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Quinta, 04 Agosto 2016

The Slow Bakery, o café

The Slow Bakery

Já falei algumas vezes sobre a The Slow Bakery neste blog. A última delas foi num post publicado em março, quando a padaria havia acabado de ganhar endereço aberto ao público, com um café anexo à área de produção. Já fazia quase um ano que seus maravilhosos pães frequentavam minha mesa, mas sobre o café ainda era cedo pra opinar. Hoje, quatro meses e muitas visitas depois, não só posso, mas devo fazê-lo.

Trata-se de um dos lugares que mais tenho frequentado no Rio. As razões pra isso não são poucas. Algumas são objetivas, como a qualidade dos pães e de tudo mais que se serve ali. Outras, bastante subjetivas, como a admiração e o respeito que tenho pela dupla que comanda o espaço, Rafael e Ludmila, e minha afinidade com sua visão do mundo das comidas. É gente competente e séria, que não busca fama e status, mas realização. O sucesso é consequência.

The Slow Bakery

Lembro bem o dia em que essa admiração ultrapassou os pães e chegou às pessoas por trás dos fornos. Numa das edições da feira Junta Local no ano passado, fui à banca da padaria pra me abastecer e acabei engrenando uma conversa com Ludmila. Comentei que já era cliente na venda on-line fazia alguns meses e ela então perguntou meu nome. Quando respondi, ela dirigiu-se ao parceiro e disse: “Rafa, você não vai acreditar, essa é a Constance”. Das primeiras palavras dele não me recordo, pois, àquela altura, a timidez embotava minha compreensão. Mas consegui recuperá-la a tempo de ouvir o mais importante: “Olha, foi lendo seu blog que descobri os incríveis pães da Flávia Maculan. Pensei: ‘esse é o pão que eu quero fazer’. Entrei em contato com ela, que me recebeu em São Paulo, foi muito bacana.”

Naquele momento, entendi que tão grandes quanto os pães da The Slow Bakery são as pessoas que a comandam. Só os grandes são capazes de tamanha humildade. Essa impressão é reforçada em mim a cada visita desde que o café foi inaugurado. Além de comer bem, sempre aproveito pra observar o movimento da cozinha e trocar dois dedos de prosa com o casal.

The Slow Bakery

Digo tudo isso pra que fique claro pro leitor que não são meramente objetivos os motivos que me munem de paciência pra enfrentar as filas de espera e as falhas que ainda há no serviço – que ficam bastante evidentes nos horários de pico. Mas quem se dispuser a ir em frente, há de encontrar compensações. Compartilho aqui algumas delas.

No café da manhã, não abro mão do pão dourado na chapa e do ótimo pingado, que elevam o clássico de nossos desjejuns a outro patamar. Nos dias em que a fome é maior, vou além e acrescento ao pedido uma panelinha de ovo.

The Slow Bakery

The Slow Bakery

Os sanduíches da casa são deliciosos. Ostentam virtude rara nas mesas cariocas, a de unir excelentes pães a ingredientes igualmente excelentes nos recheios. No misto-quente, brilha o sabor do queijo meia cura da Mantiqueira, que reaparece no queijo-quente, onde ganha a companhia de um naco de parmesão da Mantiqueira. No Croque do Padeiro, ressurgem estes mesmos queijos: um no recheio, ao lado de presunto e delicado bechamel; o outro, gratinado, na finalização. Já o Italianinho traz mortadela, mostarda e rúcula entre duas fatias de uma tremenda focaccia.  

The Slow Bakery

The Slow Bakery

The Slow Bakery

Além do que já está no cardápio, há boas promessas de novidades. Tenho visto receitas sendo testadas, como os bolos feitos com fermento natural, em cujo aperfeiçoamento a equipe ainda está trabalhando. Ou o ótimo brioche, resultado de 48 horas de fermentação, que tive a chance de experimentar antes de ser colocado à venda.  O brioche, aliás, é base da mais nova criação em teste, que prestará homenagem a um ícone das lanchonetes cariocas, o joelho, tão negligenciado nos balcões da cidade.

The Slow Bakery

Por todas essas razões, sigo voltando a este belo lugar com que Ludmila e Rafael nos presentearam. Num cenário onde o sucesso é cada vez mais perseguido como fim em si mesmo, e não necessariamente resultado de trabalho e dedicação, é um alento contar com um mais um endereço onde há comida de verdade feita por gente de verdade, não por personagens.

