Desde que não nos falte açúcar

Abril 2021

Dia desses me dei conta de que minha maior paixão no universo das comidas não tem sido fulminada pelo vazio da ausência durante esse período de confinamento. Quem me conhece bem sabe que me refiro à confeitaria.

Quando, lá pela altura dos meus três anos de idade, minha mãe me levou a um festival de arte em açúcar no antigo hotel Sofitel, em Copacabana, provavelmente não supunha a semente que plantava em mim naquele momento. Não por acaso, quando, por pura afeição e sem nenhum anseio profissional, cursei gastronomia, meu estágio de conclusão de curso aconteceu na confeitaria de um dos endereços onde melhor se lidava com o ofício naquela época: o extinto Carême Bistrô, em que a chef Flavia Quaresma arrebatou algumas vezes o prêmio de melhor sobremesa da cidade.

Ali ostentei, orgulhosa, marcas de queimaduras adquiridas ao caramelizar carolinas que dariam contorno às croquembouches com que surpreendíamos os aniversariantes – a glória de uma estagiária. Ali aprendi receitas que povoam minha vida e sempre estarão comigo. Ali conheci a Laila Caminha, das melhores confeiteiras do Rio – essa, naturalmente, é uma opinião contaminada pela falta de isenção que se costuma dedicar aos amigos.

Falando na Laila, aproveito pra retomar o fio dessa prosa. Desde que, em março de 2020, entramos coletivamente em isolamento social, deixei de frequentar bares, restaurantes e afins, por motivos que qualquer infectologista ou epidemiologista pode explicitar em menos de cinco minutos sem deixar margem a dúvidas. Mas, se há um aspecto menos difícil no cenário das limitações que passaram a pautar meu cotidiano, é justamente aquele que diz respeito ao lado doce da gastronomia.

O Rio de Janeiro, embora abrigue confeitarias centenárias, padece da falta de qualidade em boa parte desses estabelecimentos. Frequento alguns deles mais por apego à memória da cidade do que por acreditar na excelência do que produzem. Com o passar do tempo, não se viu por aqui uma expressiva renovação na área. De modo geral, salvo algumas exceções, são pouco ou nada empolgantes as confeitarias surgidas ao longo das últimas décadas.

Isso não significa que a cidade não tenha confeiteiros admiráveis. É que alguns dos melhores profissionais do momento realizam seus trabalhos sem necessariamente contar com vitrines onde exibi-los. Muitas vezes atuam exclusivamente através de encomendas ou vendas on-line, fora do ambiente de lojas ou restaurantes, longe dos holofotes. São, portanto, menos suscetíveis à instabilidade dos fechamentos e restrições decorrentes das medidas de combate à Covid-19 – o que permitiu que seguissem trabalhando sem grandes perdas pra eles e pra nós.

É o caso da própria Laila, que comanda a marca Caminha. Suas tortas indefectíveis, seus caramelos, seus biscoitos, suas geleias, nada disso deixou de estar em minha mesa durante esse longo inverno.

O mesmo posso dizer dos deliciosos cannelés, cookies, choux, madeleines e bolos da Manu Alves, da Cozinho, logo existo.

Também o Henrique Rossanelli, criador da Quique é Isso, tem me “visitado” ao longo de todo esse tempo, com suas “quiquentinhas”. Não se pode dizer que Henrique não tenha intimidade com os holofotes. Depois de trabalhar em alguns celebrados restaurantes cariocas, estava prestes a deixar o País, quando a pandemia lhe fez lembrar que a vida tem seus próprios planos e eles nem sempre coincidem com os nossos. Desde então, é da cozinha de sua casa que despacha quentinhas capazes de traduzir aquilo que ele mesmo chama de “confeitaria de apartamento”. Pra minha felicidade, não faz muito tempo, passou a incluir no cardápio das entregas fatias individuais do seu carrot cake, que beira a perfeição (se lanço mão do inglês, não é por afetação, mas pra lembrar que a receita do Henrique é a do bolo de cenoura como fazem ingleses e americanos, diferente daquela que se costuma fazer nas casas brasileiras).

Graças à L’Éclair Shop, tenho sido também abastecida de uma de minhas predileções. As bombas, geralmente tão maltratadas nestas bandas, ganham versões leves e equilibradas nas mãos de Maria Fernanda Picavet. Eu já as conhecia antes mesmo de a marca inaugurar pequena loja própria – inicialmente no Largo do Machado, hoje instalada em Ipanema, pra onde corajosamente se mudaram durante a pandemia. Mesmo com a loja, Maria Fernanda manteve a venda da on-line.

Não poderia deixar de falar da Anna e da Leticia, d’A Merenda, sobre quem também não garanto isenção de opinião, pois frequentam minha casa e meus afetos. Também elas têm estado comigo mesmo sem estar: através de seus fabulosos quindins (foto que abre o post) e dos bolos sempre presentes nos aniversários. Em janeiro, quando eu e minha mãe comemoramos, juntas, o marco de mais um ano nesse planeta, foi entre camadas de pão de ló, merengue e curd de limão que celebramos a graça de estarmos vivas, de seguirmos respirando, dispostas a renovar diariamente a chance de transformar na melhor das limonadas os limões que a vida nos têm destinado. Desde que não nos falte açúcar.

 

Caminha Confeitaria  @caminhaconfeitaria 

Cozinho, logo existo  @cozinhologoexisto

Henrique Rossanelli/ Quique é Isso  @quiqueeisso_

L’ Éclair Shop   @leclair_shop

A Merenda   @amerendarj

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