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Quarta, 30 Outubro 2013

Volta: pra quem tem fome de saudade

Restaurante Volta

Se há uma lição que esses cinco anos de blog me trouxeram é a de só escrever a respeito de um restaurante quando eu me sinta à vontade pra fazê-lo. Pode acontecer na primeira visita. Às vezes, só depois da segunda ou da terceira. Em alguns casos, confesso, esse momento nunca chega. Não me perguntem por quê. Eu não saberia explicar. Só sei que enquanto não encontro as palavras certas pra falar sobre determinado lugar, prefiro não desperdiçar meu tempo e, especialmente, o do leitor. Só vou adiante se minhas linhas, ainda que tortas, fizerem algum sentido pra mim. Mesmo que, eventualmente, não façam pra vocês - isso, não tenho como evitar.

Restaurante Volta

O post de hoje é desses que custam a nascer. As palavras não me encontraram na primeira visita ao Volta. Nem na segunda. Escrevo depois de ter estado cinco ou seis vezes no restaurante inaugurado em agosto pelo mesmo time que comanda o Venga!. Por mais estranho que isso possa parecer, quanto mais me pergunto por que só agora consegui esboçar essas linhas, mais me convenço de que a dificuldade veio justamente do fato de ter muitas referências sobre grande parte do que sai daquela cozinha. Trata-se de um cardápio que evoca tudo aquilo que passamos a vida comendo nas casas de nossas mães, de nossas tias, de nossas avós. Comida servida em prato, aquela coisa que costumávamos usar antes de as placas de ardósia roubarem a cena, lembram?

Restaurante Volta

Restaurante Volta

Restaurante Volta

Então, depois de passar a infância comendo as deliciosas iscas de fígado feitas por minha avó, o que esperar das iscas do Volta? Os mesmos defeitos? As mesmas virtudes? Talvez, incompreensivelmente, um pouco dos dois. Na primeira vez em que as experimentei, a carne estava meio rija, deslize que minha avó também cometia às vezes, mas o molho era infinitamente mais profundo que o dela. Gostei. O simples fato de me fazerem lembrar as dela me bastaria pra gostar. Na segunda visita, reincidi. Tão saborosas quanto na primeira vez, agora, faltava-lhes aquela profundidade no molho, mas a carne estava muito melhor. O importante é que sempre me levaram de volta às da minha infância e isso, em certos momentos, é mais importante que a execução perfeita.     

Restaurante Volta

Quiabos, na casa da avó, jamais viriam com queijo minas esferificado – e confesso que passaria melhor sem essa licença poética, a meu ver, dispensável –, mas também não chegariam no ponto impecável dos quiabos feitos no Volta. Grelhados, em vez de refogados, crocantes como os dela jamais foram.

Restaurante Volta

As coxinhas de galinha ganharam meu favoritismo desde a primeira visita. Repeti algumas vezes e estiveram sempre muito gostosas. A massa não é pesada, o recheio é saboroso.

Restaurante Volta

Outro campeão de audiência por aqui são os ovos mimosa. Aprendi a comer em casa. Minha mãe os faz muito bem, mas não tão bem quanto o Volta – que ela não me leia... Faltam aos dela os infernais pedacinhos de bacon, que, sejamos honestos, deixariam qualquer receita melhor.

Restaurante Volta

No compasso da lembrança, vou, pouco a pouco, decifrando o cardápio e identificando minhas preferências. Se dissesse que não presenciei tropeços na cozinha, mentiria. Foi assim, por exemplo, com a canja de galinha. A apresentação era tão bonita que passei um tempo olhando o prato antes de tomar coragem e mergulhar a colher, que me traria a decepção de um caldo absolutamente sem sabor.

Restaurante Volta

Naquela mesma noite, minutos depois, as coisas melhorariam com um bom e farto arroz de forno com suã.

Restaurante Volta

Entre os pratos mais substanciosos, encontrei felicidade especialmente no cozido dos almoços de domingo. Há muita subjetividade nisso, pois o prato é uma das minhas predileções. Não posso dizer que seja o melhor que já experimentei, mas estava muito bom. O caldo, extremamente saboroso. Os legumes, coisa rara, não haviam passado no fogo mais tempo que o necessário.  O pirão que o acompanhava podia ser mais espesso, mas isso não abalou meu almoço.

