Pra quem quiser me visitar....
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  • Tordesilhas: o Brasil de Mara Salles
  • Zécutivo, o almoço executivo do Attimo: das melhores relações custo-benefício em São Paulo
  • Senzo: a morada de Virgilio Martínez em Cusco
  • Restaurante O Paparico, no Porto
  • De volta ao Esquina Mocotó: a nova casa do chef Rodrigo Oliveira
  • De volta ao Arturito
  • O poético Mercado do Bolhão, no Porto
  • The White Rabbit, em Santiago
Segunda, 10 Junho 2013

Portugal: comida e memória

Não são poucos os brasileiros que já me confessaram falta de interesse em conhecer as mesas de Portugal. Não sabem o que perdem. Preciso reconhecer que, de fato, o cenário da restauração em Lisboa é mais restrito, se compararmos a cidade com outras capitais europeias mais festejadas. Mentiria se dissesse que não é. O visitante não vai encontrar ali oferta que se assemelhe à profusão de bares de tapas memoráveis e restaurantes de excelência que tem a Espanha. Nem algo como a ampla gama de brilhantes neobistrôs e padarias e confeitarias superlativas que há na França. Mas, afinal, não fui buscar Espanha ou França em Portugal.

Do balanço dos oito dias dessa minha última visita ao país, poderia tirar uma amostra de bons motivos a salvar da descrença os pouco convictos. As cores, a luz,  a poesia derramada e a capacidade de reinvenção de Lisboa, cidade pela qual me apaixonei novamente. Sim, cidades são como gente; jamais se revelam por inteiro, há sempre algo ainda por desvendar. E é nisso que reside a graça dos reencontros.

Lisboa

Lisboa

Lisboa

Lisboa

Lisboa

Lisboa

A beleza e a nostalgia que brotam em cada rua, em cada praça do Porto.

Porto

Porto

Porto

Porto

O exagero de natureza do Vale do Douro.

Vale do Douro

Vale do Douro

Vale do Douro

Vale do Douro

As boas mesas por onde andei, sobre as quais falarei aqui nos próximos dias. Lugares onde comi bem e quase sempre barato. Tão barato que não há como não pensar no quanto o Brasil anda ridiculamente caro.

Mas há mais que isso. Os brasileiros que, como eu, tenham sido criados na presença de tachos movidos por mãos portuguesas dificilmente passarão por aquele país sem se comover. A cada esquina, topamos ainda com referências desse Portugal de que nosso imaginário é impregnado desde criancinhas, pelo que diziam e faziam as avós, as bisavós. Eu, que levei minha mãe comigo nessa viagem, vivi isso com intensidade ao longo dos últimos dias. “Era assim mesmo que a minha avó fazia os carapaus”. “Era exatamente desse jeito que meu pai gostava do bacalhau.” “Olha o doce de tomate, igualzinho ao que preparava a vovó.” Foram oito dias ouvindo-a dizer coisas assim. E vislumbrando na comida a essencial conexão com a memória, com ainda mais força do que me havia acontecido na última visita ao país, anos atrás.

A embalar tudo isso, a acolhida de uma gente que não se encontra em outros cantos da Europa. Até hoje, jamais encontrei em outro povo no hemisfério norte o calor do povo português. Nem aquele irresistível jeito de falar, cheio de melodia e de diminutivos. “A menina quer provar uns carapauzinhos?” “Um queijinho de ovelha?” “Uns pastelinhos de bacalhau?” É absolutamente diferente de nos ofertarem uns carapaus, um queijo de ovelha, uns pastéis de bacalhau. Mas é preciso saber ouvir.

Vale do Douro

 

Segunda, 20 Maio 2013

Esquina Mocotó, a nova casa do chef Rodrigo Oliveira em São Paulo

Esquina Mocotó Rodrigo Oliveira

Em março do ano passado, em visita ao Engenho Mocotó, soube do novo restaurante que o chef Rodrigo Oliveira planejava abrir na Vila Medeiros, na mesma rua que abriga o Mocotó. Rodrigo e seu parceiro constante na cozinha do Engenho, o chef Julien Mercier, me contaram, então, sobre os testes de pratos que já realizavam àquela altura. A curiosidade se instalou. Convivi com ela por mais de um ano. Semana passada, após alguns adiamentos e algumas mudanças no conceito original, a casa foi finalmente inaugurada.

