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Quinta, 09 Abril 2015

Comedoria Gonzales

Comedoria Gonzales

Dia desses, relendo Rubem Braga, eu me perguntava o que sentiria o cronista se viesse fazer um passeio no Brasil de hoje. A reflexão brotou das linhas de uma crônica de 1946, em que ele se referia ao Rio de Janeiro como cidade aflita, onde os problemas urbanos crônicos se faziam agudos e os prazeres eram cada dia mais caros e precários. Quase setenta anos depois, quanto mudou?

As palavras de Braga me revisitaram durante um almoço recente na Comedoria Gonzales, balcão que o chef Checho Gonzales inaugurou há seis meses no Mercado de Pinheiros, em São Paulo. Como que a me lembrar que eu estava diante de algo improvável nestes tempos em que se paga tanto por tão pouco proveito no cotidiano de nossas angustiadas metrópoles.

O espaço é pequeno, está sempre lotado, mas tudo se desenrola com eficiência. No cardápio, comida latina, clássicos das ruas, nem sempre abordados com ortodoxia.  Não é preciso muito tempo pra perceber que o se passa no balcão de Checho é oposto da prática adotada em tantos dos lugares que exploram o filão da comida de rua. Os preços são condizentes com a proposta – coerência é coisa rara, mas ainda há quem pratique – e a execução denota um refinamento que leva o resultado além do que se poderia supor. Quem, no entanto, conhece a trajetória de Checho não se surpreende.

Comedoria Gonzales

Começamos pelos ceviches. Os peixes surgem em marinadas pouco usuais, como manga, açaí ou leite de amêndoas. Optei pela versão com suco de manga, aroeira e sagu de coco. O sagu não me pareceu fazer muito sentido no conjunto, mas a marinada era deliciosa.

Comedoria Gonzales

Seguimos com um gostoso sanduíche de pernil (que devoramos antes que eu me lembrasse de fotografar) e uma porção de batatas-fritas de verdade. Depois disso, uma pamonha de forno e, enfim, uma salteña. A pamonha, de impressionante delicadeza, voltou à minha memória algumas vezes naquele fim de semana. A salteña – se não me engano, único item do cardápio que não é de produção própria – estava fabulosa. Massa excelente, recheio muito saboroso.

Comedoria Gonzales

Comedoria Gonzales

Comedoria Gonzales

Éramos duas pessoas e o valor total da conta, com dois copos do ótimo mate da casa, ficou em torno de R$75,00. O velho Braga não acreditaria.

 

Comedoria Gonzales – Box 85 do Mercado de Pinheiros – Rua Pedro Cristi nº 31-71 – Pinheiros

https://www.facebook.com/puestodecomida

 

Segunda, 16 Março 2015

Taberna da Esquina: o gosto da memória

Taberna da Esquina

A nova casa de Vitor Sobral em São Paulo inspira-se na informalidade e nos sabores francos das tascas portuguesas – permitindo-se o chef, aqui e ali, algumas licenças poéticas. Há um pequeno rol de pratos mais substanciosos, mas a essência do cardápio se desenrola em torno de conservas, petiscos e pequenas entradas. Comida pra ser compartilhada, esse é o espírito da coisa.

Durante meu jantar ali, nos momentos em que tirei a atenção da mesa e a depositei no entorno, houve certo estranhamento. Talvez porque eu procurasse no ambiente algo do calor, do acolhimento das tascas. Mas, se já não deve ser fácil replicar a proposta da cozinha, como esperar que se reproduza o impalpável? E, afinal, que culpa tem o chef de não estarmos em Lisboa, mas no Itaim? De sua parte, garante o que lhe cabe garantir: a viagem acontece no prato.

Taberna da Esquina

Começamos pela seleção de conservas. Sardinhas contracenando com cebolas cruas, tomate e pedaços de pão grelhado. Bacalhau na providencial companhia do grão de bico, além de cebolas, vinagrete de sardinha e gema de ovo ralada. Deliciosas, ambas as porções.

Taberna da Esquina

Taberna da Esquina

Seguimos com as pataniscas de bacalhau com legumes, acompanhadas de creme de feijão frade. Podiam estar mais sequinhas, mas eram muito saborosas.

Taberna da Esquina

Não deixaria a casa sem experimentar a alheira, que figura entre minhas predileções, ali servida com cenouras e impecáveis quiabos grelhados. Meu caderno de anotações me assegura ter sido esse o melhor prato da noite.

Taberna da Esquina

Confesso, porém, que em meu registro íntimo o que ficou carimbado foram os rissoles de bacalhau com camarão. Dizer que a fritura era perfeita, que a massa era leve e que o sutil recheio podia ter mais sabor atenderia ao compromisso com a objetividade que se espera daqueles que escrevem sobre restaurantes. Como não pretendo fingir que minhas experiências à mesa sejam destituídas de subjetividade, devo admitir que o mais importante a respeito daqueles bocados foi o fato de terem me levado de volta a Lisboa. Mais precisamente, a junho de 2007, quando minha saudosa tia Alice, lisboeta e cozinheira de mão cheia, me apresentou seus inigualáveis rissoles.

Taberna da Esquina

Os da Taberna da Esquina não rivalizam com aqueles feitos pela tia, que minha memória tratou de eternizar. Mas, de algum modo, me levaram a revisitá-los e, assim, atenuar a saudade. Que bem maior pode um prato de comida fazer a alguém – depois, evidentemente, de saciar-lhe a fome?

 

Taberna da Esquina – rua Bandeira Paulista 812 – Itaim – São Paulo

 

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