Restaurante Volta

Quanto às sobremesas listadas no cardápio, quase sempre releituras de doces das nossas infâncias, experimentei a maioria, mas nenhuma me entusiasmou. A simplicidade do queijo de Araxá acompanhado de boas compotas de abacaxi, mamão e abóbora e, ainda, uma colherada de doce de leite, parecia-me a melhor opção pra encerrar uma refeição ali. Ao menos, até duas semanas atrás.

Restaurante Volta

Na última quinzena, o Volta ganhou um balcão de sobremesas com jeito de casa.  Sem releitura. A coisa como ela é. Receitas extraídas dos cadernos da mãe de uma das sócias do restaurante são executadas à risca, com pouca ou nenhuma intervenção. A seleção varia diariamente. Do que experimentei até agora, tudo estava delicioso. Do cremoso quindim ao bom e velho bolo xadrez.

Restaurante Volta

Restaurante Volta

Desenvolvi especial apreço pelo bolo formigueiro. Massa fofa, o sabor do coco fresco bem evidente, ótima ganache de chocolate, pouco doce. Numa cidade onde tão pouca gente dedica a uma receita de bolo o merecido zelo, é bom saber que ainda há esperança.

Restaurante Volta

Por tudo isso, sigo voltando. Não em busca de uma cozinha brilhante, pois não é exatamente o caso. Nem precisa ser. Quanto mais eu como, mais entendo que não se pode querer matar todas as fomes num mesmo lugar. Restaurantes são um pouco como gente. Cada um se presta a acomodar um tipo de fome. Particularmente, vou ao Volta com fome de saudade. Das iscas de fígado à moda da minha avó ao café coado com bala de coco no final da refeição. Dos pratos coloridos de porcelana como os que minha mãe colecionava aos móveis antigos que me lembram a casa da bisavó.

Entendam bem, vou até lá, não pra matar saudade, mas pra sentir saudade. Sou uma criatura à moda antiga, nostálgica por natureza, e sempre achei que saudade é coisa que se alimente.

 

Volta – Rua Visconde de Carandaí 05 – Jardim Botânico

http://www.restaurantevolta.com.br/

Terça, 22 Outubro 2013

Serra da Canastra: dois dedos de prosa com alguns dos melhores produtores de queijo da região

Serra da Canastra

No fim de semana retrasado, estive na Serra da Canastra pra realizar um antigo desejo: ver de perto a produção de queijo na região. Não foi fácil chegar lá. Uma hora de voo até o aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. Quase seis horas de estrada até a Serra da Canastra. E mais um tanto de estradas difíceis até alcançar as propriedades dos produtores. O difícil acesso foi compensado pela beleza da paisagem e, especialmente, pela coragem, persistência e generosidade da gente que encontrei no caminho.

Serra da Canastra

Serra da Canastra

Serra da Canastra

Serra da Canastra

Visitei dois dos melhores produtores da região: Luciano Carvalho Machado, em Medeiros, e Zé Mário, em São Roque. Após dois dias conversando com eles, voltei com a certeza de que seu cotidiano ainda é marcado por uma luta constante contra a falta de conhecimento dos legisladores brasileiros. Mas não só. Enfrentam também uma batalha, talvez menos debatida, mas não menos importante, contra a falta de cultura do mercado consumidor.

A importância do que ouvi ali me fez decidir, só por hoje, abandonar o texto em primeira pessoa. Em vez de lhes mostrar a Serra da Canastra sob o meu olhar, como seria de se esperar nesse blog, vou quebrar a rotina e usar esse espaço pra dar voz aos produtores com quem estive. É o olhar deles que me interessa aqui. Peço paciência ao leitor porque o post é longo e o tema é árido, sem glamour. Se não tiver disposição, melhor mudar o canal. Pra quem fica, é bom sentar que a coisa vai longe.

