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Terça, 24 Maio 2016

Amazonas à mesa: Manaus e Novo Airão

Novo Airão

A véspera do voo havia sido um dia tristíssimo. Pensei em não embarcar, mas desmarcar a viagem daria mais trabalho do que ir em frente e cumprir o planejado. Cheguei ao Amazonas sem fome, sem desejo. Pra minha surpresa, ambos seriam restaurados antes do que eu poderia supor.

A exuberância da natureza e da cultura naquela região relativiza até a dor. Exuberância que os restaurantes locais traduzem com simplicidade. Sorte minha, pois a alma combalida não resistiria a pompa e protocolo à mesa naqueles dias. Na riqueza da cozinha generosa, descomplicada e cheia de sabor, a fome encontraria o caminho de volta.

Foi assim com o farto desjejum dos típicos cafés regionais. Há muitos deles em Manaus e escolhi o CAFÉ REGIONAL NAÍZA apenas por ser o mais próximo ao hotel onde me hospedei durante a rápida passagem pela cidade.

Café regional Manaus

Matamos a sede com sucos de graviola e cupuaçu, enquanto esperávamos pela tapioca de queijo coalho, das melhores que já comi. Só isso valeria por um almoço, mas eu não podia sair sem experimentar o pé de moleque, que ali se trata de uma deliciosa receita de massa puba com castanha, assada em folha de bananeira.     Café regional Manaus

Café regional Manaus

Café regional Manaus

Café regional Manaus

Café regional Manaus

Conforto igual eu encontraria nas muitas refeições que teriam nos peixes e na farinha de mandioca seus grandes protagonistas.

Em Manaus, destaco duas delas. No TAMBAQUI DE BANDA, ao lado do belo Teatro Amazonas, a incontornável banda de tambaqui na brasa foi servida com baião de dois, vinagrete e farofa – ainda pedi à parte uma porção de farinha do Uarini, que eu não sou de ferro.

Tambaqui de Banda

Tambaqui de Banda

No BANZEIRO, casa do chef Felipe Schaedler, houve um inesquecível matrinxã assado, recheado com farinha do Uarini, também acompanhado de baião de dois, vinagrete e ótima farofa, além de uma atordoante porção de banana pacovã frita. 

Restaurante Banzeiro

Restaurante Banzeiro

Restaurante Banzeiro

Já em Novo Airão, no restaurante flutuante FLOR DO LUAR, a costela de tambaqui e o escabeche de tucunaré – na invariável companhia de farofa, vinagrete, baião e banana pacovã – tinham como bônus um cenário único. Não bastasse o prazer de almoçar dentro do rio Negro, fomos presenteados com um inesperado banho de chuva, desses capazes de lavar o que há de mais recôndito em nós.

Restaurante Flutuante Flor do Luar

Restaurante Flutuante Flor do Luar

Restaurante Flutuante Flor do Luar

Restaurante Flutuante Flor do Luar

Restaurante Flutuante Flor do Luar

Rememoro aqueles dias e me pego pensando nas palavras do personagem Tadeus no livro Requiem - uma alucinação, de Antonio Tabucchi: “Todos os medicamentos para a alma são uma porcaria, disse o Tadeus, a alma cura-se com a barriga.”

 

Café Regional Naíza – Avenida Tancredo Neves 220 - Manaus

Tambaqui de Banda – Largo de São Sebastião (próximo ao Teatro Amazonas) - Manaus

www.tambaquidebanda.com.br

Banzeiro – Rua Libertador 102 – Manaus

www.restaurantebanzeiro.com.br

Flor do Luar - Rua Presidente Getúlio Vargas s/n (píer em frente à Galeria Jirau) – Novo Airão

Terça, 22 Março 2016

Mirante do Gavião, em Novo Airão: meu pouso na Amazônia

Mirante do Gavião

Não costumo falar sobre hotéis aqui. É tarefa que deixo pra jornalistas de turismo e especialistas nesta área porque evidentemente têm condições de cumpri-la segundo método e critério que eu jamais alcançaria.

Eventualmente me permito esboçar algumas linhas a respeito do assunto, apenas quando se trate de lugares que, mais do que cama e banho, me proporcionem uma experiência que mereça ser compartilhada, sobretudo se a proposta gastronômica trafegar acima da média da hotelaria nacional – afinal, é de comida que trata este blog. Por essa razão (e também a pedido de muitos leitores), decidi compartilhar minha estadia no Mirante do Gavião, na Amazônia, onde estive no mês passado.

O LUGAR

Mirante do Gavião

O pequeno hotel está localizado em Novo Airão, debruçado sobre o Rio Negro, próximo ao arquipélago de Anavilhanas. Apesar de não estar dentro da selva, o fato de ter apenas sete suítes me fez crer que haveria garantia de silêncio e isolamento – exatamente o que eu buscava ao fugir do carnaval carioca. Me enganei.

Nos inesquecíveis momentos que passei a bordo dos barcos do Mirante do Gavião, a navegar pelas águas do Negro, encontrei a quietude idealizada. Dentro do hotel, jamais. 

