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Quinta, 31 Março 2016

The Slow Bakery e S.p.A Pane: finalmente, bons pães no Rio de Janeiro

The Slow Bakery

Na abertura de um dos episódios da ótima série Cooked, inspirada na obra de Michael Pollan, vê-se uma senhora marroquina acomodada no chão de sua sala a sovar o pão de cada dia, enquanto soam na tela suas palavras: “É impossível viver sem pão. O pão é o mesmo que a água. Você não pode viver sem água e não pode viver sem pão. Simplesmente não pode.”

Estou de acordo com ela. Pão é das coisas essenciais, dessas sem as quais não se pode viver. Falo de bom pão, não qualquer um. E aí reside o problema, ao menos pra quem mora no Rio de Janeiro, que nunca foi exatamente um celeiro de boas padarias.  

É claro que testemunhamos o surgimento de propostas interessantes ao longo dos últimos anos. Mas a cidade ainda nos devia um endereço verdadeiramente bom, que tivesse à frente gente disposta a entender a complexa simplicidade da panificação segundo a tradição milenar da fermentação natural; gente disposta ao constante aprendizado que se impõe a quem lida com um alimento vivo e deseja compreender suas transformações. 

Felizmente, o Rio tem hoje ao menos dois padeiros com essa disposição. Faz quase um ano que acompanho suas fornadas e o que posso dizer é que minha vida ficou melhor.

Da S.p.A Pane eu soube através de uma amiga, mais de um ano atrás. Conhecedora da minha insatisfação com a média da produção carioca, ela me alertou: “Descobri uma baguete muito boa na loja de conveniência de um posto Ipiranga na Lagoa”. Baguete boa num posto de gasolina? Desconfiei. Meses depois, resolvi conferir e me arrependi de não ter ido antes. A cena era inusitada: belos pães ostentavam suas crostas douradas num balcão onde disputavam atenção com lanches de gosto duvidoso – como manda o figurino nas lojas de conveniência. Na prateleira ao fundo, um cesto cheio delas, as baguetes. De fato, as melhores de que tenho notícia por aqui.

S.p.A Pane

Aos poucos, fui experimentando outros exemplares da linha de produção de Marcos Cerruti, o padeiro por trás da S.p.A Pane. Especialmente depois de inaugurado seu website, que disponibiliza a produção semanal para compra on-line. O de azeitonas, as baguetes, focaccias e ciabattas tornaram-se presença constante em minha mesa.

S.p.A Pane

S.p.A Pane

S.p.A Pane

Já a The Slow Bakery, comandada por Rafael Brito e Ludmila Espindola, eu descobri numa visita a uma das edições da feira Junta Local, em abril do ano passado. Não havia como não notar seus pães. Trouxe um deles pra casa, o Rio Sourdough, e celebrei a descoberta. Desde então, tenho feito encomendas semanalmente em sua loja virtual.  Além do Rio Sourdough, o de azeitonas, o de semola rimacinata e o de grãos germinados estão entre meus favoritos.

The Slow Bakery

The Slow Bakery

Há alguns meses, incluíram na linha de produção impecáveis ciabattas. É preciso falar também de sua focaccia: não conheço melhor no Rio. Não é vendida on-line, mas eventualmente é possível encontrá-la no novo endereço onde a padaria acaba de se instalar – que além do balcão, tem um pequeno café na entrada e ainda funciona como ponto de venda da Junta Local, expondo produtos de alguns parceiros da feira.

The Slow Bakery

The Slow Bakery

São dois trabalhos de estilos diferentes. Acho as crostas dos pães da S.p.A Pane mais crocantes e suas baguetes seguem imbatíveis. Já os da The Slow Bakery me parecem ter sabor mais rico e complexo e sinto neles mais claramente a presença da leve acidez decorrente da fermentação natural. É interessante e divertido experimentar, comparar, descobrir quais facetas mais me agradam em cada um delas. Eu, que reclamava da ausência de boas padarias na cidade, já não posso me queixar.

Que estes padeiros sejam inspiração pra que mais gente se dedique à panificação com a seriedade e o respeito que o ofício merece. Repito o que já disse aqui certa vez, renovando minha esperança de que os pães pálidos, frouxos e sem sabor que há tanto consumimos ganhem, cada vez mais, a concorrência de exemplares como esses. 

 

The Slow Bakery – Rua São João Batista 93 – Botafogo

http://www.theslowbakery.com.br/

S.p.A Pane – Av. Epitácio Pessoa 3666 – Lagoa (dentro do posto Ipiranga)

http://www.spapane.com/

Quarta, 06 Janeiro 2016

Casa Cavé: pastéis e memória

Casa Cavé

No apagar das luzes de dezembro, uma despretensiosa visita à Casa Cavé, histórica confeitaria no Centro do Rio de Janeiro, me rendeu um dos melhores momentos à mesa em 2015.

Pastéis de nata recém-assados (massa crocante, recheio gostoso) me levaram sem escalas ao querido Portugal. Através do olhar de minha mãe, que me acompanhava naquela manhã, eu iria ainda mais longe. Pra ela, havia mais que um país naqueles bocados. 

Fazia décadas que não entrava na Cavé. Diante do balcão de doces, viajou mais de cinquenta anos no tempo, lembrando a época em que visitava a confeitaria com minha avó e minha bisavó. Aquela seria apenas a ponta de um carretel de recordações. Desandou a falar de sua infância, dos passeios ao Centro com a mãe, dos cabritos inteiros que o pai trazia pra assar em casa, das receitas preparadas carinhosamente pela avó – peixes empanados no fubá, carne assada com molho ferrugem, filhoses, doce de banana "vermelhinho".

Eis a riqueza de fazer da refeição um ato compartilhado. Cada pessoa traz consigo à mesa sua bagagem cultural, sua história, suas lembranças. Tivesse ido sozinha à Cavé, eu provavelmente teria saboreado os pastéis de nata com o mesmo prazer, mas a experiência teria sido outra. Irremediavelmente outra.

 

Casa Cavé – rua Sete de Setembro 133 (esquina com Uruguaiana) – Centro

http://www.casacave.com.br/

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