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Quarta, 08 Novembro 2017

De São Bartolomeu a Belo Horizonte: Minas Gerais, antídoto contra a superficialidade

Costumeiramente sou alvo de críticas quando comento que, de uns anos pra cá, já não tenho suportado longuíssimos e intricados menus degustação. Aceito e até compreendo as críticas, mas não posso evitar o sentimento que me arrebata ao fim de boa parte destas refeições (ressalvadas algumas honrosas exceções): tantas horas, tantos pratos, tanta solenidade, tanta autorreferência, pra quê? Depurar em busca do essencial me parece premissa importante demais pra ser esquecida.

Meu remédio contra os excessos na cena gastronômica tem sido invariavelmente o mesmo: Minas Gerais. Quando é grande minha fome de simplicidade, quando comer profissionalmente começa a se tornar chato e artificial, é hora de ir a Minas.

Drummond definiu como ninguém essa simplicidade que parece estar no DNA da cozinha mineira:

  “Certos espíritos dificilmente admitem que uma coisa simples possa ser bela, e menos ainda que uma coisa bela é, necessariamente, simples, em nada comprometendo a sua simplicidade as operações complexas que foram necessárias para realizá-la. Ignoram que a coisa bela é simples por depuração, e não originariamente; que foi preciso eliminar todo elemento de brilho e sedução formal (coisa espetacular), como todo resíduo sentimental (coisa comovedora), para que somente o essencial permanecesse.”

Passar uns dias na terra do poeta sempre funciona bem como antídoto contra a afetação e a superficialidade reinantes. Volto de fôlego renovado. Na última visita não foi diferente.

No quintal de Dona Serma, famosa doceira na miúda São Bartolomeu, testemunhei verdadeira lição de depuração. Sob o impiedoso bafo do tacho, ela e dona Doquinha se alternam por horas e horas no manejo da pá, até que dezenas de litros de leite se transformem num bocado de doce, cujo ponto é definido unicamente pela precisão dos sentidos daquelas mulheres. Um doce que guarda a beleza do simples, embora sua execução nada tenha de fácil.

De São Bartolomeu, segui viagem pra Belo Horizonte, onde a moderna cozinha do Trindade, um dos meus restaurantes preferidos na capital mineira, me garantiu mais uma vez uma grande refeição, e um prazer em nada menor do que aquele que senti no quintal de dona Serma.

A porção de gyozas com que se iniciou meu almoço (delicada massa e delicioso recheio de galinha caipira e pé de porco) já teria justificado a ida até a casa de Fred Trindade. Pois houve mais: lombinho em perfeita cocção – um oceano de distância dos maltratados e ressecados cortes com que tantas vezes nos deparamos em endereços menos cuidadosos. O acompanhamento, não menos impecável que a carne, era apenas uma pequena marmita de tropeiro de feijão andu, coroado por um ovo – “apenas” aqui não é depreciação, mas enaltecimento. A economia na escolha dos elementos é permissão pra que cada um deles brilhe em sua essência.

Restaurante Trindade

Restaurante Trindade

Trindade Belo Horizonte

Trindade Belo Horizonte

Seja nos quintais do interior ou no cosmopolitismo da urbe, venha do olhar de jovens cozinheiros ou das mãos de doceiras septuagenárias, sensibilidade, apuro e profundidade não dependem de CEP ou idade. Podem se manifestar a qualquer tempo e em qualquer lugar.

 

 

Doces da Dona Serma – à venda na loja Doces Edu Tijolo, em São Bartolomeu

Restaurante Trindade – Rua Alvarenga Peixoto 388 – Lourdes – Belo Horizonte

http://www.trindadebrasil.com.br/

Segunda, 29 Julho 2013

Restaurante Trindade, em Belo Horizonte

Trindade Belo Horizonte

Expoente de uma nova geração da gastronomia mineira, o restaurante Trindade extrapola as fronteiras da região em que se encontra. Em seus fogões, comandados por Felipe Rameh e Frederico Trindade, encontram-se muitos Brasis.

Desde a estética do salão até a concepção do cardápio, pareceu-me haver inspiração no conceito adotado por Alex Atala em seu Dalva e Dito, propondo-se um percurso por diferentes vertentes da cozinha brasileira, da moqueca à feijoada, da herança portuguesa aos clássicos de bar, tudo pontuado por memória e afetividade.

Não posso assegurar que a cozinha trafegue por todos os sotaques com a mesma desenvoltura, pois me concentrei no que havia de mais mineiro no cardápio – em Roma, como os romanos. O que posso garantir é que meu almoço ali foi uma das melhores refeições que fiz em Belo Horizonte nos últimos anos.

Os bolinhos de canjiquinha com costelinha estavam bons, embora um pouco secos – talvez pequenos demais pra permitir um bom equilíbrio entre massa e recheio. Muito melhores eram os pastéis de angu recheados com carne. Pastéis de angu estão entre as coisas que jamais consigo evitar se encontro num cardápio. São uma preferência minha e devo dizer que os do Trindade estão entre os melhores que já experimentei: fritura sequinha, massa cremosa, ótimo recheio.

Trindade Belo Horizonte

Trindade Belo Horizonte

Não pude resistir ao clássico frango com quiabo, que, ali, é tratado com rara delicadeza. Tulipinhas de frango – fritas e, depois, cozidas em caldo de frango – contracenavam com quiabos crocantes. Um cremoso angu de milho verde deixava tudo ainda melhor.

Restaurante Trindade Belo Horizonte

Restaurante Trindade Belo Horizonte

Do lado de lá da mesa, um impecável jarret de porco, carne macia e extremamente saborosa, acompanhado do mesmo delicioso angu de milho verde.   

Restaurante Trindade

A seleção de sobremesas não entusiasma. Petit gâteau de doce de leite. Bolinho quente de chocolate e cupuaçu. Taça de sorvete de baunilha com banana e doce de leite. Nada me parecia muito atraente. Ficamos, então, com a segurança da simplicidade: “doces da fazenda” (figo, doce de leite, excelente goiabada, com queijo meia cura) e pudim de leite.

Restaurante Trindade

O pudim acabou sendo uma surpresa pra mim. Olhei pra ele e, de cara, identifiquei duas infrações à minha cartilha do bom pudim de leite (como se sabe, cada brasileiro tem a sua): além de ter furinhos na massa, ostentava uma ameixa no topo. Minutos depois, já despida de minhas certezas, diante do delicioso exemplar, tive que admitir: tratava-se de uma desconcertante exceção.

Restaurante Trindade

Trindade - Rua Alvarenga Peixoto 388 – Lourdes

http://www.trindadebrasil.com.br/

 

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