Embora os veículos de comunicação venham noticiando, nos últimos meses, a alforria do queijo artesanal, elaborado a partir de leite cru, cuja circulação no país estaria, finalmente, liberada, parece que ainda não é bem assim. As apressadas conclusões teriam sido motivadas pela Instrução Normativa nº 30, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que, em tese, permite a circulação de queijos artesanais com menos de 60 dias de maturação, prazo que, até então, era exigido pela legislação federal. Mas, salvo engano, até agora não se estabeleceram  os novos prazos, que ainda dependem de estudos técnicos. E esta não seria a única questão a vencer.  O que me foi dito pelos produtores é que ainda há arestas a aparar quanto às exigências de adequação para que possam circular legalmente pelo país. Uma conversa esclarecedora.

Luciano Machado Serra da Canastra

De Luciano Machado, ouvi o seguinte: “infelizmente, nossos legisladores ainda não têm conhecimento sobre o universo do queijo artesanal. Ainda há exigências na legislação que são difíceis de cumprir sem descaracterizar nosso queijo. Na verdade, veem o produtor artesanal apenas como alguém que produz em menor escala, mas precisam entender que não é só isso, que há um modo de fazer que é absolutamente diferente da produção industrial.”

Luciano Machado Serra da Canastra

Enquanto falava, apontava a bancada de madeira para onde transferia os queijos produzidos naquela manhã e onde faria a coleta do pingo (obtido a partir do soro extraído do queijo do dia anterior e usado como fermento do queijo produzido no dia seguinte) no final da tarde. Lamenta ter sido obrigado a abrir mão da madeira na estrutura de sua queijaria. Em tese, o material só é permitido nas prateleiras de maturação. Mas Luciano não abre mão de sua bancada: “a legislação não me permite usar madeira, a não ser já na fase de maturação, mas nosso queijo, sem madeira, não vale nada.” Novamente, enfatiza a necessidade de o legislador deslocar-se de seu ponto de vista para entender a matéria sobre a qual se debruça: O que falta ao legislador é compreensão do nosso modo de fazer. Não dá pra querer aplicar a lógica da produção do queijo industrializado àqueles que são feitos com leite cru. Eles têm que entender que as bactérias que estão aqui precisam estar aqui. Mas a gente vive num sistema em que todos têm medo de tudo, querem higienizar tudo. No final das contas, queijo bom é queijo morto.”

Luciano Machado Serra da Canastra

Luciano Machado Serra da Canastra

O que escutei de Zé Mário em sua fazenda, em São Roque, não foi diferente. Suas palavras levam a crer que os fazedores de normas, por falta de vontade ou de competência, ainda não aprenderam a ouvir o produtor: “pra me adequar às normas, tenho participado de várias reuniões, que, às vezes, chegam a cinco de horas de duração. Colocam a gente em frente a um telão, falam tanta coisa, mas a gente não tem preparo pra entender o que eles falam. No fim, os produtores saem sem saber nada. Os cursos de boas práticas de fabricação que oferecem pra nós são dados por gente que nunca fez queijo. Se me falarem que vão dar um curso dentro da fazenda, com produção de queijo do começo ao fim, eu quero participar. Agora, fazer aula de boas práticas atrás de uma mesa, com gente que nunca entrou num curral? Isso, pra mim, é muito estranho.”

Zé Mário Serra da Canastra

Zé Mário Serra da Canastra

O produtor de São Roque concorda com o colega de Medeiros quando diz que algumas modificações impostas para a adequação à legislação vigente implicam perda da qualidade do queijo que produzem, como é o caso da eliminação do uso da madeira no ambiente de produção. “A verdade é que nosso queijo já não tem a tradição que teve no passado. O queijo de antigamente era, sem dúvida, melhor do que o que estamos fazendo hoje. O uso do azulejo nesse ambiente, por exemplo, já fez o queijo artesanal perder qualidade. Não dá pra concordar com tudo que a gente ouve nessas reuniões... Quero atender tudo o que é preciso pra me adequar, mas se for pra perder a tradição, não sei, não.”

