era de grande qualidade, mas havia muita coisa boa pra quem quisesse procurar.

Brasil Rural Contemporâneo

Brasil Rural Contemporâneo  Brasil Rural Contemporâneo

Brasil Rural Contemporâneo

 Brasil Rural Contemporâneo Brasil Rural Contemporâneo

Brasil Rural Contemporâneo

Brasil Rural Contemporâneo  Brasil Rural Contemporâneo

Brasil Rural Contemporâneo

Brasil Rural Contemporâneo  Brasil Rural Contemporâneo

 É claro que o melhor da produção artesanal brasileira a gente encontra é botando o pé na estrada, isso não se discute. Mas me parece digna de aplausos uma iniciativa como essa. Reunir num mesmo espaço tantos Brasis. O país mostrando sua cara através de cada um daqueles produtores, conscientizando as pessoas da importância da agricultura familiar.

A quem ainda não conhece o evento recomendo não perder uma próxima edição.

Sexta, 23 Novembro 2012

Alvorada: um quintal, um riacho, um forno a lenha

Restaurante Alvorada

Não sei se restaurante é a palavra mais adequada pra classificar o Alvorada, em Araras. “Pouso” talvez estivesse mais de acordo com a atmosfera do lugar, que tem a cara dos donos – Paulão e Márcia, que o comandam há mais de duas décadas - e jeito de casa. Não qualquer casa, mas uma daquelas com forno a lenha na cozinha, um belo quintal nos fundos e um riacho no horizonte. Lugar aonde se vai pra ser acolhido, mais do que alimentado.

Restaurante Alvorada

Restaurante Alvorada

Restaurante Alvorada  Restaurante Alvorada

Restaurante Alvorada

Restaurante Alvorada

O tanto de passarinhos e borboletas que cercaram nossa mesa durante um almoço no último fim de semana já teria compensado a ida até lá. Mas há também boa comida. Concentramos a maior parte dos pedidos no que vinha do forno a lenha e me parece mesmo que é dele que sai o que a casa tem de melhor a oferecer.

Restaurante Alvorada

Restaurante Alvorada

Os bolinhos de truta que abriram o almoço, se não eram ruins, também não chegavam a ser bons. A partir dali, tudo melhorou. A rabadinha da entrada dispensava garfo e faca. Podia-se comer de colher, como já havia advertido Paulão.

Restaurante Alvorada

Restaurante Alvorada  Restaurante Alvorada

Seguimos com uma bela paleta de cordeiro, que dorme no forno de um dia pro outro, acompanhada de um ótimo purê de aipim. Ainda, deliciosos legumes assados: cenoura, beterraba, abóbora, batata, inhame, batata baroa, cebola, alho... Até banana tinha e estava especialmente boa.

Restaurante Alvorada

Restaurante Alvorada

A sobremesa, bananas caramelizadas com gengibre e sorvete, estava gostosa, embora viesse acomodada numa incompreensível cesta de pão sírio e não valesse os quase R$30,00 cobrados por ela.  Mas eu estava tão feliz ali que isso pouco me importou...

Restaurante Alvorada

Um quintal, um riacho, um forno a lenha.  Pode ser simples a fórmula pra uma tarde perfeita.

Restaurante Alvorada

 

Alvorada – Estrada Bernardo Coutinho 1655 – Araras – Petrópolis. Tel. 24 22251118

Terça, 20 Novembro 2012

Alice Waters visita o Circuito Carioca de Feiras Orgânicas

Alice Waters Rio de Janeiro

Quem acompanha o blog no Facebook (sim, pra quem ainda não viu, o Pra Quem Quiser me Visitar, finalmente, chegou ao Facebook) ou me segue no twitter, ficou a par de muito do que aconteceu no Mesa Tendências no início do mês. Sua 6ª edição teve em Alice Waters – proprietária do Chez Panisse, em Berkeley, e vice-presidente do Slow Food – uma das figuras mais aguardadas do congresso. A chef, que abriu o primeiro dia de evento diante de um auditório completamente lotado, arrastou uma legião de fãs por onde passou. Do alto de seus quase setenta anos, mantém o posto de primeira-dama da gastronomia americana, o que fica claro na reverência nos olhares se voltam pra ela. Não é à toa. Sei que não é preciso recapitular aqui os motivos que a levaram a conquistar esse lugar no cenário da gastronomia mundial, mas é sempre bom lembrar que foi ela, ainda na década de 70, a precursora do movimento que hoje chamamos locavorismo. 

