Pra quem quiser me visitar....
  • Você sabe de onde vem o peixe que você come?
  • Conceição Discos, o novo café de Talitha Barros em São Paulo
  • Du Pain et des Idées: minha padaria do coração em Paris
  • A difícil tarefa de escrever sobre restaurantes
  • Lasai, a nova casa do chef Rafa Costa e Silva no Rio: exaltação da cozinha de produto
  • Duas vezes Frenchie: Frenchie to Go e Frenchie Bar à Vins
  • Jiquitaia, em São Paulo: um jantar delicioso de fio a pavio
  • Kødbyens Fiskebar, em Copenhague
  • Relæ, em Copenhague: pequeno notável
Sexta, 29 Agosto 2014

Você sabe de onde vem o peixe que você come?

Rio Gastronomia

A pergunta no título deste post é puramente retórica. Na verdade, eu ousaria dizer que não tenho qualquer dúvida quanto à resposta: não, não conhecemos o peixe que comemos no Brasil.

Esse foi o assunto discutido numa mesa redonda sobre pesca, que tive o prazer de mediar ao lado do mestre Carlos Alberto Dória, a convite do Instituto Maniva. O debate aconteceu no último sábado, dentro da programação do Rio Gastronomia, e contou com a participação dos chefs Rafa Costa e Silva, Teresa Corção e Frédéric De Maeyer e dos pescadores Antonio Amaral – da empresa Fish Life –, Jairo e Chico – estes últimos, líderes da comunidade de pesca artesanal de Itaipu, em Niterói. Tivemos ainda, a presença de Mariana do Valle, representante do Slow Fish.

A proposta da mesa redonda surgiu de uma série de conversas que vinham acontecendo há meses, por conta de um encontro promovido em dezembro passado pelo Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo, o C5, ONG da qual eu, Dória, Rafa e Teresa somos membros. Aquele encontro tinha justamente a intenção de melhor entender a cadeia do peixe no Brasil. Os diálogos travados entre nós desde então evidenciam que, quando se trata de saber de onde vem o peixe que comemos, como é pescado e que tratamento recebe até que chegue a nossas mesas, há mais perguntas que respostas.

O curioso é que, seja nos restaurantes, seja em nossas casas, quando optamos por comer peixe, temos a sensação de fazer uma escolha segura.  Talvez pela impressão de que se trate de um alimento cuja cadeia seja compreensível, sem grandes mistérios a povoar o caminho percorrido desde sua captura no mar até que alcance nossos pratos. No entanto, quanto mais converso com pescadores e cozinheiros, mais me convenço de que não temos tanta clareza a respeito desse caminho.

O assunto é complexo e envolve uma infinidade de questões espinhosas. Barcos pescando sem licença. Desrespeito aos períodos de defeso e outras proibições legais. Práticas de pesca que agridem o meio-ambiente. Más condições de acondicionamento dos pescados entre a captura e a chegada ao mercado. Grande quantidade de intermediários nesse caminho. Transporte mal feito. Por fim, o que talvez seja o maior desses males, por ser aquele que perpetua todos os outros: o desconhecimento dos cozinheiros e dos consumidores sobre o alimento que servem e consomem.

Só pra ilustrar a dimensão do problema, abordo aqui um exemplo de que falamos no encontro de sábado. Quem, como eu, vive no Rio de Janeiro, sabe como se come cherne nessa cidade. O que talvez muitos não saibam, assim como eu não sabia até um mês atrás, é que a espécie que abunda em nossos mercados, feiras e restaurantes, é o cherne poveiro, cuja pesca foi proibida em 2005 (por um período de dez anos) através da Instrução Normativa MMA nº 37, em razão de ter sido incluído na Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza como criticamente ameaçado de extinção. Nas prateleiras dos mercados e nas cozinhas dos restaurantes cariocas, isso parece ser solenemente ignorado todos os dias. Só na semana passada, a Polícia Federal apreendeu uma carga de mais de 12 toneladas de cherne poveiro no Rio.

Enquanto isso, uma série de espécies abundantes em nossa costa, sem problema de sobrepesca, simplesmente não são oferecidas em mercados e restaurantes. Quando são, não atraem nosso interesse, acostumados que estamos a comer sempre as mesmas coisas.