Zé Mário Serra da Canastra

Zé Mário Serra da Canastra

Infelizmente, a surdez dos legisladores não é o único fator a comprometer a tradição do queijo Canastra. No passado, o queijo produzido na região só chegava maturado ao mercado. A maturação é o que lhe permite desenvolver o sabor peculiar. Era um queijo melhor, mas também mais caro do que grande parte do que se vende hoje. Segundo Luciano e Zé Mário, mais de 90% do que chega ao mercado local atualmente é queijo fresco, às vezes, com menos de quatro dias de produzido. Os dois não se curvam ao mercado: só trabalham com queijo meia-cura ou curado. Mas são exceções.

Alguns fatores colaboraram para esse quadro. As estradas foram ficando melhores. O transporte, mais veloz. Com isso, o queijo passou a ter saída diariamente. O mercado foi invadido pelo queijo branco, sem maturação, sem profundidade de sabor. As pessoas se acostumaram a ele. Hoje, rejeitam o queijo maturado. “O queijo curado sumiu do mercado. Mas o engraçado é que em todo canto tem gente anunciando venda de queijo Canastra. Quando você vai ver, é tudo queijo branco, não tem aquela casca amarelinha que só a maturação dá”, me diz Zé Mário, com indignação. “Nosso queijo não passa de velho, quanto mais velho melhor. Queijo branco, pra mim, nem precisa nem levar pra mesa que eu não como, não.”

Zé Mário Serra da Canastra

“A verdade é que os produtores passaram a vender soro. Tá um enganando o outro, produtor e consumidor. Sei que dificilmente o queijo curado terá o mercado que tem o queijo fresco hoje. Mas é preciso criar algum mercado, fazer um resgate dessa tradição. Se a gente quiser sobreviver do queijo artesanal, conseguir uma valorização do produto pra poder permanecer no campo, o caminho é desenvolver mercado pro queijo maturado.” É o que me diz Luciano Machado, enquanto me mostra cinco lindas peças com maturação de cinquenta dias, encomendadas por um cliente francês. Pergunto se tem uma daquelas pra me vender e ele responde: “esse só por encomenda. Se não for assim, não vale a pena fazer, porque acaba não tendo saída.”

Luciano Machado Serra da Canastra

Luciano Machado Serra da Canastra

Com tremenda lucidez, Luciano sintetiza a essência do dilema que vive o produtor: “A maturação dos nossos queijos é muito mais rápida em comparação ao queijo europeu, o clima é outro. O legislador precisa ter isso em conta ao estabelecer esse tempo de maturação mínima. O grande problema, na minha opinião, é o povo ser obrigado a comer o queijo que o legislador acha que ele tem que comer e não ter direito de escolha. Nossa ditadura alimentar não acabou. Ainda que eu não veja valor no queijo que não passe por um tempo X de maturação, o consumidor tem que ter a liberdade de escolher. O caminho é educar as pessoas para que elas aprendam a enxergar o valor do queijo curado, não obrigá-las por lei a consumi-lo desse ou daquele jeito.”

O tempo de maturação que o legislador impõe hoje ainda é superior ao que os produtores entendem ser necessário, do ponto de vista da segurança alimentar. Por outro lado, o queijo pelo qual grande parte do mercado está disposta a pagar passa por menos tempo de cura do que seria o ideal sob o aspecto da qualidade, do sabor. Entre a ignorância de um e de outro, o bom produtor vai se equilibrando, qual malabarista, na esperança de que, aos poucos, cada personagem implicado nessa história (governo, pesquisadores, chefs de cozinha, veículos de comunicação) assuma a parcela que lhe cabe na construção de uma rede de proteção que o ampare no salto e, portanto, permita-lhe voar mais alto.  

Terça, 15 Outubro 2013

Hiato

Ir a Minas Gerais costuma significar pra mim um bem-vindo hiato no cotidiano entre mesas do eixo Rio-São Paulo, universo cada vez mais povoado por restaurantes nos quais a comida vai se tornando menos importante que a vaidade de seus chefs, que fazem de longos menus um exercício de autorreferência, como bem observou o sempre lúcido Alhos, Passas & Maçãs nesse post aqui.

O calor do fogão a lenha. Os doces feitos em grandes tachos. A comida farta nas panelas de ferro. A acolhida de uma gente que tem sempre queijo, bolo, café e pinga na mesa pra lhe receber. A generosidade do sujeito que não lhe deixa ir embora sem compartilhar com ele seu angu de todo dia.

