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Quarta, 28 Agosto 2013

Restaurante DOC, no Vale do Douro

Restaurante DOC Rui Paula

Comandado pelo celebrado chef Rui Paula, o restaurante DOC tornou-se parada obrigatória nos roteiros gastronômicos pelo Vale do Douro. Difícil não criar expectativas a respeito de um lugar sobre o qual já havia lido tantas resenhas abonadoras. Mas algo me dizia que o DOC talvez fosse mais fama que proveito. Eis o benefício da baixa expectativa: o que poderia ser um grande tombo, deixou-me apenas os leves arranhões das pequenas decepções, essas para as quais a intuição, de alguma forma, nos prepara.

Restaurante DOC Rui Paula

Uma bela edificação, debruçada de forma dramática sobre o rio Douro. Um cardápio aparentemente bem arquitetado no sentido de uma abordagem atual da cozinha da região. Tudo ali sugere a iminência de uma grande refeição. Não devem ser poucos os que se deixam convencer por esse primeiro impacto, sem avaliar que o que vem em seguida é menos do que promete ser. Não que a comida seja de todo má. O problema é que está aquém do que insinua a proposta da casa e, certamente, da fama que ela alcançou. E, pra ser honesta, não me pareceu que eu tivesse simplesmente presenciado um dia menos feliz na trajetória do restaurante – o que, sabemos, acontece nas melhores famílias. Pode ser que eu me engane, mas não acho que tenha sido o caso.

Restaurante DOC Rui Paula

Minha refeição no DOC talvez tenha sido a mais rápida que já vivenciei num restaurante desse padrão – e isso não é um elogio. A impressão que me deixou foi a de um serviço mais apressado que a média e a de uma cozinha em que tudo parecia previamente engatilhado (mais do que o necessário à rotina de um restaurante), com muito pouco feito ao momento. Se a equipe pretendia nos proporcionar uma prolongada e prazerosa tarde, falhou em comunicar a intenção.

Comecei com a chamuça de alheira, acompanhada de cogumelos salteados. Boa massa, recheio gostoso.

Restaurante DOC

Em seguida, o melhor do almoço: arroz carolino com marisco e peixe imperador. Arroz molhado, delicioso. Peixe preparado com delicadeza.

Restaurante DOC

Já o leitão crocante com batata galette foi uma absoluta decepção. Faltava umidade e sabor à carne. A batata não teve melhor sorte. Não gosto de fazer comparações, mas era inevitável traçar relação com o excelente leitão que havia experimentado poucos dias antes no Belcanto, um abismo de diferença.

Restaurante DOC

Não fomos mais felizes com as sobremesas. “O Chocolate e os Frutos Secos” reunia brownie, sorvete de nozes e mousse de pistache. A mousse e o sorvete não eram bons. O brownie era inconcebível. Um pouco melhor, aquela intitulada “A Abóbora e a Canela”: mil-folhas recheado com doce de abóbora, acompanhado de sorvete de canela. A massa era ordinária, o sorvete não chegava a ser digno de nota. Bom mesmo era o doce de abóbora. Descartei a massa e fiquei com ele.

Restaurante DOC

A julgar por meu recente almoço, eu diria que o melhor do DOC é mesmo o cenário único, que há de carimbar a memória de quem quer que visite o restaurante. O que é um bom motivo pra ir até lá, especialmente se, como eu, o leitor não for com grande expectativa. E, embora a beleza da paisagem não seja mérito do chef Rui Paula, não se pode negar que ele soube explorá-la com inteligência.

 DOC  - Estrada Nacional 222 – Folgosa – Armamar

ruipaula.com/

Quarta, 21 Agosto 2013

Casa Aleixo, no Porto

Casa Aleixo Porto

Nos meses que antecederam minha última visita a Portugal, ouvi de muitas pessoas uma mesma recomendação: ”Se vai ao Porto, não deixe de visitar a Casa Aleixo”. Endereço tradicional, o restaurante aborda os sabores da terra de forma simples, franca, sem rodeios. O enxuto cardápio não deixa dúvida quanto a isso.

O salão é agradável e acolhedor; o serviço, simpático. Fomos atendidas pelo próprio dono da casa. Falante que só, trocou conosco uns bons dedos de prosa. Foi divertido ouvir sua opinião a respeito de alguns restaurantes de comida "portuguesa" que são sucesso de público e crítica no Brasil. Arrancou-me boas risadas.

