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Segunda, 16 Março 2015

Taberna da Esquina: o gosto da memória

Taberna da Esquina

A nova casa de Vitor Sobral em São Paulo inspira-se na informalidade e nos sabores francos das tascas portuguesas – permitindo-se o chef, aqui e ali, algumas licenças poéticas. Há um pequeno rol de pratos mais substanciosos, mas a essência do cardápio se desenrola em torno de conservas, petiscos e pequenas entradas. Comida pra ser compartilhada, esse é o espírito da coisa.

Durante meu jantar ali, nos momentos em que tirei a atenção da mesa e a depositei no entorno, houve certo estranhamento. Talvez porque eu procurasse no ambiente algo do calor, do acolhimento das tascas. Mas, se já não deve ser fácil replicar a proposta da cozinha, como esperar que se reproduza o impalpável? E, afinal, que culpa tem o chef de não estarmos em Lisboa, mas no Itaim? De sua parte, garante o que lhe cabe garantir: a viagem acontece no prato.

Taberna da Esquina

Começamos pela seleção de conservas. Sardinhas contracenando com cebolas cruas, tomate e pedaços de pão grelhado. Bacalhau na providencial companhia do grão de bico, além de cebolas, vinagrete de sardinha e gema de ovo ralada. Deliciosas, ambas as porções.

Taberna da Esquina

Taberna da Esquina

Seguimos com as pataniscas de bacalhau com legumes, acompanhadas de creme de feijão frade. Podiam estar mais sequinhas, mas eram muito saborosas.

Taberna da Esquina

Não deixaria a casa sem experimentar a alheira, que figura entre minhas predileções, ali servida com cenouras e impecáveis quiabos grelhados. Meu caderno de anotações me assegura ter sido esse o melhor prato da noite.

Taberna da Esquina

Confesso, porém, que em meu registro íntimo o que ficou carimbado foram os rissoles de bacalhau com camarão. Dizer que a fritura era perfeita, que a massa era leve e que o sutil recheio podia ter mais sabor atenderia ao compromisso com a objetividade que se espera daqueles que escrevem sobre restaurantes. Como não pretendo fingir que minhas experiências à mesa sejam destituídas de subjetividade, devo admitir que o mais importante a respeito daqueles bocados foi o fato de terem me levado de volta a Lisboa. Mais precisamente, a junho de 2007, quando minha saudosa tia Alice, lisboeta e cozinheira de mão cheia, me apresentou seus inigualáveis rissoles.

Taberna da Esquina

Os da Taberna da Esquina não rivalizam com aqueles feitos pela tia, que minha memória tratou de eternizar. Mas, de algum modo, me levaram a revisitá-los e, assim, atenuar a saudade. Que bem maior pode um prato de comida fazer a alguém – depois, evidentemente, de saciar-lhe a fome?

 

Taberna da Esquina – rua Bandeira Paulista 812 – Itaim – São Paulo

 

Sexta, 16 Janeiro 2015

Aldeia Beijupirá, na Praia do Laje: só penso em voltar

Praia do Laje

Sou bicho urbano. Meu bem-estar físico e mental depende da existência de cinemas, supermercados, livrarias e restaurantes num raio de cinco quilômetros de onde eu me encontre. Como ninguém é uma coisa só, parte de mim entra em conflito com essa excessiva dependência da urbe e suplica por hiatos de silêncio e contemplação. Tento não contestar quando essa urgência se manifesta. Mas tais intervalos não costumam durar mais do que um fim de semana. Isso explica por que o segundo pensamento que me ocorreu ao chegar à Praia do Laje (depois de: “meu Deus, que lugar!”) foi: “o que é que eu vou fazer aqui durante quatro dias?”. Não demoraria muito pra que aquela preocupação fosse solapada por outra: encontrar uma forma indolor de me despedir.

Aldeia Beijupirá

A praia é uma das mais bonitas do litoral alagoano. Não bastasse isso,  há o fato de permanecer quase deserta durante a maior parte do ano. Nesse cenário, a pernambucana Adriana Didier e o português Joaquim Santos ergueram a Aldeia Beijupirá com simplicidade e bom gosto, uma construção que não se sobrepõe à paisagem, mas dialoga com ela. Tudo é permeado por tremenda brasilidade e cada detalhe, desde a música até o impecável serviço (agradecimento especial a um sorriso chamado Letícia), é pensado pra oferecer ao hóspede uma experiência única.

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Embora eu tivesse um carro à minha disposição, faltou-me motivação pra ir conhecer praias vizinhas. Por que sair de um lugar onde a felicidade era certa e me arriscar em direção a outras paragens? Meus dias eram assim: acordava, tomava café, caminhava, dava um mergulho, nadava, lia, tirava um cochilo na rede, lia mais um pouco. Nessa toada, acabei fazendo praticamente todas as refeições na pousada. Confesso que os pratos mais substanciosos e, digamos, mais inventivos, não me entusiasmaram. Fui mais feliz com os petiscos, companhia providencial em uma das atividades a que mais me dediquei durante a temporada: observar o mar. Coisas como pastéis de camarão, agulha frita, ensopadinho de aratu, nacos de macaxeira.

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Mas a refeição mais esperada era a primeira do dia, que me fazia deixar a cama sem protelação, coisa rara. No delicioso café da manhã, eu apontaria um único senão: o fato de não haver mais frutas locais na seleção diária. Houve, no entanto, muitas e grandíssimas compensações: ovo no pão, queijo de coalho na chapa, extraordinários pães de queijo (dos melhores que comi no Brasil), tapioca, bolo, panquecas e geleias. Entre os pequenos mimos que mudavam diariamente, as bananas douradas com açúcar e canela e os bolinhos de estudante mereciam lugar definitivo no cardápio.

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

Aldeia Beijupirá

O bicho urbano sobreviveu à experiência, mas saiu dali com suas convicções seriamente abaladas.

 

Aldeia Beijupirá - www.aldeiabeijupira.com.br/

 

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