O Esquina Mocotó é, pra dizer o mínimo, uma iniciativa corajosa. Rodrigo, que considero um dos mais talentosos chefs em atuação no Brasil, conquistou todos os louros depois de assumir o comando do restaurante do pai, o Mocotó, um dos meus favoritos no país. Podia deitar em berço esplêndido, mas optou por sair da zona de conforto. Ousou abrir, exatamente ao lado do consagrado restaurante da família, um novo espaço, com conceito bastante diferente do primeiro. O catalisador das ideias ali esquadrinhadas me parece ser a mesma brasilidade que sempre o conduziu em suas intervenções no Mocotó. Mas o horizonte aqui é outro. Livre dos parâmetros de uma cozinha regional, o chef assimila um universo maior de referências e digere essa brasilidade a partir de uma perspectiva própria, com liberdade para conceber um trabalho mais autoral.

Esquina Mocotó Rodrigo Oliveira

Estive lá, como convidada num jantar fechado, organizado pela jornalista Alexandra Forbes, onde Rodrigo apresentou uma prévia do novo trabalho. Portanto, no relato que faço agora, não tenho a pretensão de uma análise crítica. Quero voltar em breve, num dia de funcionamento normal do restaurante, para, então, poder tirar maiores conclusões. Por ora, apenas compartilho aqui um pouco do espírito do Esquina Mocotó.

O enxuto cardápio, que tem na qualidade do produto sua maior estrela, sofrerá mudanças semanalmente ou de tempos em tempos. Nele, o único prato importado da carta do Mocotó são os incontornáveis dadinhos de tapioca com queijo coalho.

Esquina Mocotó

A entrada batizada de “A Porcaria” é senha de felicidade para quem, como eu, for amante de carne de porco. Uma tábua de madeira traz salame, presunto cru de Catanduva, terrine de porco, picles de cebola, compota de cebola roxa e uma nova versão dos dadinhos, em que se adiciona carne de porco à receita. Sim, ainda tinha como ficar melhor...

Esquina Mocotó

Não deu pra ir em frente sem pedir bis.

Experimentamos, ainda, pratos como o tutano com vinagrete de língua, acompanhado de pães feitos na casa...

Esquina Mocotó

A saborosa panelinha de moela...

Esquina Mocotó

O ovo mole com cogumelos, legumes e caldo de galinha...

Esquina Mocotó

Os delicados nhoques de mandioca com quiabo, tucupi e queijo de cabra.

Esquina Mocotó

Encerramos com o frescor do ótimo sorvete de cajá em purê de manga.

Esquina Mocotó

Deixo aqui uma confissão. Embora, racionalmente, soubesse ser improvável, alimentava a expectativa de encontrar na carta a deliciosa cartola do Mocotó – pra mim, sua melhor sobremesa. Nem em Pernambuco experimentei tão boa. Tornou-se obrigatória nas minhas visitas à casa, tanto quanto os famosos dadinhos. Não foi dessa vez. Quem sabe na próxima visita?

 

Esquina Mocotó – Av. Nossa Senhora do Loreto 1108 – Vila Medeiros - São Paulo

Quinta, 16 Maio 2013

Dona Vivinha, doceira de Ponte Nova e musa inspiradora do “Rancho da Goiabada”

Goiabada Dona Vivinha

Jamais me esqueço da primeira vez em que ouvi falar em Dona Vivinha. Faz mais de uma década. Meu pai tinha em mãos uma lata de goiabada e uma de mangada, que alardeava como as melhores que já havia provado. Tinha sido presenteado pelo compositor João Bosco, que é filho de Ponte Nova – capital da goiabada cascão –, e dependente crônico dos doces caseiros produzidos por uma conterrânea. Tempos depois, soube que os estoques da goiabada feita pela mineira, trazidos frequentemente por João de sua cidade natal, inspiraram Aldir Blanc na letra da canção “Rancho da Goiabada”.

Jamais esqueci aquela tarde em que devoramos os doces de Vivinha às colheradas. Semana passada, ao descobrir que podem ser encomendados para entrega fora de Minas Gerais, telefonei imediatamente. Fiz a compra, paguei o sedex e aguardei com ansiedade – e alguma dúvida; afinal, mais de dez anos me distanciavam da tarde guardada na lembrança. A memória não me traiu. A goiabada, de consistência perfeita e sabor equilibrado, é, de fato, uma delícia – embora não tire da goiabada Zélia o posto de minha favorita. Ainda melhor é a mangada. Não me recordo de ter experimentado outra mais gostosa.

Goiabada Dona Vivinha

Dispenso o cigarro e o beijo da mulata Leonor. Mas de uma boa goiabada cascão não abro mão. Com muito queijo, sempre.