Começamos com bolinhos de bacalhau com salada de feijão frade. Bons, os bolinhos. Massa delicada, embora não muito saborosa. A estrela foi mesmo o feijão: cocção perfeita e tempero equilibrado, que enriquecia a salada sem mascarar seu sabor.

Casa Aleixo Porto

Em seguida, deliciosa alheira grelhada, pedido certeiro naquela região. Gosto tanto do enchido que, qualquer que seja o cardápio em que figure, é sempre difícil resistir.

Casa Aleixo

Para o principal, escolhemos o lombo de porco assado com castanhas. As batatas que acompanhavam estavam muito gostosas, mas tanto a carne como as castanhas podiam estar mais macias. Enfim, não era o forte da casa e se eu não sabia disso era por pura incompetência. Soube depois que sua especialidade é o arroz de polvo e que os iniciados nem consideram pedir outra coisa ali. Eu que durma com essa.

Casa Aleixo

Com a sobremesa, a refeição reencontrou o tom. Uma soberba fatia de pudim Abade de Priscos iluminou nossos rostos – aquela luz que antecede momentos de revelação. Já tinha experimentado o doce em algumas ocasiões, mas nada se comparava ao exemplar que tinha, então, em minha mesa. De consistência perfeita, na boca era um veludo. O brilho da espessa calda denunciava a precisão de mãos experientes.

Casa Aleixo

Embora mais de dois meses nos distanciem daquela tarde, não há uma só vez que eu encontre a mãe (minha companheira naquele almoço) e não falemos no tal pudim.

 

Casa Aleixo - Rua da Estação 216 - Porto

 

Sexta, 16 Agosto 2013

No Mercado Central de Belo Horizonte

Não concebo ir a Belo Horizonte e não visitar o Mercado Central. Na última visita, tinha o tempo mais farto do que de costume, então, pude percorrer seus corredores sem urgência. Como sempre, aproveitei pra me abastecer de itens de primeira necessidade: queijo, goiabada, doce de leite, de laranja da terra. Aos primeiros sinais de fome, parei no balcão da Comercial Sabiá pra experimentar seu famoso pão de queijo recheado com pernil de porco. Dessas coisas que só Minas Gerais faz por você.

Mercado Central Belo Horizonte

Mercado Central Belo Horizonte

Andei mais um pouco. Quando a fome ameaçava se instalar novamente, tomei o rumo do boteco Casa Cheia e resolvi o problema com uma panela de canjiquinha com lombo de porco defumado, costela, linguiça e espinafre. Um prato que se basta em sua generosidade. Dispensa entrada ou sobremesa. Comida dessas que preenchem vazios que a gente nem desconfiava haver.

Mercado Central Belo Horizonte

Mercado Central Belo Horizonte

Sim, há coisas que só Minas faz por você.

Depois de uns pares de horas amolecendo os ouvidos ao som de esses prolongados, alguns pães de queijo devorados e o calor de um bom prato de canjiquinha, a gente sai se sentindo mais mineiro que a mais mineira das crias daquela terra. Tolice. Como advertia um de seus filhos mais ilustres, ninguém sabe Minas. “Só mineiros sabem. E não dizem nem a si mesmos o irrevelável segredo chamado Minas”.

 

Mercado Central - Av. Augusto de Lima 744 – Centro - Belo Horizonte

http://www.mercadocentral.com.br/

Terça, 13 Agosto 2013

Com açúcar, gemas e afeto

Parecem simples as receitas de alguns dos meus doces prediletos. Engana-se, porém, quem pensa que a doçaria portuguesa é um ofício banal, nada além de misturar ovos e açúcar. O delicado equilíbrio que faz a diferença entre exemplares pesados, excessivamente doces, e as pequenas joias que brotam de mãos zelosas é algo difícil de encontrar. Mas vale a pena procurar. Uma visita a Portugal sem essa busca não tem a mesma graça. Eis algumas confeitarias que tornaram melhor minha passagem recente pelo país.

Pastéis de Belém

Volto sempre. Porque tão bom quanto descobrir novos lugares é voltar a endereços familiares e encontrá-los exatamente como os deixamos no último encontro, quase como se estivessem esperando por nós durante todo o tempo em que estivemos longe.