Depois de quase uma semana em São Paulo, Alice veio pro Rio, onde ficou por mais alguns dias. Tanto lá, como cá, como seria de se esperar, sua agenda não se limitou aos jantares nos melhores restaurantes das duas cidades. Em São Paulo, visitou a horta cultivada por alunos da rede estadual de ensino na Casa de Solidariedade II, no Parque Dom Pedro. Aqui, fez questão de conhecer o excelente Circuito Carioca de Feiras Orgânicas da ABIO, que reúne agricultores para vender seus produtos orgânicos diretamente ao consumidor, cada dia em um ponto da cidade.

Circuito Carioca de Feiras Orgânicas

Circuito Carioca de Feiras Orgânicas

Circuito Carioca de Feiras Orgânicas 

Circuito Carioca de Feiras Orgânicas  Circuito Carioca de Feiras Orgânicas

Na companhia das chefs Silvana Bianchi, Roberta Sudbrack e Teresa Corção, a americana esteve na feira das terças-feiras na Praça Nossa Senhora da Paz, onde fez questão de visitar todas as bancas e conversar com os produtores – além de comprar seus produtos, que, ao fim da manhã, renderam-lhe uma bolsa cheia.

Alice Waters Rio de Janeiro

Alice Waters Rio de Janeiro

Alice Waters Rio de Janeiro

Dali, Alice seguiu pra um almoço no restaurante Celeiro, o que me pareceu fazer todo sentido. Foi um prazer testemunhar o encontro da chef com Rosa Herz, que comanda bravamente a casa do Leblon há três décadas. Duas mulheres à frente de seu tempo, cada uma dentro de suas circunstâncias.

Alice Waters Rosa Herz Celeiro

Alice Waters Rosa Herz Celeiro

Despedi-me de todos e vinha caminhando, pensando em tudo isso, quando entrou no meu celular uma mensagem da chef Teresa Corção, que dizia mais ou menos assim: “O final da festa foi uma feira livre gratuita que a Alice montou no lobby do hotel. Aprendi duas lições com ela: jamais barganhar preço com os produtores e sempre compartilhar a compra da feira com várias pessoas.”

Eis o flagrante da feira montada por Alice no lobby do hotel, em foto surrupiada do Instagram de Roberta Sudbrack:

Alice Waters Roberta Sudbrack Teresa Corção

A mensagem de Teresa e a imagem acima só reforçaram as impressões que me ficaram da chef americana naquela manhã: simplicidade, generosidade e um pensamento sempre voltado para o coletivo. Nenhuma surpresa. Afinal, de que outra matéria, que não esta, são feitos os líderes?

Quarta, 14 Novembro 2012

Inspiração, influência ou cópia: onde está o limite?

Nas últimas semanas, não foram poucas as vezes em que me vi discutindo com amigos uma questão cada vez mais recorrente num mundo tão conectado como o de nosso tempo: quando cabe falar em plágio na gastronomia? Como identificar a linha tênue que distingue influência e cópia? A questão me revisitou quando publiquei o último post, sobre a “crème brûlée” de barriga de porco, apresentada por Rodrigo Oliveira e Julien Mercier em um congresso de gastronomia no Panamá. No dia seguinte, digamos que um passarinho me soprou que se trata de processo idêntico ao de um prato executado em certo restaurante paulistano. Bastou pra interrogação se instalar debaixo do meu travesseiro nas últimas noites...

Não é preciso fazer grande esforço pra lembrar os muitos exemplos que povoaram essas recentes conversas que mencionei. O foie gras vegetal (em que se usa o abacate no lugar do fígado gordo de ganso) de Raphael Despirite, do Marcel, em São Paulo, que remete inevitavelmente ao de Josean Alija, do Nerua, em Bilbao. A combinação de pupunha e pó de pipoca, que numa mesma semana de setembro passou por minha mesa duas vezes, uma no DOM, de Alex Atala, em São Paulo, outra no Oro, de Felipe Bronze, no Rio de Janeiro. Felipe se inspirou em Alex ou teria sido o contrário? Ou teriam ambos se inspirado em um terceiro? Faz pouco tempo, conversando com a chef Teresa Corção, tentávamos lembrar o que veio primeiro: o fettuccine de pupunha do DOM, ou o talharim de pupunha do Maní? A memória não nos socorreu...

Penso, inevitavelmente, numa história que ouvi em casa tantas vezes a ponto de sabê-la de cor. Meu pai, em visita ao saudoso Baden Powell, tomou o violão pra mostrar-lhe uma valsa. Ao fim da música, Baden disse: “como você toca bonito essa minha valsa...” No que meu pai retrucou: “Mas essa valsa é minha...” Ainda surpresos, encontraram, aqui e ali, algumas diferenças na melodia, mas me garante meu pai, sempre com assombro, que a primeira parte era praticamente idêntica.