Se passamos à questão da qualidade do peixe que consumimos, a situação não é mais animadora. Grande parte passa 10, 20, até 30 dias em más condições nos porões dos barcos de pesca e já não chega fresca às nossas mesas. No entanto, entre os cozinheiros e consumidores que recebem esse pescado, são poucos os que conseguem perceber que já não é fresco o alimento que têm em mãos.

Ao subir ao palco do Rio Gastronomia no último sábado, não tínhamos a pretensão de abordar cada uma dessas questões em profundidade. Dispúnhamos de apenas duas horas. Ainda que dispuséssemos de vinte, isso não seria o bastante. A verdade é que a falta de conhecimento sobre o assunto ainda é imensa. A esperança está em acreditar que, a cada oportunidade que tenhamos de debater e refletir, possamos sair um pouco menos ignorantes a respeito do peixe que comemos no Brasil. Se não menos ignorantes, ao menos mais preocupados, o que já é alguma coisa.

 

Quinta, 21 Agosto 2014

A difícil tarefa de escrever sobre restaurantes

Nesses seis anos de blog, não foram poucas as mensagens que recebi de pessoas relatando decepções vivenciadas em lugares que recomendei com algum entusiasmo. A mensagem enviada por uma leitora há poucos dias, em que menciona uma refeição decepcionante num local que já elogiei aqui algumas vezes, me trouxe o desejo de dedicar o post de hoje à reflexão sobre a difícil tarefa de escrever sobre restaurantes.

Na resposta que encaminhei a ela, disse o que digo a todos os leitores que se dirigem a mim com esse tipo de relato e o que procuro dizer a mim mesma diante de inúmeras experiências negativas vividas à mesa ao longo dos anos: é importante ter a compreensão de que resenhas e crônicas não são mais do que o retrato de um momento. Aliás, um retrato que jamais será absolutamente fiel, seja pela fugacidade do momento, seja por estar a experiência permeada pelas idiossincrasias de quem a descreve, como observou com inteligência e sensibilidade o querido amigo autor do blog Alhos, Passas e Maçãs, em recente post, cuja leitura recomendo vivamente.

 A tornar ainda mais árdua essa tarefa, há o fato de que restaurantes dificilmente são os mesmos todos os dias. Já comi bem em lugares que não considero bons, assim como já tive experiências ruins em outros que figuram entre meus favoritos. A verdade é que são pouquíssimos os que conseguem navegar em mar de regularidade. E são muitos os fatores a fazer desta uma meta quase inalcançável.

Compartilho brevemente algumas situações vividas nos últimos meses, só pra ilustrar o que digo.

Café Constant. Há anos, é um dos meus bistrôs favoritos em Paris. Já o recomendei a vários amigos, que, como eu, acabaram fazendo dele um de seus endereços de estimação na capital francesa. Em recente passagem pela cidade, voltei uma vez mais. Pra minha surpresa, tive uma refeição decepcionante do começo ao fim. Não foi apenas esquecível, foi ruim mesmo. Como saber se foi apenas um mau dia na rotina do restaurante ou se as coisas mudaram? Só o tempo pode responder.

Pipo. Local onde estive muitas vezes desde a inauguração, vislumbrando ali uma das melhores novidades surgidas no Rio de Janeiro no ano passado. Nas duas últimas visitas – uma em junho, outra em agosto –, não fui tão feliz como de costume. Os pães dos sanduíches foram substituídos por outros que não me pareceram estar à altura dos usados anteriormente. A execução dos pratos não me soou tão precisa.

Viradas do Largo. Lugar onde havia comido muito bem em minha última viagem a Tiradentes. No fim de semana passado, voltei à casa e não tive a mesma sorte. Os pastéis de angu, se não eram maus, também não eram bons como me sugeria a memória. No prato principal, o tutu e a couve rasgada eram muito gostosos, mas o lombo de porco e os torresmos estavam muito maltratados.

Conto-lhes, por fim, um episódio que merece menção porque seus desdobramentos fazem dele o mais enriquecedor ao propósito desta reflexão. Aconteceu no Volta, endereço carioca pelo qual desenvolvi grande estima, por conta das muitas razões relatadas aqui.

 Numa tarde de abril, passei rapidamente pra comprar um quindim em seu balcão de doces, à entrada do salão. O exemplar da casa talvez seja o melhor de que tenho notícia na cidade. Naquela tarde, porém, embora estivesse bom, não estava incrível como esteve em todas as visitas anteriores. Talvez estivesse no dia anterior; provavelmente estaria no dia seguinte. Mas me perguntei: e se alguém que tenha lido minha recomendação entusiasmada fosse experimentar o quindim, não no dia anterior, nem no dia seguinte, mas justo naquele dia?

