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Segunda, 15 Outubro 2012

Remanso do Bosque: endereço obrigatório em Belém

Remanso do Bosque Belém

Já comentei neste post aqui e também neste outro o que penso do trabalho que vêm fazendo os irmãos Castanho pela cozinha paraense. Abordam o receituário regional sob uma perspectiva atual, traduzindo seus sabores com leveza e sofisticação técnica, sem vilipendiar o legado da tradição. Mas vou poupá-los de repetir tudo o que já disse sobre o talento da dupla. E se volto a falar em Thiago e Felipe Castanho é porque, finalmente, fui conhecer sua nova casa, o Remanso do Bosque, inaugurado em dezembro passado em Belém. O novo restaurante da família mantém o foco na cozinha regional, ainda que com uma linguagem mais moderna. O olhar mais autoral é reservado ao menu degustação, que entra em cena todas as noites.

Devo confessar que o ambiente não me agradou muito. Me pareceu sem personalidade e autenticidade, sem conexão com o conceito da cozinha. Fora isso, meu primeiro susto ao entrar foi o tamanho do restaurante, que tem capacidade para 150 pessoas. Me pergunto como fazem para, numa noite de casa lotada, dar conta do menu degustação, que é ourivesaria... Sorte minha ter estado lá numa noite tranquila.

Remanso do Bosque Belém  Remanso do Bosque Belém

O desconforto com a estampa do salão durou apenas o tempo de a comida começar a chegar à mesa. Porque naquilo que de fato importa, a dupla não deixa espaço pra questionamentos. Sabem muito bem o que fazem. Me impressionam pela maturidade que demonstram na cozinha, apesar da pouca idade – Thiago tem apenas 24 anos e o irmão, Felipe, 22. Estive lá em duas ocasiões num mesmo fim de semana. Comi bem no almoço e ainda melhor no jantar da noite anterior. Gostei demais do menu degustação, que, pra mim, revela o melhor do trabalho dos dois. Mas vamos por partes.

No almoço, começamos com deliciosos beijus assados com manteiga e parmesão.

Remanso do Bosque

Seguimos com o tenro lombo de robalo em caldo de tucupi, carimã e jambu, acompanhado de arroz de ervas do Pará. Ainda mais gostoso estava o tambaqui, com salada de feijão caupi (que chamamos feijão-fradinho no Rio de Janeiro), macaxeira na manteiga e farofa.

Remanso do Bosque

Remanso do Bosque

Encerramos com um belo naco de queijo do Marajó gratinado, acompanhado de compotas de bacuri e cupuaçu e, ainda, goiabada – todas ótimas. Não resistimos ao bolinho de tapioca assado, com doce de leite quente e sorvete da tapioca da sorveteria Cairu. O desfecho não poderia ser melhor.

Remanso do Bosque  Remanso do Bosque

Mas, como dizia, a meu ver, o menu degustação revela o melhor do Remanso do Bosque. Na sequência de pratos ali proposta, evidencia-se a atualidade e o refinamento do olhar que a dupla dispensa à cozinha paraense. Nessa minha visita, além dos oito cursos do menu, Thiago me apresentou alguns pratos ainda em teste.

Abrindo a noite, o incontornável beiju, aqui acompanhado de manteiga Real defumada, uma delícia.

Remanso do Bosque Belém

Depois do beiju, a delicadeza da mojica de aviú (caldo de peixe, tomate, cebola, ervas, flor de jambu e os micro camarões do Pará), seguida de soberbo cuscuz de farinha d’água com camarões secos e azeite de coco. Não restou um grão no prato.

Remanso do Bosque

Remanso do Bosque

O falso risotto de ariá, com lascas de ariá frito e farinha de castanha do Pará, me apresentou ingrediente pouco familiar ao meu paladar, num prato surpreendente e extremamente saboroso. 

Remanso do Bosque

Na sequência, um dos melhores pratos da noite: filhote na brasa em caldo de tucupi, carimã e jambu. Impecável a execução do peixe, que é um dos meus favoritos. Concentrado e saboroso o caldo de tucupi.