Mais que bem-vindo, um hiato necessário.

 

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Terça, 08 Outubro 2013

Restaurante Central, do chef Virgilio Martínez, em Lima

Central Mater Uno

Quando boa parte dos ingredientes de um cardápio nos é desconhecida ou pouco familiar, torna-se difícil refletir sobre a autenticidade de seu uso ou, por outro lado, o bom resultado de uma abordagem inventiva. Não nos resta muito mais do que simplesmente saber se gostamos ou não gostamos da experiência. Mas, em última análise, não é mesmo isso o que verdadeiramente importa quando vamos a um restaurante?

Entre os nove cursos do meu jantar no Central, em Lima, naturalmente, alguns me encantaram mais, outros menos. Mas em quase todos os momentos senti a consistência de uma cozinha que sabe para onde vai. E, a julgar pela proposta apresentada no Menu Mater Uno, sem perder de vista de onde vem.  O menu em questão nasceu de um sério trabalho de investigação e catalogação de produtos peruanos (batizado Mater Iniciativa), que tem em Virgílio Martínez um de seus principais atores. O resultado é um percurso de pratos esteticamente inspiradores, que atravessa os diferentes terroirs do país, evidenciando sua riqueza e diversidade.

Central Virgilio Martínez

Da sequência de amuse-bouches, meus favoritos foram os nacos de camote com camomila e o bocado de milho em diferentes texturas.

Central Lima

Central Lima

Os pães fugiam ao lugar-comum, é preciso dizer. Além do especial pão de coca, havia um gostoso pão de arracacha (tubérculo andino) e um peculiar pão de airampo (fruto de um cacto também típico da região andina), que, dos três, foi o de que menos gostei. Vinham acompanhados de uma manteiga queimada, cujo sabor remetia sutilmente ao do caramelo salgado.

Central Lima

Central Lima  Central Lima

No primeiro prato, a delicadeza de vieiras em leche de tigre com tumbo (fruto cuja polpa lembra a do maracujá) e emulsão de abacate.

Central Lima

Em seguida, aquele que, pra mim, foi o melhor da noite. Os nacos de polvo preparado em azeite aromatizado com milho morado repousavam em delicioso consommé de folhas de choclo tostadas. O marcante creme de milho morado com azeitonas era mais que um simples detalhe no conjunto. Desses pratos que a gente não quer que acabem.

Central Lima

Os camarõezinhos crus, ladeados de flores e granita de ervas nativas, chegavam envoltos em creme de Sacha Inchi, um tipo de noz que me pareceu ainda melhor in natura – o garçom, diante da minha curiosidade, trouxe para que eu experimentasse e confesso que comi quase todas. 

Central Lima

Além de lúdico, era gostoso o delicado purê feito com batatas típicas de altitudes extremas, secas pela ação do gelo. Quanto às “pérolas” sobre o purê, trata-se de uma colônia de bactérias, chamadas cushuro, também de grandes altitudes. Honestamente, não me pareceu ter acrescentado sabor ao prato.

Central Lima

 O pirarucu, marinado em airampo, vinha coroado com fitas finíssimas de palmito e lâminas de huito (fruta amazônica).

Central Lima

Encerrando os cursos salgados, cordeiro, amaranto e queijo de ovelha. Soberbo o cordeiro, em riquíssimo molho, o colágeno preenchendo a boca.

Central Lima

 A primeira sobremesa era um delicioso sorvete de Nuez de Bahuaja (cujo sabor lembra muito o de nossa castanha-do-pará) com granita feita da casca de uma árvore nativa da Amazônia (cujo sabor remetia ao da erva mate) e pedacinhos de taperebá.

Central Lima

Na segunda sobremesa, quem brilhava era a chirimoya in natura, num belo diálogo com cacau, crocante de folha de coca e espuma da própria chirimoya.

