Pra quem quiser me visitar....
  • Restaurante Roberta Sudbrack fecha as portas no Rio de Janeiro: o fim pode ser uma ponte?
  • Padaria da Esquina, a nova casa de Vitor Sobral em São Paulo: minhas impressões
  • The Slow Bakery, o café
  • A hora do chá no Le Meurice, em Paris
  • Berlim, de bocado em bocado
  • O novo Oro: Felipe Bronze de volta em novo endereço
  • Lenha no fogão: comida e memória no sul de Minas Gerais
  • Fazenda do Serrote: refúgio na divisa entre Rio e Minas Gerais
  • O café da manhã da Pousada Capim Santo, em Trancoso
Terça, 11 Julho 2017

Uma nova geração de padeiros no Rio de Janeiro: Araucária Pães Artesanais e Maison do Zé

                    “Debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão”

(Chico Buarque - Milton Nascimento)

 

No Rio de Janeiro de uma década atrás, o que se forjava no trigo estava longe de ser milagre. O panorama da panificação carioca não era exatamente animador. Sempre houve exceções, gente disposta a ir além do baixíssimo padrão reinante. Mas nada que se comparasse à mudança de cenário que teve início há poucos anos com o trabalho sério de algumas padarias artesanais, entre as quais a The Slow Bakery vem se tornando a maior referência. De lá pra cá, felizmente temos visto surgir uma nova geração de padeiros empenhados em tirar de vez a cidade das trevas da panificação.

É o caso de José Pedro Fonseca (ou apenas Zé, como ele prefere ser chamado), Gabriel Magalhães e Tito Pal, da Maison do Zé, e de João Pessanha, da Araucária Pães Artesanais – a quem cedo a palavra no post de hoje. Entre tantos representantes dessa nova geração de padeiros, os que escolhi entrevistar têm trajetórias intimamente ligadas e uma grande afinidade na forma como se relacionam com a gastronomia: seu foco está no constante aperfeiçoamento, na partilha de conhecimento e na democratização do acesso à boa comida. Uma abordagem livre e generosa do ofício, o que, de certa forma, ousa contrariar a lógica de um mercado profundamente competitivo e ainda tão permeado por surrados conceitos de exclusividade e glamour.

Com a palavra, João, Tito, Gabriel e Zé (perdoem o amadorismo do vídeo; o importante é ouvir o que eles têm a dizer).

Araucária Pães Artesanais - vendas na Junta Local

Maison do Zé - Rua São José 35 - sobreloja - n. 227 (no mezanino do Terminal Menezes Cortes). Almoços às quartas-feiras; padaria e sanduíches às sextas-feiras. Vendas também na Junta Local.

Sábado, 21 Janeiro 2017

Restaurante Roberta Sudbrack fecha as portas no Rio de Janeiro: o fim pode ser uma ponte?

Roberta Sudbrack fechamento

    “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.”

Carlos Drummond de Andrade

Trajetórias de restaurantes, assim como as nossas, são pontuadas por ciclos. E uma das coisas mais difíceis na vida é saber reconhecer o fim de um ciclo; buscar coragem para iniciar outro. Pessoas que anteveem o fim e fazem dele uma ponte, em geral, são aquelas que deixam uma marca. 

Esse foi um dos muitos pensamentos que me ocorreram quando soube do fechamento do Roberta Sudbrack. Primeiro achei que havia entendido errado. Depois, lamentei. Finalmente, compreendi a decisão da chef.

Um amigo muito querido, que tem com o universo das comidas uma relação de profundidade como a que procuro cultivar, me escreveu as seguintes linhas: “RS fechou. Que tristeza. (...) Lamento infinitamente. Escrevo para você, porque essa foi uma paixão que partilhamos. Que pena.” Realmente, uma pena. Ao longo de uma década, fiz muitas refeições ali, algumas delas inesquecíveis.

Tantas vezes me questionei por que tendia a gostar mais do RS do que de seus pares no Rio de Janeiro e em São Paulo. Tardei a encontrar resposta satisfatória. Porque não se trata puramente de uma questão de talento. O fato é que Roberta se debruça sobre a cozinha brasileira a partir de um olhar moderno, de uma abordagem inteligente, mas procura fazer isso sem abrir mão da conexão com a memória. Dessa forma, sempre garantiu que algo muito importante não se perdesse no caminho: o acolhimento.

Boa parte dos grandes chefs de hoje tem a preocupação de abordar a comida de forma provocativa, desafiadora. Sim, comida pode ser tudo isso e em alguns momentos é o que queremos mesmo que ela seja. O problema é quando isso se banaliza. Na maior parte das vezes em que me acomodo diante de uma mesa, não quero ser provocada ou desafiada, mas acolhida.

Não defendo que restaurantes se tornem museus de culinária. Não sou radical a ponto de achar que o acolhimento esteja unicamente na lenha que queima nos antigos fogões. Roberta é um exemplo de que é possível desenvolver linguagem própria e nova sem que a comida deixe de ostentar o que, pra mim, é atributo essencial: proporcionar conforto. O caldo restaurador, que está na origem do que chamamos de restaurante, já permitia vislumbrar nas refeições privadas servidas em lugares públicos esse poder de confortar, restabelecer, restaurar, enfim.

Se havia algo que me incomodava no RS (e que segue me incomodando em seus pares) era o fato de os preços praticados não me permitirem voltar mais vezes e evidenciarem como era pequeno o universo de pessoas que podiam acessar aquele prazer. Aliás, me incomoda muito que o grande artesanato culinário esteja cada vez mais cercado de uma ideia vazia de glamour e ligado a um conceito de exclusividade que não me parece razoável nos dias de hoje.

A julgar pelas palavras de Sudbrack em sua carta aberta no Facebook sobre os porquês do fechamento do RS, posso supor que esse incômodo, de alguma forma, também tenha alcançado a cozinheira. O que me faz compreender sua decisão e, mais que isso, alimentar a esperança de que ela ressurja ainda melhor.

© 2012 Pra quem quiser me visitar - Todos os direitos reservados - Design de Branca Escobar

Envie para um amigo:

*
*

Fale comigo:

*

Assinar Newsletter:

Remover email: