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Quinta, 31 Julho 2014

Conceição Discos, o novo café de Talitha Barros em São Paulo

Conceição Discos

Ao cruzar a fronteira dos trinta, deixando pra trás o frescor e certa inocência que há nos vinte, eu não supunha a maior das mudanças que a transição me traria. Fui advertida de uma série de possíveis transformações, mas ninguém jamais me havia revelado justamente o mais grave dos sintomas dessa passagem. Não me prepararam pra algo que antes parecia não estar no script: a consciência da finitude.

Os vinte levaram embora com eles a certeza de que a vida é pra sempre. Os trinta trouxeram o avassalador sentimento de transitoriedade e, com ele, a percepção de que muitos dos desvios que tecemos na malha do tédio cotidiano são, no fundo, uma tentativa de driblar essa condição. Dar um mergulho no mar. Ouvir um disco que nos emocione. Assar um bolo no meio da tarde. Encontrar os amigos pra jogar conversa fora. Viajar. Por alguns minutos ou horas - ou até mesmo dias, nos melhores casos -, esquecemos que é tudo tão efêmero. Acreditamos que pode haver música e bolos fumegantes e o calor de pessoas queridas indefinidamente, sem prazo de validade.

Conceição Discos

Um desses momentos calhou de acontecer no Conceição Discos, o misto de café e loja de vinis que Talitha Barros inaugurou há algumas semanas em São Paulo. A natureza se encarregou de providenciar chuva fina e frio manso. Mal entramos, Sarah Vaughan irrompeu na vitrola. Depois, Chet Baker. Por fim, Ray Charles. É preciso falar ainda no cheiro de comida boa que havia no ar, o que levou um amigo a observar com muita propriedade: “como é bom cozinha que cheira, quase não se vê isso nos restaurantes de hoje”.  

Conceição Discos

“Cozinha que cheira” era mesmo a impressão que eu tinha do que faz Talitha Barros. Sempre ouvi dizer que é das mais talentosas cozinheiras de São Paulo, dessas que abordam com profundidade o simples, o essencial. Ainda não tinha conseguido conferir seu trabalho, especialmente pelo pouco tempo que permaneceu em cada um dos endereços por onde passou nos últimos anos – como Mangiare, Bravin e Brasil a Gosto. Quando soube que abrira um negócio seu, vislumbrei a oportunidade de vê-la em ação. Agora, dona do próprio nariz, com liberdade pra fazer comida do seu jeito.

Conceição Discos

O pequeno salão consiste em um balcão e umas poucas mesas. No cardápio, não há muito. Queijo quente (em algumas variações), pão de queijo recheado com pernil, tortas salgadas e uma pequena seleção de sobremesas, além de um prato do dia (oferecido a inacreditáveis R$20,00) e um bolo do dia. O suficiente pra me revelar que os amigos não mentiam ao dizer que a moça é cozinheira de mão cheia.

Experimentamos o incontornável pão de queijo com pernil e seguimos com o prato do dia, um farto arroz de língua.

Conceição Discos

Conceição Discos

Úmido, extremamente saboroso, era temperado com precisão e equilíbrio. Pelo que ouvi por aí, seu arroz de suã e o de rabada são igualmente elogiáveis. O tipo de prato que se basta, não precisa de antes e depois. Mas como o depois eram as famosas sobremesas de Talitha, o bom senso mandava ir em frente. Éramos quatro, então, compartilhamos as três opções do cardápio e uma fatia do bolo do dia, de banana.

O pudim de leite, considerado por muitos o melhor da cidade, era, de fato, delicioso. Um veludo, sem um único furinho – o que o enquadra na minha classificação de pudim ideal.

Conceição Discos

A torta de limão, outra beleza. Boa massa, ótimo merengue, creme de limão com bem-vinda acidez e açúcar na medida. O gostoso brownie compartilhava o equilíbrio na doçura. O mesmo se diga do bolo de banana, macio, com marcante sabor da fruta.

Conceição Discos

Pra acompanhar o café, paçoca feita na casa, algo salgada, uma delícia.

Conceição Discos

A tarde que passei ali podia ter sido apenas uma prazerosa visita ao novo café, mas acabou se revelando um desses momentos em que a música, a comida e a companhia são tão boas que a gente quase acredita que pode ser assim pra sempre.

 

Conceição Discos – Rua Imaculada Conceição 151 – Vila Buarque

https://www.facebook.com/conceicaodiscos

Segunda, 21 Abril 2014

Você já foi ao Paraíso Tropical? Não? Então, vá.

Paraíso Tropical

A cada vez que revisito o Paraíso Tropical, em Salvador, me vem à lembrança a tarde em que estive ali pela primeira vez. Faz cinco anos e ainda me recordo de cada detalhe como se houvesse sido ontem. É raro uma refeição carimbar a memória desse jeito. Mas nada é mesmo comum ou vulgar na casa de Beto Pimentel. De lá pra cá, estive no restaurante mais um par de vezes. Sempre me despeço com o firme propósito de voltar.

Trata-se de um lugar que encarna como poucos no Brasil o conceito de cozinha de produto. Mais do que trabalhar com matéria-prima de qualidade superior, Beto estabelece um diálogo com um repertório de ingredientes pouco utilizados. Muitos deles são plantados pelo próprio chef, que é também agrônomo. Coisa que pouca gente conhece ele planta, colhe e nos faz descobrir em seus pratos. Pôs biribiri no molho de pimenta, maturi e fruto do dendê em suas moquecas. Deu fama ao licuri.

Paraíso Tropical

Paraíso Tropical

Sua cozinha de ingredientes vai muito além do discurso, diz respeito a uma filosofia de vida. Basta olhar ao redor. Na calçada do restaurante, tem cacaueiro e pitangueira, onde passeiam micos sempre prontos à exibição no horário de almoço. No terreno anexo à casa, ele mantém horta e pomar e cria galinhas. A uns tantos quilômetros dali, tem uma fazenda onde produz muito do que usa. O resultado disso se vê nas mesas de seu restaurante.

Paraíso Tropical

Paraíso Tropical

Como de costume, recorri aos bocados que me levam sempre de volta àquele endereço, admitindo uma ou outra variação. Os deliciosos sucos de frutas. Uma porção de pititinga frita. Farofa feita na manteiga, com uma farinha excepcional, que chega de Nazaré das Farinhas, se não me engano. Os ótimos molhos de pimenta. A soberba mandioca com manteiga de garrafa. As moquecas, que, como já disse aqui antes, são muito particulares, diferentes de todas as outras que você possa ter provado. Conheço baiano que nem admite que se chame de moqueca o que Beto faz. O nome pouco me importa se são as melhores de que tenho notícia.

Paraíso Tropical

Paraíso Tropical

Paraíso Tropical

Paraíso Tropical

Paraíso Tropical

Paraíso Tropical

Depois de tantas linhas já dedicadas à cozinha de Beto Pimentel nesse blog, só me resta uma coisa a dizer: se você ainda não foi ao Paraíso Tropical, então, vá. Lá não tem caruru, lá não tem mungunzá. Mas tem cozinha baiana de um jeito que nenhum outro lugar tem.

 

Paraíso Tropical – Rua Edgar Loureiro, 98-B, Resgate - Cabula - Salvador

www.restauranteparaisotropical.com.br

 

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