Central Lima

Não poderia deixar de comentar que, ao longo da noite, foram muitos os momentos em que o Central me remeteu ao DOM, de Alex Atala. Fosse pelo conceito que permeava aquele menu ou, inevitavelmente, pelo papel que o restaurante desempenha no contexto da atual gastronomia peruana. Assumo o risco de alguma leviandade no paralelo que traço aqui, afinal, no Central estive uma única vez. Mas, tanto lá como cá, para além das similaridades na construção de suas identidades, vivenciei experiências bastante próximas naquilo que diz respeito ao que extrapola o conceito, ou seja, ao que chega efetivamente ao prato. Refeições tecnicamente impecáveis. Alguns momentos de verdadeiro entusiasmo. Mas, ao fim e ao cabo, a mesma sensação de faltar aquele je ne sais quoi que faz com que um grande jantar seja, não apenas um grande jantar, mas um momento que há de carimbar irremediavelmente a memória.

 

Central – Calle Santa Isabel 376 – Miraflores - Lima

http://centralrestaurante.com.pe

Segunda, 30 Setembro 2013

La Picantería, em Lima

La Picantería Lima

Há muitas mesas mais famosas e celebradas em Lima, mas, entre os restaurantes que visitei na semana em que estive no Peru, o La Picantería é aquele ao qual eu voltaria nesse exato momento se pudesse. Esse é o tipo de sentimento que dispensa justificação, mas tenho um punhado de razões que me ajudariam a fazê-lo, se preciso fosse. Algumas delas, claro, são absolutamente subjetivas.

Tão simples quanto vibrante, a casa materializa o desejo do chef Hector Solís (também proprietário do Fiesta Gourmet) de abordar a culinária essencial praticada nas antigas picanterías. O propósito traduziu-se em uma cozinha consistente, cujos pratos, mais do que sabor, têm alma.

La Picantería Lima

La Picantería Lima

Em alguns minutos, já me sentia à vontade como estivesse em casa. O cansaço em que me encontrava quando cheguei ali (fui praticamente direto do aeroporto, assim que pus os pés em Lima) não me permitiu comer tanto quanto gostaria nem experimentar tudo o que me despertava interesse e curiosidade. Mas em poucos atos, o restaurante me disse a que vinha.

Ficamos algum tempo no bar, enquanto aguardávamos lugar em uma das mesas coletivas. As boas-vindas vieram com a incontornável porção de milho tostado, acompanhado de um bom chilcano (drinque à base de pisco, suco de limão e ginger ale).

La Picantería Lima

La Picantería Lima

La Picantería Lima

Já acomodados no salão, não foi fácil decidir o que privilegiar e o que preterir. Começamos com uma escolha tão óbvia quanto fundamental. Ceviche de cação, marcado por frescor e equilíbrio. Na doçura dos deliciosos nacos de camote que o acompanhavam, o providencial contraponto à acidez e à picância do leche de tigre. O simples bem executado.

La Picantería Lima

Seguimos com o rocoto relleno. Sabia que era pimenta para os fortes, mas isso não foi o bastante pra evitar o susto com a picância do prato. O primeiro rocoto relleno a gente nunca esquece. Vencido o primeiro momento de total anulação do paladar, abriu-se caminho para o prazer que se revelou no delicioso recheio de carne e no caldo riquíssimo e saboroso, feito com leite, caldo de carne, cebola, ajís e louro, no que pude identificar.

La Picantería Lima

La Picantería Lima

Imaginava que as sobremesas não seriam o forte do lugar. Fui adiante apenas pra me certificar disso. Até queria provar a crema volteada, mas havia acabado. Acolhi a sugestão de experimentar a torta de galetta. Não que fosse má, mas era uma bobagem.

La Picantería Lima

Foi pequena a amostra que tive do La Picantería, mas me deixou grande vontade de voltar. O que, afinal, me parece que é o que buscamos quando vamos a um restaurante. Sigo acreditando ser essa a melhor medida pra avaliar qualquer lugar, seja um botequim ou um três estrelas.

La Picantería – Francisco Moreno 388, esquina com Gonzales Prada – Surquillo – Lima 

http://www.picanteriasdelperu.com/

Terça, 24 Setembro 2013

Mistura: a impressionante feira de gastronomia que atrai os olhos do mundo para o Peru

Mistura Peru

Os leitores me perdoem o sumiço. Acabo de voltar de uma viagem ao Peru, onde estive por oito dias. Voltei abismada com a beleza daquela terra: de suas paisagens, de sua gente, de sua cultura (o que, obviamente, inclui sua culinária) e sua história. Mas esses dias me serviram também para refletir sobre o frisson que tem causado a cena gastronômica do país e me questionar se não há certo exagero em apontar a gastronomia peruana como o que há de melhor na América Latina, como vem acontecendo nos últimos anos.

