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Quarta, 22 Outubro 2014

De volta ao Bar da Dona Onça

Bar da Dona Onça

São muitos os motivos que me levam de volta ao Dona Onça. Antes de tudo, o lugar em si. Instalado no térreo do icônico edifício Copan, o bar da chef Janaína Rueda é um manifesto de celebração do centro de São Paulo. No salão, certa elegância de bar antigo se mistura à tremenda irreverência que é marca registrada de sua dona, o que se traduz num ambiente único. Ainda que fosse só pelo lugar, eu voltaria sempre. Mesmo que a ementa fosse desinteressante ou que a comida fosse má. Felizmente, não é o caso.

Bar da Dona Onça

Bar da Dona Onça

O jeito de comer à brasileira é fio condutor de um cardápio de fôlego, que vai dos excelentes petiscos aos arrozes, dos PFs às sopas, passando por uma seleção de massas e culminando num extenso rol de pratos de carne, onde há desde frango com quiabo até dobradinha. Me pergunto se a cozinha transita por todos esses caminhos com igual desenvoltura. Não estive lá tantas vezes a ponto de ter a resposta. O fato é que, nas visitas que fiz ao longo dos últimos anos, jamais testemunhei deslizes – talvez alguma inconsistência nas sobremesas, que me parecem um tom abaixo da cozinha salgada.  Há pouco mais de um mês, durante uma semana a trabalho no centro da cidade, a fome me levou ao bar duas vezes. Fui feliz em ambas.

Gosto particularmente dos petiscos e pratos que homenageiam a comida mais caseira. Coisas que não encontramos tão facilmente em restaurantes, como couve-flor à milanesa e bolinhos de espinafre – é preciso falar dos bolinhos de espinafre do Dona Onça, extremamente delicados e saborosos. Um tipo de comida muito presente na mesa da minha mãe e que, portanto, é sempre um conforto reencontrar.

Bar da Dona Onça

Bar da Dona Onça

Os croquetes de carne de panela, muito gostosos, são também merecedores de todas as loas.

Bar da Dona Onça

O prazer particular que me trouxeram os bolinhos de espinafre repetiu-se com o arroz de fígado acebolado. Ali, a lembrança foi ainda mais longe e me levou às iscas de fígado da infância na casa da avó. Na versão de Janaína, elas chegam cheias de sabor, num molho intenso que umedece o arroz. As cebolas ora surgem crocantes, ora caramelizadas. Um belo ovo frito deixa o prato ainda melhor.

Bar da Dona Onça

Filhos de outras mães, netos de outras avós talvez não vislumbrem naquele repertório tantos significados, mas apenas a oportunidade de uma ótima refeição. Pra mim, é mais que isso. É a possibilidade de encontrar na comida a tão fundamental conexão com a memória.

 

Bar da Dona Onça – Avenida Ipiranga, 200 - Edifício Copan, lojas 27 e 29 – Centro –São Paulo.

http://bardadonaonca.com.br/

Segunda, 13 Outubro 2014

Casa Mathilde: pra ver a cidade

Casa Mathilde São Paulo

Fazia tempo que eu queria visitar a Casa Mathilde, doçaria portuguesa inaugurada no centro velho de São Paulo no ano passado. O desejo era alimentado por meu apreço pelos doces portugueses, mas também pelo fato de estar a loja numa região que há muito eu tinha vontade de conhecer.  Sou fascinada por centros antigos de cidades grandes. Mesmo quando decadentes, costumam guardar uma elegância que quase sempre se perde no crescimento desenfreado das selvas de concreto. Em São Paulo não é diferente.

A praça onde está instalada a confeitaria é pura poesia urbana. O relógio, as bancas à moda antiga, o soberbo edifício Martinelli, tudo isso está ao alcance dos olhos de quem se acomoda numa das mesas do segundo andar, diante de suas paredes envidraçadas. Foi exatamente onde me acomodei.

Casa Mathilde São Paulo

Casa Mathilde São Paulo

Casa Mathilde São Paulo

Com os olhos colados na janela, imaginando como teria sido aquele lugar décadas atrás, volta e meia eu me permitia desviar a atenção em direção ao cardápio. A cada pedido, ia percebendo que nem tudo o que sai dos fornos da casa é igualmente bom – impressão que uma breve espiada em suas vitrines já me havia antecipado. As empadas, por exemplo, não me entusiasmaram. Nem poderiam, afinal, chegaram frias à mesa. O jesuíta (que tinha a massa folhada um tanto murcha, recheada com inexpressivo creme de ovos) não revelava a mesma delicadeza dos doces que eu experimentaria a seguir e também na visita seguinte – aproveitando que passava a semana no centro da cidade, reincidi dois dias depois.

O recheio dos pastéis de nata não me pareceu semelhante ao dos autênticos pastéis de Belém. Ainda assim, estavam frescos (massa sequinha e crocante) e muito gostosos nas duas visitas. Quentinhos, logo que saem do forno, são um alento pra quem tem um oceano a vencer se quiser ir ao encontro dos originais.

Casa Mathilde

Casa Mathilde

O pastel de Santa Clara tinha massa delicada e ótimo recheio.

Casa Mathilde

As queijadas da Mathilde, de interior úmido sob a crosta dourada, eram deliciosas. Não resisti, pedi mais um par delas pra viagem.

Casa Mathilde

Casa Mathilde

Eu diria que o tesouro da Casa Mathilde não está tanto em suas vitrines de doces como no fato de seu salão revelar-se um privilegiado observatório da cidade. Mas, convenhamos, umas queijadas e uns pastéis de nata recém-saídos do forno só podem deixar melhor o exercício de contemplação.

 

Casa Mathilde - Praça Antonio Prado 76 – Centro – São Paulo

www.casamathilde.com.br

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