Em nome do pai, do filho e da chouquette - janeiro/2011

Ando meio rabugenta nas últimas semanas. Irritada com o tanto que tenho comido mal ultimamente, muitas vezes pagando caro por isso. No último domingo, atravessei o dia pensando a respeito. Comer, não apenas por prazer, mas por ofício pode proporcionar a uma pessoa momentos de inestimável satisfação, mas pode também transformá-la em alguém mais ranzinza, intolerante. É preciso estar atento pra não cair na armadilha.

Como ia dizendo, pensava nisso, depois de um café da manhã fora, entre amigos, onde reclamei demais de tudo e depois me perguntei se não havia estragado nosso programa. Eram muitos os motivos a justificar minhas reclamações, não tenho dúvida – vi coisas inaceitáveis naquele lugar... Mas o fato é que passei o dia me perguntando se já não me foi mais fácil, em outros tempos, ser feliz à mesa. Quase como se me invadisse uma saudade da inocência de quem pouco viu e conheceu, que se de um lado não me permitia saber certos prazeres, de outro talvez me garantisse a liberdade de encontrar satisfação no que bem entendesse, sem intelectualizar as razões de depositá-la neste ou naquele prato. E me perguntava se a vida não era melhor quando me bastavam os porquês da alma, sem precisar buscá-los fora dela... Talvez isso tudo não passe de um pensamento bobo, reflexão sem valor. Mas, curiosamente, naquela noite, eu terminaria a leitura de um livro cujas palavras finais pareceram vestir meu sentimento em sua justa medida.

“Une gourmandise”, livro de Muriel Barbery, conta a história de um respeitado crítico gastronômico que, à beira da morte, esforça-se pra lembrar, entre tantas refeições que a vida lhe proporcionou, qual seria o sabor que falaria à sua alma mais do que qualquer outro. Aquele ao qual gostaria de voltar uma vez mais antes de partir. Após percorrer todo tipo de memória, dos sabores da infância aos gloriosos festins da vida adulta, finalmente, o protagonista identifica o sabor essencial que tanto buscava. E a revelação estaria em insuspeitas chouquettes...

No leito de morte, implora que lhe tragam algumas delas. A esposa manda buscar na filial mais próxima da pâtisserie Lenôtre. Ele intervém, pois não queria chouquettes delicadamente dispostas na vitrine de uma pâtisserie famosa, mas aquelas negligentemente atiradas na prateleira de um supermercado. Surpreende-se com seu próprio desejo, ele que tanto já havia escrito sobre a delicada fronteira que separa a perfeita massa choux daquelas que não passam de um arremedo. Ao mesmo tempo, questiona-se como se permitiu, ao longo da vida, trair a si mesmo a ponto de envergonhar-se do que lhe dava prazer. Viaja, sem escalas, aos seus longínquos quinze anos de idade, quando, na saída do colégio, sem discernimento algum, mas com tremenda quietude, atacava violentamente um saco de chouquettes de supermercado. E conclui (perdoem a tradução livre, provavelmente, marcada por alguns erros):

“Na união quase mística de minha língua com aquelas chouquettes de supermercado, de massa industrializada e com açúcar transformado em melaço, eu alcancei Deus. Depois, eu o perdi e sacrifiquei em nome de desejos gloriosos que não eram meus e que, no crepúsculo de minha vida, acabaram falhando em roubá-lo de mim.

(...) Deus, por assim dizer, aquela região misteriosa de nossa intimidade, onde somos inteiramente nós mesmos, na apoteose de um desejo autêntico e de um prazer puro. Como o umbigo que se aninha no mais profundo de nossos fantasmas e que somente nosso eu profundo inspira, a chouquette era a suposição de minha força de viver, de existir. Poderia, durante toda a minha vida, ter escrito sobre ela, mas escrevi contra ela. Somente na hora da morte eu a reencontro, finalmente, depois de tantos anos errantes. E, definitivamente, pouco importa que Paul consiga me trazê-la antes que eu faleça.

A questão não é comer, não é viver, é saber por quê. Em nome do pai, do filho e da chouquette, amém. Eu morro.”

Fui dormir pensando que chegar à simplicidade que está na redução, no retorno ao que é essencial pra cada um de nós, depois de aparar todo o excesso de informação que se vai acumulando no caminho e que tantas vezes nos impede de entender o que quer a alma, talvez seja mesmo tarefa pra uma vida inteira.