The Slow Bakery – Rua São João Batista 93 – Botafogo

http://www.theslowbakery.com.br/

Quinta, 07 Julho 2016

O novo Oro: Felipe Bronze de volta em novo endereço

Restaurante Oro

Lembro com clareza a noite em que fui jantar pela primeira vez no Oro. Era novembro de 2010 e Felipe Bronze havia acabado de inaugurá-lo. Seu passado claudicante e polêmico inspirava receio geral. Cheguei ao restaurante sem grande expectativa e tive a surpresa de um ótimo jantar.

Há poucos dias, ao entrar na casa reinaugurada em abril em novo endereço, o sentimento era parecido, ainda que os motivos fossem de outra ordem. A circunstância atual do chef é bastante diferente daquela em que ele se encontrava seis anos atrás. Ao longo desse tempo, Bronze parece ter abalado a incredulidade de formadores de opinião e recuperado o respeito de seus pares. A ameaça à solidez do trabalho realizado nos últimos anos talvez assuma agora novos contornos. No comando de diversos programas de TV, ele ganhou status de celebridade, o que sempre me soa perigoso, não só pela superexposição em si, mas porque cozinheiros nesta condição tendem a passar mais tempo fora da cozinha do que dentro dela.

O fato é que, como naquela primeira visita em 2010, embora eu tenha chegado receosa quanto ao que encontraria, fui novamente surpreendida com uma bela refeição. 

Oro Felipe Bronze

É possível vislumbrar sinais de amadurecimento no novo Oro, que aparentemente vai se despindo de alguns excessos. Não apenas o cardápio é mais enxuto, mas também foi abolida em boa hora a teatralidade do manejo do nitrogênio líquido no salão, técnica explorada em alguns preparos da casa.

Seguindo a mesma toada, a cozinha também parece refletir certa depuração. A abordagem lúdica permanece, especialmente na primeira etapa da refeição, os snacks. Mas fica a impressão de que a concepção dos pratos começa a deixar de lado elementos supérfluos, desnecessários.

Restaurante Oro

Delicadeza, equilíbrio e sabor deram o tom em quase todos os pequenos bocados servidos como snacks. Achei especialmente bons o crocante de lulas com aïoli, o dim sum de rabada, a tapioca de pastrami e o incontornável Cervantes, sanduíche de brioche no vapor com costelinha de porco empanada.

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Entre os pratos principais propostos no dia em que estive lá (o cardápio muda periodicamente), houve alguns deslizes, mas eram todos muito saborosos. O cherne com pó de azedinha, acompanhado de batata baroa em várias texturas, tinha ponto perfeito. Já o ponto do polvo, que contracenava com creme de amêndoas, estava além do ideal. O mesmo se diga da costela, que tinha o interior úmido, mas as bordas algo ressecadas.

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Melhor prato do almoço, o arroz meloso de favas, com caldo intenso, rico em colágeno, escondendo entre os grãos uma gema de ovo curada, estava delicioso – eu dispensaria apenas o pó de pipoca na borda do prato. 

Oro Felipe Bronze

Na sobremesa Via Láctea, senti falta do equilíbrio presente até então. O sorvete – que o cardápio anunciava ser de leite queimado, mas a equipe informou ser de queijo feta – não tinha qualquer traço de doçura e seu sabor não me pareceu dialogar com o ótimo doce de leite, que, disposto em farta quantidade, prevalecia sobre tudo mais.  

Oro Felipe Bronze

Na Tudo Chocolate, aconteceu o oposto: o destaque era justamente o sorvete, feito de chocolate branco – que, segundo me disse um dos cozinheiros, passa previamente pela brasa.

Oro Felipe Bronze

Acompanhando o café, uma seleção de guloseimas que é diversão garantida: brigadeiros, quindins, churros, cocada nitrocongelada e marshmallows de paçoca.

Oro Felipe Bronze

A julgar pela refeição que me proporcionou, eu diria que o Oro voltou mais bem resolvido, mais maduro. Resta saber se seguirá depurando. O tempo dirá se Bronze conseguirá administrar com sabedoria os desafios que a fama televisiva pode lhe trazer. Mas, como ele mesmo me disse numa entrevista anos atrás, trata-se de um cozinheiro que precisa se alimentar de desafios e talvez só consiga se reinventar na corda bamba.

 

Oro Restaurante – Av. General San Martin 889 – Leblon

http://www.ororestaurante.com.br/

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