Não sou muito afeita a comparações nem apreciadora da cultuada prática de eleger os melhores nisso ou naquilo. Acho que cada país tem sua expressão particular e há que se buscar o que de melhor cada um tem a oferecer. Considerando que a afirmação do Peru como a melhor cozinha da América Latina tem ganhado status de verdade absoluta, parece-me saudável refletir, questionar. Particularmente, não acho que a gastronomia peruana seja mais rica do que a brasileira por exemplo. Acho, sim, que alguns de seus protagonistas (em especial, o chef Gastón Acurio), juntamente com o governo daquele país, souberam levá-la ao povo - fazendo dela um dos aspectos da reconstrução de sua auto-estima -, bem como difundi-la mundialmente com mais inteligência e muito mais eficiência do que nós, brasileiros, temos feito ao longo dos anos. A feira Mistura é exemplo incontestável disso.

Mistura Peru

Mistura Peru

Mistura Peru

Mistura Peru

Estive na edição de 2013 e saí absolutamente encantada. Talvez nenhum outro evento do gênero no mundo possa ser comparado à expressão que tem feira peruana. Em primeiro lugar, pelo fato de ter como foco a comida, mais do que aulas e discursos de chefs importantes, embora isso, naturalmente, também esteja no “pacote”. Em segundo lugar, por abordar a gastronomia local com tamanha abrangência e alcançando impressionante integração do povo. Embora atraia chefs e jornalistas de toda parte do mundo, trata-se, em última análise, de uma festa do povo. O tempo que passei na imensa fila à espera da abertura dos portões  não me deixou dúvida quanto a isso. Centenas de milhares de pessoas se reúnem numa mistura cuja liga é indiscutivelmente a cultura culinária que compartilham.

Para o estrangeiro, estar ali é tão interessante e divertido quanto é para os peruanos ou até mais. Além do caráter antropológico da coisa, há a vantagem de se ter ao alcance da boca, num só lugar, uma infinidade de sabores que povoam as mesas de norte a sul do país. Eis o que experimentei em uma única tarde.

O ceviche do famoso restaurante Sonia.

Mistura Peru

Mistura Peru

Ají de gallina do El Rincón Que No Conoces.

Mistura Peru

Mistura Peru

O delicioso sanduíche de leitão assado com salsa criolla da sanduicheria La Lucha.

Mistura Peru

Mistura Peru

Arroz con pato a la chiclayana (prato típico da cidade de Chiclayo e da região onde se encontra) do La Picantería, restaurante do chef Hector Solís, um dos meus endereços favoritos em Lima, como contarei aqui em breve.

Mistura Peru

Mistura Peru

Mistura Peru

O leitão pururuca da Caja China e o chancho al palo, talvez as maiores atrações da festa, estavam entre as coisas que eu desejava experimentar. Infelizmente, fiquei na vontade. As filas de mais de uma hora eram desanimadoras. Entram na lista dos muitos motivos pra voltar.

Mistura Peru

Mistura Peru

Mistura Peru

Quanto aos doces, experimentei o incontornável suspiro limeño e, ainda, arroz con leche e mazamorra morada, uma sobremesa à base de frutas e maíz morado. Uma delícia.

Mistura Peru

Mistura Peru

Encerrei minha passagem pelo Mistura com uma generosa porção dos clássicos picarones: roscas gigantes feitas com farinha, zapallo e camote. Fritas na hora, são regadas com mel de frutas ao servir. Um delicioso exagero.

Mistura Peru

Eu abocanhava os picarones, numa felicidade quase infantil, quando os olhos alcançaram a frase no alto de uma das estruturas espalhadas pela feira:

Mistura Peru

Em apenas quatro palavras, tudo estava dito.

 

Mistura Peru - http://mistura.pe/

Tags: Mistura Peru Lima
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