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Comentários:

Data: 29/01/2012 - Hora: 16:39:00
Nome: Ligia Ghizi
Email: ligiaghizi@gmail.com
Site: Não informado
Mensagem: Belíssimo texto, Cons! Como sempre, depois de ler seus posts, que impressionam pela clareza, elegância, coerência, e análise dos temas, faltam palavras, para elogiar, e dizer do encantamento que toda leitura do seu blog provoca... Linda reflexão, que também nos estimula a pensar e concordar com você. Já dizia o poeta; " a vida necessita de pausas". Então, há momentos que precisamos de um intervalo, não é? beijos.


Data: 19/01/2012 - Hora: 20:54:19
Nome: Constance
Email: email@naoinformado
Site: Não informado
Mensagem: Vou na sua dica, Robson. Como você, os únicos pães de queijo que acho verdadeiramente bons são os do Navegador e os da Casa da Táta. Tomara essa lista cresça com a sua indicação.


Data: 19/01/2012 - Hora: 20:49:54
Nome: Robson
Email: email@naoinformado
Site: Não informado
Mensagem: Foi o pão de queijo do Le Ptit Café, dentro da galeria nº 444 da Visconde de Pirajá. Gostei de outras coisas de lá, mas o pão de queijo, pelas razões já escritas, é que me faz voltar toda semana. Tomara que agrade. É diferente do que se faz na Casa da Tata e no Navegador, até então os únicos lugares em que eu comia realmente um pão de queijo no Rio.


Data: 19/01/2012 - Hora: 17:56:55
Nome: Constance
Email: email@naoinformado
Site: Não informado
Mensagem: Robson, não se alongou não. Muito bom ler suas palavras. E, por favor, me dê a dica do café onde de come esse pão de queijo extraordinário.


Data: 19/01/2012 - Hora: 11:39:35
Nome: Robson
Email: robsonrenault@yahoo.com.br
Site: Não informado
Mensagem: Que belo texto! O Rio anda mesmo muito propício a rabujices, com preços e qualidades mantendo relação assimétrica. E é muito bom quando se encontram críticas que não se resumem a devaneios ufanistas. Nesse sentdo, aqui é sempre um refúgio crítico. Mas suas palavras me remeteram a um outro texto de sua autoria, em que se lê esta bela frase: "Talvez exatamente porque não haja um rival possível para os sabores da memória afetiva". No Natal passado, encomendei um leitão assado na Roberta Sudbrack, especialmente para meu pai e meu sogro, que são mineiros, adoram o prato, mas não possuem "sofisticação" gastronômica. Nem disse de onde era o prato, mas ele gerou a seguinte memória em meu sogro, que tem setenta e oito anos: "eu me lembrei do leitão que minha mãe fazia em Minas. Muito tempo não comia bem assm". Faz alguns dias, entrei em um café novo em Ipanema e pedi um pão de queijo. Foi mordê-lo para logo ver que era feito como me lembrava ser o sabor do que comia na minha infância. Não deu outra: a dona me falou que a massa vinha de uma cidade perto de onde nasci. Era o pão de queijo que sempre comi e nunca havia encontrado no Rio. Achei a memória. Achei o melhor pão de queijo da vida. Acho que é isso. Desculpe se me alonguei, mas seu texto foi muito prazeroso. Abraço, Robson.


Data: 19/01/2012 - Hora: 10:30:11
Nome: Constance
Email: email@naoinformado
Site: Não informado
Mensagem: Loulou, peço perdão pela não liberação do seu 1º comentário. Meu provedor fez uma tremenda bobagem ontem, tirou meu blog do ar por horas e ainda fez desaparecer uma série de comentários de leitores... Eu me lembro de ter visto dois comentários seus na moderação, mas só consegui resgatar um...


Data: 18/01/2012 - Hora: 14:57:38
Nome: Françoise
Email: sememail@hot.com
Site: Não informado
Mensagem: Constance,leio sempre o eu blog, e posso dizer que também eu um dia me senti assim, e passei a comer aquilo que me delicia ,sem modismos ,exigências, assim os meus últimos almoços no Guimas , foram nota 10 e também o lanche no Chez Anne uma delícia...


Data: 17/01/2012 - Hora: 21:17:23
Nome: Loulou
Email: email@naoinformado
Site: Não informado
Mensagem: Ah, esqueci de perguntar, vc deve ter gostado tb da Elegancia do ouriço, nao ?