 

Dona Vivinha – (31) 32613370

Terça, 14 Maio 2013

Bolo de rolo na Casa dos Frios e tapioca no Alto da Sé: comendo símbolos

Não se pode conceber uma visita ao Recife sem uma parada na Casa dos Frios para comprar bolo de rolo. Um dos maiores símbolos da doçaria pernambucana – e dos meus grandes vícios na vida – ganha ali sua versão mais famosa. Não à toa. Particularmente, não me recordo de já ter experimentado um exemplar que revelasse maior equilíbrio entre as finíssimas camadas de massa e o delicado recheio de goiabada. E confesso que essa comparação é exercício ao qual sou capaz de me entregar indefinidamente.

Tão obrigatória quanto o bolo de rolo é a queijadinha feita ali. Nos fornos da Casa dos Frios, recebe tratamento impecável: casquinha crocante, recheio úmido, bordas caramelizadas. Impossível comer uma só.

Casa dos Frios

Na vizinha Olinda, outro endereço incontornável na rota dos pequenos bocados. A tapioca, patrimônio imaterial e cultural da cidade, é preparada diariamente pelas tapioqueiras que se reúnem todo fim de tarde em frente à Igreja da Sé. Embora minha preferência seja a massa mais fina do que a que elas costumam fazer ali, não há como não se render. Onde quer que estivessem, seria um prazer acompanhar o habilidoso balé das mãos experientes e depois devorar uma tapioca quentinha. Mas é impossível negar que, diante daquele cenário, a experiência ganha outra dimensão.

Alto da Sé Olinda

Alto da Sé Olinda

tapioca Alto da Sé

tapioca Alto da Sé

 

Casa dos Frios - Avenida Rui Barbosa, 412 – Graças / Av. Eng. Domingos Ferreira, 1920  - Boa Viagem

Sexta, 10 Maio 2013

Oro: quase três anos depois

Quando O Oro estava em vias de inaugurar, em 2010, soube até de apostas sobre quanto tempo o restaurante resistiria antes de agonizar. Quem dava mais não ousava apostar mais de um ano. Pois a casa está prestes a completar três. De lá pra cá, Felipe Bronze vem mostrando que seu trabalho tem lastro.

Seu começo de carreira é cheio de tropeços? Impossível negar. Algumas de suas escolhas revelam certa falta de maturidade? Talvez. Não gostam de seu programa de TV? Também não gosto. Mas nada disso me importa quando me sento em seu restaurante. Ali, quero comer bem. Isso, Felipe sempre me garantiu. Gostem ou não de sua cozinha, o fato é que não se trata de algo a que se possa ficar indiferente. Particularmente, tenho a impressão de que o respeito de seus colegas o chef ainda não conquistou. Talvez nem venha a conquistar. Preconceito é coisa difícil de quebrar. Dizer que gosta do Oro é arriscado. Muita gente olha torto ao ouvir isso. Pois eu gosto. Já disse isso aqui algumas vezes. Por via das dúvidas, repito. Tenho minhas ressalvas, como já expus longamente nesse post e nesse outro. Mas nunca saí dali insatisfeita ou, o que seria pior, indiferente.

Penso nas minhas três últimas refeições no restaurante ao longo dos últimos doze meses, e, apesar de não gostar igualmente de todos os pratos que me foram servidos, encontro muitos motivos a reiterar minha convicção a respeito da casa.

É o caso da deliciosa versão do Caju Amigo, com que sempre tenho iniciado meus jantares ali. Caju confit, sorbet da calda do confit com cachaça e caju passa.

Oro Felipe Bronze

Ou da inspirada trilogia Carioquices, que homenageia alguns clássicos da boemia carioca: o bolinho de aipim com camarão da Alaíde – que fez fama no Bracarense e continua arrebanhando adeptos no Chico & Alaíde – , o bolinho de feijoada do Aconchego Carioca  e o sanduíche do Cervantes, que aqui, verdade seja dita, surge em versão muito mais gostosa que o original. O refrigerante de gengibre fazendo as vezes de chopp é a cereja do bolo.

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze  Oro Felipe Bronze

Da delicadeza do Milharal, cones de milho com recheio de espuma de catupiry e pó de pipoca.

Oro Felipe Bronze  Oro Felipe Bronze

Do sutil diálogo de sabores do duo de gnocchi, um de cebola, outro de queijo Canastra, ambos mergulhados num consommé de alho tostado.

Oro Felipe Bronze

Do lúdico e delicioso Um Dia na Praia, que sintetiza o modo de comer nas areias cariocas: mate com limão, milho na manteiga, queijo coalho esferificado e defumado com orégano, areia de amendoim, espetinho de camarão e biscoitos de polvilho.