Remanso do Bosque Belém

Eis então o que, pra mim, foi o melhor prato da noite. Pirarucu defumado, molho de urucum, banana e farofa de castanha do Pará. Prato que já tinha me marcado num jantar da dupla no Dalva & Dito em julho e que, agora, me pareceu ainda melhor.

Remanso do Bosque

Já o cordeiro com molho de açaí e (sensacional) farofa de açaí não me entusiasmou tanto quanto a versão do prato que eu havia experimentado no tal jantar em São Paulo, que trazia rabada no lugar do cordeiro...

Remanso do Bosque

 O último ato se desdobrou em três deliciosas sobremesas. O frescor do bacuri com baunilha amazônica, café, melaço e tapioca caramelizada. Depois, caju, espuma de taperebá e farofa de castanha do Pará. Por fim, uma sobremesa que encarna o conceito de terroir: sorvete de açaí, filetes de palmito pupunha, chocolate 100% cacau da Ilha do Combu e terra de cacau. Só não me agradou o chocolate, cuja textura achei um tanto estranha, mas gostei do conjunto da obra. No mais, o sorvete de açaí da Cairu, excepcional, roubou a cena.

Remanso do Bosque  Remanso do Bosque

Remanso do Bosque

O menu degustação do Remanso do Bosque não me deixou dúvida quanto à sutileza que os Castanho coferem à cozinha de sua terra, sem, no entanto, mascarar seus sabores. Saí com a certeza de estar diante de um dos trabalhos mais relevantes no cenário atual da gastronomia brasileira.

 

Remanso do Bosque – Travessa Perebebuí 2.350 (com Av. Rômulo Maiorana)- Marco - Belém
http://www.restauranteremanso.com.br/

Quarta, 10 Outubro 2012

De volta a Belém

Belém Pará

Há duas coisas sem as quais não sinto que estou em Belém: uma visita ao Ver-o-Peso e o primeiro sorvete de açaí na sorveteria Cairu, de preferência, na filial da Estação das Docas.

Como já disse aqui antes, num primeiro momento, o Ver-o-Peso pode causar espanto pela sujeira e pelo descuido. Mas mais espanto causa pelas maravilhas que há ali. Não é difícil entender o porquê de, apesar de toda a desordem, chefs brasileiros e estrangeiros se encantarem com aquele lugar. Há algo muito brasileiro naquilo tudo, no pior e no melhor sentido. Desde a bagunça que impera até a natureza de beleza acachapante que emoldura o mercado, passando pela arquitetura do entorno e pelo jeito da gente que trabalha ali. Se tenho razão não sei, mas não concebo Belém sem aquele mercado.

Belém Ver-o-Peso

Belém Ver-o-Peso

Belém Ver-o-Peso

Aproveito pra fazer meu estoque de farinha, paro pra beber um suco de frente pro rio – lamentavelmente, quase sempre de polpas congeladas – e tento aprender os nomes de mais algumas frutas que não conheça. Dessa vez, descobri ingá, buriti e bacaba na famosa banca da dona Carmelita, onde já havia estado ano passado.

Belém Ver-o-Peso

Belém Ver-o-Peso

Belém Ver-o-Peso

Belém Ver-o-Peso

Belém Ver-o-Peso

A sorveteria Cairu, fabricante dos mais deliciosos sorvetes de frutas do país, é outro programa fundamental na minha chegada. Sigo um ritual. O primeiro e o último sorvete da viagem – e há sempre muitos deles, ainda que a viagem seja curta –, hão de ser de açaí (puro ou com farinha de tapioca). Entre um e outro, sigo provando novos sabores e revisitando alguns já familiares. Tapioca, castanha do Pará e bacuri são obrigatórios. Entre os ainda desconhecidos, me aventurei agora pelo de bacaba, cujo gosto me fez lembrar castanhas portuguesas...

Belém Estação das Docas

Sorveteria Cairu

Sorveteria Cairu  Sorveteria Cairu

Sorveteria Cairu  Sorveteria Cairu

São duas facetas de Belém que eu não dispenso. Enquanto não faço uma coisa ou outra, é como se não estivesse lá.

 

Mercado Ver-o-Peso – Boluverd Castilhos França S/N

Sorveteria Cairu - Boulevard Castilhos França, 707 - Estação das Docas. Outros endereços no site: http://www.sorveteriacairu.com.br/

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