Curioso o tanto de questões que uma simples mordida num quindim suscitou em mim, questões que ora revisito nestas linhas. Acabei compartilhando minhas indagações nas redes sociais, sem mencionar o nome do lugar. Na época, uma das sócias da casa, reconhecendo o quindim fotografado, me escreveu a respeito. Transcrevo aqui parte daquela mensagem. Não apenas porque retrata o profissionalismo, a seriedade e a postura que esperaríamos encontrar em todos os restaurateurs, mas porque joga luz no universo de fatores envolvidos na engrenagem de um restaurante, detalhes que muitas vezes nos escapam, mas que podem ser responsáveis por determinar, em maior ou menor medida, o sucesso ou o fracasso de uma refeição. Eis as palavras dela:

Diante de sua observação, fui tentar descobrir se poderia ter havido algo errado, e gostaria de compartilhar com você para reafirmar a pertinência do seu post.
Criamos um turno na madrugada para um cozinheiro se dedicar exclusivamente à produção da confeitaria, que é feita diariamente entre 0h e 8h. Pois esse cozinheiro faltou e a produção dos doces foi realizada no turno regular, junto com a produção das demais praças, isso quer dizer compartilhar o forno, temperaturas altas e o inevitável abrir e fechar de porta. Não sei exatamente qual foi sua impressão, mas me arrisco a dizer que a consistência estava firme, sabor menos intenso e, talvez, a base um pouco mais dura.

(...)

Fico feliz que você tenha essa percepção tão lúcida quanto rara. Vivenciar a rotina de uma cozinha e alcançar um padrão de qualidade é um trabalho diário e incansável, que além de seriedade e honestidade requer muita paixão pelo que se faz, pois do contrário seria impossível seguir adiante. Tarefa árdua é essa de mitigar os erros que acontecem e corresponder sempre às expectativas do cliente que está à mesa tanto quanto às nossas próprias. Aceitar a falibilidade da condição humana é um fato, mas acomodar-se ou amparar-se nisso para justificar qualquer tipo de erro é o que não é aceitável. Temos que correr atrás.”

É isso. Somos falíveis, todos. Os que escrevem sobre restaurantes, os que os comandam e os que os frequentam. Restaurantes, em última análise, são como nós: organismos vivos, sujeitos a todo tipo de vicissitudes. E os sujeitos que escrevem sobre eles dificilmente poderão oferecer aos leitores mais do que o retrato, nem sempre absolutamente fiel, de uma experiência fugaz. Tenhamos isso em mente e nos decepcionaremos menos.

Segunda, 11 Agosto 2014

Jiquitaia, em São Paulo: um jantar delicioso de fio a pavio

Restaurante Jiquitaia

Muitos dos comentários que ouvi e li sobre o Jiquitaia desde sua inauguração me fizeram crer que se tratava de um lugar onde se oferecia “boa comida para o preço cobrado”. De fato, é impossível não mencionar preço quando se fala a respeito da casa comandada pelos irmãos Nina e Marcelo Bastos (ela no salão, ele na cozinha). Pelo simples fato de que não é mesmo fácil encontrar boa comida pelos valores praticados ali – o menu com entrada, prato e sobremesa custa R$39,00 no almoço, R$59,00 no jantar. Ao menos, não em capitais como Rio e São Paulo, onde é mais fácil comer mal pagando o dobro disso.

 Ocorre que essa natural vinculação dos elogios ao preço da refeição pode criar a falsa impressão de que o restaurante é menos do que é. O que, por outro lado, acaba abrindo caminho pra que se saia com as expectativas superadas. Foi o que aconteceu comigo.

 O ambiente é absolutamente simples e a equipe é pequena. O cardápio, arquitetado em torno de poucas opções, homenageia o simples, trafegando por um repertório permeado por assumida brasilidade. A simplicidade perseguida encontra a justa medida no talento de Marcelo, que dá sentido à surrada máxima que nos diz que menos pode ser mais.

Tudo o que experimentei (incluam-se aí as investidas nos pratos da minha companheira de mesa) estava saboroso e evidenciava uma cozinha marcada por delicadeza e equilíbrio. Foi assim desde os dourados nacos de queijo coalho com geleia de abóbora, que abriram o jantar, passando pelas entradas, um delicadíssimo pirão de leite com carne seca e nhoques de banana da terra com carne seca.