Então, me pergunto: o ser humano é mesmo tão original a ponto de ser impossível que duas pessoas, em lugares diferentes, tenham uma mesma ideia? Não posso ignorar o fato de que no tempo do curioso encontro entre meu pai e Baden, não havia iPhones e redes sociais, o ritmo da vida era outro e as pessoas não se sabiam nem se acompanhavam tão de perto como acontece hoje. O que faz toda a diferença. Ainda assim, me pergunto: seria impossível acontecer hoje?

Tendo a crer que não, não é impossível.  Mas acredito que, no mais das vezes, o que ocorre é algo um tanto mais banal. Está tudo posto, as referências estão todas aí, as pessoas bebem nas mesmas fontes. Sem dúvida, inspiram-se umas nas outras o tempo todo, muitas vezes, até de forma inconsciente. E, por mais que a tecnologia nos propicie um bombardeio diário de informação, por mais que se viaje e que se leia, por mais que se navegue freneticamente nas redes sociais, não há como saber tudo o que se passa em todas as cozinhas do Brasil e do mundo a ponto de se poder, sem hesitar, afirmar quem influenciou quem, quem se inspirou em quem, quem copiou quem...

O que sei é que toda vez que converso sobre isso com alguém, não consigo escapar a uma lembrança que costuma me tomar nesses momentos: a reinterpretação que Picasso fez da incrível obra de Velázquez intitulada “As Meninas”. Uma série de mais de 50 pinturas, ao cabo das quais, Picasso havia indiscutivelmente criado suas Meninas. Jamais esqueço meu deslumbramento na primeira vez em que as vi no museu dedicado ao pintor em Barcelona.  

O mestre deixou a lição: se é para se inspirar no que alguém já fez, recriar ou reinterpretar algo ou mesmo apropriar-se da ideia de outrem, que seja para, em algum momento, sair da sombra do criador, e fazer algo seu – quem sabe, ainda melhor que o original...

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Sexta, 09 Novembro 2012

"Crème brûlée" de barriga de porco: mais uma de Rodrigo Oliveira e Julien Mercier

Rodrigo Oliveira e Julien Mercier

Já falei algumas vezes aqui o quanto sou fã do chef Rodrigo Oliveira e do seu Mocotó, que é, pra mim, um dos melhores restaurantes do Brasil. Já contei também do meu entusiasmo a respeito do incessante trabalho de pesquisas que ele e o chef Julien Mercier realizam no Engenho Mocotó. Deixem-me falar, agora, do prato que a dupla executou em sua demonstração no congresso Panamá Gastronómica, onde estive em agosto. No último post, quando relatei minhas refeições na Cidade do Panamá, deixei de fazer essa observação: a melhor coisa que comi durante os quatro dias em que estive na cidade não saiu dos fogões de nenhum restaurante local, mas veio justamente pelas mãos da dupla brasileira.

Ambos têm especial apreço por carne de porco e quando se debruçam sobre o bicho, dispostos a tirar o que tem de melhor, sempre sai coisa boa. Estão aí os perfeitos torresmos do Mocotó a provar o que digo. O mesmo se pode dizer do trabalho de charcutaria que Julien vem desenvolvendo. No mais, valho-me das palavras do próprio Rodrigo, que sintetizam bem o espírito da coisa: “Não me preocupo em usar produtos caros. Uma costeleta de cordeiro pode até custar mais que uma barriga de porco, mas, certamente, não tem mais valor. Quando se devota atenção ao produto, uma simples barriga de porco pode virar iguaria”.

Voltando ao prato que dá título a este post, é mais uma pérola pra coleção dos dois. Trata-se de uma barriga de porco idealizada como uma crème brûlée. A ideia era conseguir fazê-la com interior extremamente macio e delicado, sob uma fina pele crocante (à semelhança dos cochinillos que os espanhóis fazem tão bem), de forma que se pudesse comer de colher, uma vez rompida a crosta, assim como se faz com a sobremesa francesa.

Para chegar ao resultado desejado, submetem a carne a algumas horas de cocção a vácuo, prensando-a, após a cocção, sob placas que pesam de cinco a seis quilos. Antes de levar à frigideira, retiram, ainda, parte da pele do porco pra que a pururuca não fique dura demais a ponto de não se poder romper como acontece com a clássica sobremesa que inspirou o prato. Pra acompanhar a carne, favada com legumes e paçoca de torresmo.

Quando o vi pronto na bancada do congresso, não resisti e pedi pra provar. Confesso que comi quase inteiro. E fiz bem, pois soube depois que, pra nossa infelicidade, o prato não está no cardápio do Mocotó nem deverá entrar no cardápio do novo Mocotó Café, a ser inaugurado em breve... Lamentemos.

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