Pastéis de Belém

As filas continuam enormes e os amplos salões, lotados. O que garante constantes fornadas e pastéis sempre frescos. Chegam à mesa com a massa estalando e o cremoso recheio ainda quentinho, pronto pra receber a chuva de canela. Há outros clichês que vale a pena cometer em Lisboa, mas poucos tão gostosos quanto este.

Pastéis de Belém

Doce História

A pequena loja, no entorno do belíssimo Miradouro de São Pedro de Alcântara, reúne em suas prateleiras especialidades de vários cantos do país. Como não são fabricados ali, os doces nem sempre são os mais frescos. Entre os que experimentei, nem todos eram bons, mas por um deles eu seria capaz de voltar todos os dias: as queijadas do céu. A textura do recheio, à base de ovos e gila, ainda não me saiu da memória.

Doce História Lisboa

Doce História Lisboa

Confeitaria da Ponte

Uma pequena linda cidade. Um rio. Uma ponte medieval. De um lado da ponte, um convento do século XVI. Do outro, debruçada sobre o rio, uma confeitaria com mais de oitenta anos de idade. Eu tinha motivos de sobra a justificar um desvio em meu caminho, para uma breve passagem por Amarante.

Amarante

Confeitaria da Ponte Amarante

Confeitaria da Ponte Amarante

As vitrines da histórica confeitaria dão vida a clássicos que povoam os manuais da doçaria portuguesa. Diante delas, a vontade era experimentar tudo. A criança que ainda mora na ponta do meu dedo movia-o em todas as direções. Quando me dei conta, já havia mais de meia dúzia de doces em nossa mesa. Minha versão adulta me mandava parar.

Nem tudo o que comi era digno de nota. Gostei muito do que ali chamam papo de anjo: doce de ovos envolto em hóstia crocante, no mesmo formato das barrigas de freira. Também deliciosa era a queijada de amêndoas e gila.

Confeitaria da Ponte Amarante

Confeitaria da Ponte Amarante

Ainda melhores estavam os amarelíssimos papos de anjo – que ali atendem pelo nome de amarantinos. Encerrei a visita com um deles.

Confeitaria da Ponte Amarante

Acomodada na varanda, olhava o rio, a ponte, e ia comendo bem devagar, na tentativa de tapear o tempo e aprisionar a fugacidade do momento.

Confeitaria da Ponte Amarante

 

Pastéis de Belém – Rua de Belém nº 84 – 92 - Lisboa

http://www.pasteisdebelem.pt/

Doce História - Rua Dom Pedro V nº 1 – Lisboa

https://www.facebook.com/pages/Doce-Hist%C3%B3ria/126020717500748

Confeitaria da Ponte - Rua 31 de Janeiro nº 186 - Amarante

http://confeitariadaponte.pt

Segunda, 05 Agosto 2013

Aconteceu na Casa Carandaí, mas poderia ter sido em qualquer outro lugar

Quase três da tarde, entramos na Casa Carandaí e nos dirigimos ao café que funciona nos fundos da loja. Famintos, escolhemos rapidamente nossos pratos e chamamos a garçonete, que anota nossos pedidos. Enquanto aguardamos, observamos a quebra da rotina no salão. A proprietária da casa comandava os esforços da equipe no sentido de reproduzir o cardápio de café da manhã, cujos itens seriam fotografados em seguida, para publicação em uma revista.

Comento com meu marido: “Essa mesa está mais bonita do que a que encontramos no bufê do último domingo, não?” Ele acha graça. Seguimos aguardando e observando a movimentação. Àquela altura, já percebíamos que certa confusão se instalava, não sem motivo, no serviço. Eis que, vinte minutos depois de anotados nossos pedidos, a garçonete, com o constrangimento instalado no rosto, avisa que havia se esquecido de transmiti-los à cozinha. Desculpa-se uma, duas, três vezes. Mas a culpa não era sua.

A proprietária, preocupada em orientar a energia da equipe no sentido de providenciar os detalhes para a produção da reportagem, deixava em segundo plano o atendimento dos clientes ali presentes – muitos deles, provavelmente, frequentadores assíduos, que algumas vezes devem ter pagado por cestas de pães um pouco menos fartas e fatias de bolo um tantinho menos generosas do que aquelas que agora o fotógrafo enquadrava.  