Restaurante Jiquitaia

Restaurante Jiquitaia

Restaurante Jiquitaia

A mesma sutileza havia no purê de banana que contracenava com ótima anchova grelhada, minha escolha entre os pratos principais.

Restaurante Jiquitaia

A amiga que me acompanhava optou pelo magret com arroz de pato no tucupi. Muito gostoso, embora a carne e sua camada de gordura pudessem ser menos firmes, como já me havia alertado um amigo que é frequentador assíduo da casa.  O arroz, apesar de trazer o tucupi um tanto domado, era muito saboroso, uma delícia. A ponto de me fazer avançar em prato alheio mais vezes do que permitiria a boa educação.

Restaurante Jiquitaia

Entre as sobremesas, elegi o levíssimo e delicioso cheesecake com calda de jabuticaba.

Restaurante Jiquitaia

Igualmente leve era o creme de queijo que surgia na companhia da boa e velha goiabada.  

Restaurante Jiquitaia

A toada do Jiquitaia não é a de grandes surpresas ou arroubos inventivos, mas a do conforto de tons familiares abordados com grande competência. Tanto melhor se a afinada cozinha nos entrega isso por preços tão abaixo da média. Mas em momento algum me pareceu que o que me serviam era apenas “comida boa para o preço”. Saí dali convicta de que era mais que isso.

 

Jiquitaia - Rua Antônio Carlos, 268 – Consolação – São Paulo

http://jiquitaia.com.br/

Quinta, 31 Julho 2014

Conceição Discos, o novo café de Talitha Barros em São Paulo

Conceição Discos

Ao cruzar a fronteira dos trinta, deixando pra trás o frescor e certa inocência que há nos vinte, eu não supunha a maior das mudanças que a transição me traria. Fui advertida de uma série de possíveis transformações, mas ninguém jamais me havia revelado justamente o mais grave dos sintomas dessa passagem. Não me prepararam pra algo que antes parecia não estar no script: a consciência da finitude.

Os vinte levaram embora com eles a certeza de que a vida é pra sempre. Os trinta trouxeram o avassalador sentimento de transitoriedade e, com ele, a percepção de que muitos dos desvios que tecemos na malha do tédio cotidiano são, no fundo, uma tentativa de driblar essa condição. Dar um mergulho no mar. Ouvir um disco que nos emocione. Assar um bolo no meio da tarde. Encontrar os amigos pra jogar conversa fora. Viajar. Por alguns minutos ou horas - ou até mesmo dias, nos melhores casos -, esquecemos que é tudo tão efêmero. Acreditamos que pode haver música e bolos fumegantes e o calor de pessoas queridas indefinidamente, sem prazo de validade.

Conceição Discos

Um desses momentos calhou de acontecer no Conceição Discos, o misto de café e loja de vinis que Talitha Barros inaugurou há algumas semanas em São Paulo. A natureza se encarregou de providenciar chuva fina e frio manso. Mal entramos, Sarah Vaughan irrompeu na vitrola. Depois, Chet Baker. Por fim, Ray Charles. É preciso falar ainda no cheiro de comida boa que havia no ar, o que levou um amigo a observar com muita propriedade: “como é bom cozinha que cheira, quase não se vê isso nos restaurantes de hoje”.  

Conceição Discos

“Cozinha que cheira” era mesmo a impressão que eu tinha do que faz Talitha Barros. Sempre ouvi dizer que é das mais talentosas cozinheiras de São Paulo, dessas que abordam com profundidade o simples, o essencial. Ainda não tinha conseguido conferir seu trabalho, especialmente pelo pouco tempo que permaneceu em cada um dos endereços por onde passou nos últimos anos – como Mangiare, Bravin e Brasil a Gosto. Quando soube que abrira um negócio seu, vislumbrei a oportunidade de vê-la em ação. Agora, dona do próprio nariz, com liberdade pra fazer comida do seu jeito.

Conceição Discos

O pequeno salão consiste em um balcão e umas poucas mesas. No cardápio, não há muito. Queijo quente (em algumas variações), pão de queijo recheado com pernil, tortas salgadas e uma pequena seleção de sobremesas, além de um prato do dia (oferecido a inacreditáveis R$20,00) e um bolo do dia. O suficiente pra me revelar que os amigos não mentiam ao dizer que a moça é cozinheira de mão cheia.