Amadorismo de minha parte ignorar o possível entusiasmo dos vizinhos de vilarejo durante o feriado. Se o mais próximo deles resolve expressar sua alegria ouvindo música ruim no mais elevado volume, do raiar do dia ao anoitecer, você será submetido a isso e não há nada a fazer. 

Mas a administração do estabelecimento tem lá sua dose de responsabilidade. Na área ocupada por restaurante e piscina, há trilha sonora durante grande parte do tempo e a seleção musical não me pareceu muito superior à do vizinho. É a síndrome da música ambiente, de que não se escapa nem no recolhimento da floresta.  

Não bastasse isso, a questionável política de day use  praticada pela casa foi golpe mortal no sossego que eu buscava, já que pode aumentar consideravelmente a  quantidade de pessoas transitando nas diminutas instalações.

Frustrada a fantasia de silêncio e contemplação, o que me restava era voltar a atenção ao que tinham de bom a oferecer. Não era pouco. 

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

A integração com o entorno e o bom gosto com que se conduziu o projeto são indiscutíveis e se revelam em todos os detalhes: na madeira de reflorestamento usada na belíssima construção; na vegetação que emoldura a propriedade; na escolha do mobiliário, que põe em evidência o artesanato local, especialmente o trabalho de marchetaria realizado por moradores da comunidade na Fundação Almerinda Malaquias.

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Devo dizer ainda que, se a opção por um ambiente mais discreto e de menores proporções não me rendeu isolamento, trouxe o benefício de lidar com uma equipe extremamente  acessível, sempre gentil e disposta a atender aos pedidos dos poucos hóspedes.

 

A PROGRAMAÇÃO

Amazônia

Pela breve comparação que fiz nas pesquisas que antecederam minha reserva, aparentemente não há grandes diferenças nas programações apresentadas pelos hotéis de selva naquela parte da Amazônia: visitas a comunidades ribeirinhas, trilhas leves na floresta, passeios por igapós ou praias de rio (dependendo da estação), focagem noturna da fauna etc. Programas que não vão além de um contato superficial com a natureza e a cultura do local, sem mergulhos mais profundos. Mas, ao fim e ao cabo, não há como ser pouco, já que se está em uma região onde tudo é naturalmente superlativo.

Amazônia

Saídas de barco com diferentes destinos e em diferentes horários – ao nascer do sol, durante o dia ou noite adentro – garantiam a dose diária de assombro diante da exuberância daquele cenário onde rio e mata atravessam quilômetros em inexorável comunhão.

Novo Airão

 

A COMIDA

Mirante do Gavião

Espero que os leitores não tenham desistido deste post no meio do caminho, antes de chegar ao que talvez mais lhes interesse: o que se come no Mirante do Gavião?

Embora as refeições estejam incluídas na diária, a casa não se rende ao serviço de bufê, que seria o caminho mais óbvio. Dá-se ao hóspede a prerrogativa de escolher o que comer a partir de um enxuto cardápio, que oferece boa variedade de peixes. 

Mirante do Gavião

A responsável pela concepção é a chef Debora Shornik (do restaurante paulistano Caxiri), que está de mudança de São Paulo pra Manaus. Mas quem se encarrega de comandar os fogões no dia a dia é a simpática Orlane, que me autorizou uma visita à cozinha (das mais limpas e organizadas em que já estive) e apresentou sua equipe. Responderam com honestidade a todas as minhas perguntas, o que me permitiu saber que não trabalham somente com pescadores locais, como se poderia imaginar, mas recebem muitos pescados trazidos de Manaus, que são então congelados – o que me faz supor que o problema da logística de fornecimento na pesca artesanal não se restrinja às grandes cidades.

Reincidi muitas vezes no prato mais simples da ementa, "Trivial Caboclo": peixe grelhado, baião, farofa de tucumã e vinagrete. A variação ficava por conta da escolha entre pirarucu, filhote, surubim ou tucunaré. Comida sem grandes atributos, mas benfeita.

Mirante do Gavião

Os melhores momentos à mesa se deveram ao delicioso café da manhã: pães produzidos diariamente, tapioca feita na hora, mingau, banana pacovã frita ou cozida, batata doce, sucos de fruta (maracujá, taperebá, graviola) bolos, geleias e uma compota de cupuaçu que não me sai da cabeça.

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Também entre os funcionários da cozinha, só encontrei pessoas amigáveis e disponíveis. Pedi que me trouxessem tucumã, pois gostaria de ver a fruta in natura. Trouxeram. No dia seguinte, curiosa sobre a azeitona, que ali nada tem a ver com o fruto da oliveira (mais parece jamelão), indaguei se dela faziam suco. Disseram que não tinham o hábito, que gostam mesmo é de comer com sal, mas se dispuseram a fazer pra que eu experimentasse. Na véspera de partir, não escondi meu desejo de comer tambaqui, que não havia no cardápio naquela semana. Pois arrumaram no dia seguinte e prepararam na brasa em meu almoço de despedida.

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Eis a última impressão que levei de minha hospedagem em Novo Airão: a entrega de uma gente sempre disposta a dar a melhor resposta a quem ouse perguntar.

 

Mirante do Gavião – Rua Francisco Cardoso, s/n –  Bairro Nsa Sra Auxiliadora, Novo Airão – Amazonas

www.mirantedogaviao.com.br

 

 

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