É possível que algumas pessoas vissem o mau atendimento de que fui vítima como um simples acidente de percurso. Até poderia ser. Restaurantes são engrenagens movidas por gente, e gente, cedo ou tarde, falha. Faz parte. Mas, particularmente, vi naquele episódio mais do que um simples acidente de percurso. Vi um sintoma de um problema muito maior, que acomete a cena da restauração no Brasil e no mundo, com raras exceções: parecer tornou-se mais importante do que ser. Mais do que concentrar esforços em fazer bem seu trabalho e, como decorrência disso, ter suas mesas cheias, muitos chefs de cozinha e donos de restaurantes andam mais preocupados em lançar mão de ferramentas que lhes assegurem esse resultado mesmo quando a cozinha e o serviço de suas casas não justifiquem um salão lotado. Ter uma assessoria de imprensa que leve as pessoas certas a seus estabelecimentos. Oferecer refeições em troca de espaço – qualquer espaço, em qualquer veículo. Agradar jornalistas dispostos a vender fantasia a uma horda de leitores que, mais do que comida, quer consumir glamour. Tudo isso, de repente, ficou mais importante do que voltar a atenção para o que se passa em suas cozinhas e seus salões.

Aconteceu na Casa Carandaí, mas poderia ter sido em qualquer outro lugar.              

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Segunda, 29 Julho 2013

Restaurante Trindade, em Belo Horizonte

Trindade Belo Horizonte

Expoente de uma nova geração da gastronomia mineira, o restaurante Trindade extrapola as fronteiras da região em que se encontra. Em seus fogões, comandados por Felipe Rameh e Frederico Trindade, encontram-se muitos Brasis.

Desde a estética do salão até a concepção do cardápio, pareceu-me haver inspiração no conceito adotado por Alex Atala em seu Dalva e Dito, propondo-se um percurso por diferentes vertentes da cozinha brasileira, da moqueca à feijoada, da herança portuguesa aos clássicos de bar, tudo pontuado por memória e afetividade.

Não posso assegurar que a cozinha trafegue por todos os sotaques com a mesma desenvoltura, pois me concentrei no que havia de mais mineiro no cardápio – em Roma, como os romanos. O que posso garantir é que meu almoço ali foi uma das melhores refeições que fiz em Belo Horizonte nos últimos anos.

Os bolinhos de canjiquinha com costelinha estavam bons, embora um pouco secos – talvez pequenos demais pra permitir um bom equilíbrio entre massa e recheio. Muito melhores eram os pastéis de angu recheados com carne. Pastéis de angu estão entre as coisas que jamais consigo evitar se encontro num cardápio. São uma preferência minha e devo dizer que os do Trindade estão entre os melhores que já experimentei: fritura sequinha, massa cremosa, ótimo recheio.

Trindade Belo Horizonte

Trindade Belo Horizonte

Não pude resistir ao clássico frango com quiabo, que, ali, é tratado com rara delicadeza. Tulipinhas de frango – fritas e, depois, cozidas em caldo de frango – contracenavam com quiabos crocantes. Um cremoso angu de milho verde deixava tudo ainda melhor.

Restaurante Trindade Belo Horizonte

Restaurante Trindade Belo Horizonte

Do lado de lá da mesa, um impecável jarret de porco, carne macia e extremamente saborosa, acompanhado do mesmo delicioso angu de milho verde.   

Restaurante Trindade

A seleção de sobremesas não entusiasma. Petit gâteau de doce de leite. Bolinho quente de chocolate e cupuaçu. Taça de sorvete de baunilha com banana e doce de leite. Nada me parecia muito atraente. Ficamos, então, com a segurança da simplicidade: “doces da fazenda” (figo, doce de leite, excelente goiabada, com queijo meia cura) e pudim de leite.

Restaurante Trindade

O pudim acabou sendo uma surpresa pra mim. Olhei pra ele e, de cara, identifiquei duas infrações à minha cartilha do bom pudim de leite (como se sabe, cada brasileiro tem a sua): além de ter furinhos na massa, ostentava uma ameixa no topo. Minutos depois, já despida de minhas certezas, diante do delicioso exemplar, tive que admitir: tratava-se de uma desconcertante exceção.

Restaurante Trindade

Trindade - Rua Alvarenga Peixoto 388 – Lourdes

http://www.trindadebrasil.com.br/

 

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