Experimentamos o incontornável pão de queijo com pernil e seguimos com o prato do dia, um farto arroz de língua.

Conceição Discos

Conceição Discos

Úmido, extremamente saboroso, era temperado com precisão e equilíbrio. Pelo que ouvi por aí, seu arroz de suã e o de rabada são igualmente elogiáveis. O tipo de prato que se basta, não precisa de antes e depois. Mas como o depois eram as famosas sobremesas de Talitha, o bom senso mandava ir em frente. Éramos quatro, então, compartilhamos as três opções do cardápio e uma fatia do bolo do dia, de banana.

O pudim de leite, considerado por muitos o melhor da cidade, era, de fato, delicioso. Um veludo, sem um único furinho – o que o enquadra na minha classificação de pudim ideal.

Conceição Discos

A torta de limão, outra beleza. Boa massa, ótimo merengue, creme de limão com bem-vinda acidez e açúcar na medida. O gostoso brownie compartilhava o equilíbrio na doçura. O mesmo se diga do bolo de banana, macio, com marcante sabor da fruta.

Conceição Discos

Pra acompanhar o café, paçoca feita na casa, algo salgada, uma delícia.

Conceição Discos

A tarde que passei ali podia ter sido apenas uma prazerosa visita ao novo café, mas acabou se revelando um desses momentos em que a música, a comida e a companhia são tão boas que a gente quase acredita que pode ser assim pra sempre.

 

Conceição Discos – Rua Imaculada Conceição 151 – Vila Buarque

https://www.facebook.com/conceicaodiscos

Quinta, 24 Julho 2014

Lasai, a nova casa do chef Rafa Costa e Silva no Rio: exaltação da cozinha de produto

Lasai restaurante

Conheci Rafa Costa e Silva pouco depois de seu retorno ao Brasil, após uma temporada de cinco anos na cozinha do Mugaritz, no País Basco, onde começou como estagiário e de onde saiu como braço-direito do chef Andoni Luis Aduriz. Estive com ele em várias ocasiões ao longo desses dois anos que antecederam a tão aguardada inauguração de seu Lasai. Entrevistei-o algumas vezes. Em outras tantas, tivemos oportunidade de conversar informalmente. Logo percebi que se tratava de um sujeito irrequieto, dono de um senso crítico afiado, pouco inclinado a aceitar verdades estabelecidas. Sua personalidade, mais do que seu currículo, plantou em mim grandes expectativas.

Tratou de relativizar tudo o que lhe havia sido dito a respeito da dificuldade de conseguir determinado padrão de matéria-prima por aqui. Montou duas hortas e um galinheiro. Construiu uma relação de confiança com agricultores e pescadores, gente que o ajudaria a concretizar as ideias que trazia na bagagem.

Mostrou disposição pra fugir de padrões e fazer as coisas do seu jeito, o que vem provando desde março, quando seu novo restaurante abriu as portas em Botafogo.  É o que se vê, por exemplo, na atuação de sua jovial equipe, que, embora marcada por leveza e informalidade, entrega eficiência rara no cenário da restauração carioca. É o que fica claro também na corajosa decisão de inaugurar sem assessoria de imprensa, sem distribuir convites indiscriminadamente.

Lasai restaurante

Nada disso teria tanto valor se a comida servida no Lasai não fosse boa. Felizmente é. O público tem a chance de descobrir isso através de dois menus cujos preços, ao menos por enquanto, são relativamente inferiores aos praticados por seus pares: um deles consiste em uma sequência de pequenas entradas, dois pratos e uma sobremesa; o outro, num percurso mais longo, algo entre dez e quinze bocados escolhidos pelo chef, que variam constantemente de acordo com o que chegar de mais fresco de suas hortas e das mãos de seus fornecedores.

Lasai restaurante

Nesses quatro meses de vida do restaurante, estive ali três vezes. Embora tenha sido perceptível a evolução entre a primeira visita e a última, era indiscutível a excelência da cozinha já nas primeiras semanas de sua trajetória. É claro que nem tudo o que comi nas três ocasiões me trouxe igual satisfação, mas isso se deve muito mais às minhas idiossincrasias do que a qualquer outro motivo. O fato é que não foram poucas as virtudes que a casa me revelou ao longo desses meses.