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze  Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Das variações em torno do porco, onde brilham a pururuca (obtida da pele de porco em pó, desidratada), a costela úmida e macia e o infernal sanduíche de orelha de porco com Canastra e ketchup de goiaba.

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Das sempre lúdicas, e quase sempre gostosas, sobremesas e mignardises. O capítulo derradeiro dos cardápios costuma ser terreno fértil para muitos chefs exercitarem preguiça e negligência. Não ali. A provar o que digo, exemplos como a Tudo Ovo, de que já falei aqui anteriormente. A média com pão na chapa, que traz um shake de café acompanhado de um naco de pão com creme de confeiteiro, submetido ao calor do maçarico antes de vir à mesa. Os churros em miniatura. Os deliciosos bolinhos de pupunha que acompanharam meu café ao final do jantar de ontem e ainda não me saíram da memória.

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Só posso desejar que a chama que move Felipe continue acesa na nova casa que o chef  inaugura ainda esse mês na rua Dias Ferreira, no Leblon. Batizada de “Pipo”, aparentemente terá a mesma linha de criação do Oro, porém numa versão mais informal, menos ambiciosa. No cardápio, finger food, pratos a compartilhar e sanduíches pinçados do cardápio do Oro como o “Oro Burger” e a homenagem ao Cervantes. Nas sobremesas, evocações da memória de Felipe, como sua versão do creme de abacate das nossas infâncias, arroz doce e sundaes revisitados.

Diante da monotonia que impera nas fórmulas dos novos estabelecimentos que proliferam no Rio de Janeiro – que, em geral, fazem número, mas não propõem nada de verdadeiramente novo –, o cardápio do Pipo soa como música pra meus ouvidos. Torço pra que, na prática, a casa se revele tão boa como me pareceu no papel.

Oro - Rua Frei Leandro, 20 - Jardim Botânico

http://www.ororestaurante.com/

Pipo – Rua Dias Ferreira 64 - Leblon

Quarta, 08 Maio 2013

Oficina do Sabor, em Olinda

Oficina do Sabor César Santos

No comando da famosa casa em Olinda, o chef César Santos percorre as vertentes da cozinha pernambucana, do litoral ao sertão, tendo como norte o propósito de conferir-lhe atualidade e leveza através de uma abordagem bastante pessoal, nada ortodoxa.

Oficina do Sabor Olinda

Gostaria de ter experimentado mais coisas, mas os pratos são grandes e, mesmo tendo feito duas visitas ao restaurante, não haveria fôlego pra tudo o que queria provar.

Nas duas vezes, não resisti aos bolinhos de charque com macaxeira, cuja massa é uma mistura dos dois ingredientes. Deliciosos.

Oficina do Sabor Olinda

Entre os jerimuns recheados, especialidade da casa, optei pelo de linguiça matuta. Acabei cometendo um pleonasmo gastronômico e pedindo também uma porção de farofa de jerimum, tão pernambucana. Adoro abóbora, não pude evitar. Trata-se de uma “farofa” cremosa, justamente por haver mais abóbora que farinha. Muito gostosa.

Oficina do Sabor Olinda

Oficina do Sabor Olinda

Mas o melhor entre os pratos que experimentei foi a versão litorânea do baião de dois. Pescada amarela, camarão, lagostim e polvo, puxados no leite de coco, com arroz, feijão verde e queijo coalho ralado. Prato rico, saboroso, cujo único deslize era o ponto do peixe e dos frutos do mar, que pediam menos tempo de fogo.

Oficina do Sabor Olinda

 As sobremesas não me empolgaram. A “baba-de-moça com quero-mais-neguinho”, mistura um gostoso doce de coco verde, sorvete de tapioca (nem tão gostoso), bolinho de goma e cocada preta. Provei, ainda, a cartola, sobremesa que adoro, mas que, ali, apesar de boa, era excessivamente doce.

Oficina do Sabor Olinda

Oficina do Sabor Olinda

Particularmente, acho que alguns elogios entusiasmados da imprensa nacional e internacional ao Oficina do Sabor podem levar o visitante a esperar mais do que vai, de fato, encontrar. Mas é um bom restaurante, que cumpriu o papel de ser um precursor na proposta de atualização da cozinha regional pernambucana. E que, por isso mesmo, tornou-se endereço incontornável na rota de quem esteja de passagem por Recife e Olinda. 

 

Oficina do Sabor – Rua do Amparo, 335 – Cidade Alta – Olinda

http://www.oficinadosabor.com

 

 

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