Entre elas, a marcante presença de vegetais, de incontestáveis frescor e qualidade, disputando o protagonismo com carnes, peixes e frutos do mar nas mais diversas preparações. Como os chips de batata doce roxa, que acompanhavam a brandade de beijupirá ou os crocantes de milho que amparavam finas lâminas de língua. As diversas tempuras, de quiabo a flor de abobrinha, de berinjela branca a folha de acelga. As ervilhas em várias declinações: salteadas, fresquíssimas, e na forma de dois purês (num, cruas; noutro, cozidas). O veludo da batata-cenoura, que roubava a cena e ameaçava ofuscar um impecável naco de lula. O inhame, que se aliava ao coco, compondo falsa clara onde repousava uma gema mole, à espera do mergulho de um pedaço do chip de carne seca.

Lasai restaurante

Lasai restaurante

Lasai restaurante

Lasai restaurante

Lasai restaurante

Lasai restaurante

Há que falar na técnica exuberante, jamais ostentada por si, mas sempre colocada a serviço do produto, que é a grande estrela ali. Exemplos claros são a extrema delicadeza das tempuras, de que já falei, e os pontos de carnes e peixes – o beijupirá em deliciosa crosta de missô e o contrafilé de Wagyu com pimentão vermelho e batata roxa não me deixam mentir. O mesmo se diga da perfeição dos caldos, como o de carne, que contracenava com vieiras e tutano, e o de porco, que conferia ainda mais profundidade ao prato que unia leitão e batata baroa, esta finalizada na churrasqueira – que, aliás, tem papel importante na cozinha de Rafa.

Lasai

Lasai

Lasai

Lasai restaurante

Devo dizer que as sobremesas me pareceram ser a nota dissonante no concerto. Entre as que experimentei, o melhor elemento foi quase sempre algum tipo de sorvete, como o de açaí – que acompanhava banana e um inexpressivo bolinho de açaí –, o de coco – com doce de melancia e bolinho de coco – ou ainda o de amendoim, que contracenava com figo grelhado, dobradinha em que não vislumbrei grande diálogo.  Na verdade, todas elas me pareceram um degrau abaixo do que se faz na cozinha salgada.

Lasai

Lasai

Lasai

Creio que seja apenas questão de amadurecimento aparar essas arestas. Afinal, por melhor que seja um trabalho, por mais competente que seja um chef, acho que não se pode desprezar algo fundamental em qualquer trajetória de sucesso: o tempo.

 

Lasai - Rua Conde de Irajá, 191 – Botafogo

http://www.lasai.com.br/

Quinta, 17 Julho 2014

Kødbyens Fiskebar, em Copenhague

Kødbyens Fiskebar

Um dos restaurantes mais interessantes por que passei em Copenhague, o Kødbyens Fiskebar está instalado numa área da cidade que vem se reinventando, o Vesterbro. O comércio de carne e as ruas escuras pontuadas por inferninhos vão dando lugar a galerias, bares e restaurantes. O Fiskebar é um dos símbolos dessa reinvenção. Encravado num estacionamento cercado de prédios antes ocupados por frigoríficos, tornou-se um dos endereços da moda na cena gastronômica local. A boa notícia é que a cozinha tem consistência pra sustentar a fama. Tive ali uma das minhas melhores refeições na cidade.

Kødbyens Fiskebar

O ambiente é informal, a equipe é jovem, a atmosfera, vibrante. No enxuto cardápio, as estrelas são peixes e frutos do mar, que surgem em preparações leves, atuais e muito bem executadas.

De tudo o que passou por minha mesa, só o pão não agradou. Não parecia fresco. No mais, foi um jantar sem senões. Delicioso, de fio a pavio.

Comecei com mexilhões, que estão entre as minhas predileções.

Kødbyens Fiskebar

Os soberbos nacos de king crab, com creme de limão, eram tenros, doces, sérios candidatos a melhor prato da noite.

Kødbyens Fiskebar

O fish and chips, feito com Gadus morhua defumado, foi dos mais gostosos que já experimentei.

Kødbyens Fiskebar

O desfecho veio com uma sobremesa primaveril, extremamente delicada e cheia de frescor: biscoito embebido em calda de ruibarbo e aquavit, pedaços de ruibarbo (que surgia, ainda, na forma de geleia), sorvete de iogurte, mousse de cumaru e crumble.

Kødbyens Fiskebar

Saí dali com a sensação de que poderia começar tudo outra vez.

 

Kødbyens Fiskebar – Flæsketorvet 100

fiskebaren.dk/

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