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Quinta, 07 Julho 2016

O novo Oro: Felipe Bronze de volta em novo endereço

Restaurante Oro

Lembro com clareza a noite em que fui jantar pela primeira vez no Oro. Era novembro de 2010 e Felipe Bronze havia acabado de inaugurá-lo. Seu passado claudicante e polêmico inspirava receio geral. Cheguei ao restaurante sem grande expectativa e tive a surpresa de um ótimo jantar.

Há poucos dias, ao entrar na casa reinaugurada em abril em novo endereço, o sentimento era parecido, ainda que os motivos fossem de outra ordem. A circunstância atual do chef é bastante diferente daquela em que ele se encontrava seis anos atrás. Ao longo desse tempo, Bronze parece ter abalado a incredulidade de formadores de opinião e recuperado o respeito de seus pares. A ameaça à solidez do trabalho realizado nos últimos anos talvez assuma agora novos contornos. No comando de diversos programas de TV, ele ganhou status de celebridade, o que sempre me soa perigoso, não só pela superexposição em si, mas porque cozinheiros nesta condição tendem a passar mais tempo fora da cozinha do que dentro dela.

O fato é que, como naquela primeira visita em 2010, embora eu tenha chegado receosa quanto ao que encontraria, fui novamente surpreendida com uma bela refeição. 

Oro Felipe Bronze

É possível vislumbrar sinais de amadurecimento no novo Oro, que aparentemente vai se despindo de alguns excessos. Não apenas o cardápio é mais enxuto, mas também foi abolida em boa hora a teatralidade do manejo do nitrogênio líquido no salão, técnica explorada em alguns preparos da casa.

Seguindo a mesma toada, a cozinha também parece refletir certa depuração. A abordagem lúdica permanece, especialmente na primeira etapa da refeição, os snacks. Mas fica a impressão de que a concepção dos pratos começa a deixar de lado elementos supérfluos, desnecessários.

Restaurante Oro

Delicadeza, equilíbrio e sabor deram o tom em quase todos os pequenos bocados servidos como snacks. Achei especialmente bons o crocante de lulas com aïoli, o dim sum de rabada, a tapioca de pastrami e o incontornável Cervantes, sanduíche de brioche no vapor com costelinha de porco empanada.

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Entre os pratos principais propostos no dia em que estive lá (o cardápio muda periodicamente), houve alguns deslizes, mas eram todos muito saborosos. O cherne com pó de azedinha, acompanhado de batata baroa em várias texturas, tinha ponto perfeito. Já o ponto do polvo, que contracenava com creme de amêndoas, estava além do ideal. O mesmo se diga da costela, que tinha o interior úmido, mas as bordas algo ressecadas.

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Oro Felipe Bronze

Melhor prato do almoço, o arroz meloso de favas, com caldo intenso, rico em colágeno, escondendo entre os grãos uma gema de ovo curada, estava delicioso – eu dispensaria apenas o pó de pipoca na borda do prato. 

Oro Felipe Bronze

Na sobremesa Via Láctea, senti falta do equilíbrio presente até então. O sorvete – que o cardápio anunciava ser de leite queimado, mas a equipe informou ser de queijo feta – não tinha qualquer traço de doçura e seu sabor não me pareceu dialogar com o ótimo doce de leite, que, disposto em farta quantidade, prevalecia sobre tudo mais.  

Oro Felipe Bronze

Na Tudo Chocolate, aconteceu o oposto: o destaque era justamente o sorvete, feito de chocolate branco – que, segundo me disse um dos cozinheiros, passa previamente pela brasa.

Oro Felipe Bronze

Acompanhando o café, uma seleção de guloseimas que é diversão garantida: brigadeiros, quindins, churros, cocada nitrocongelada e marshmallows de paçoca.

Oro Felipe Bronze

A julgar pela refeição que me proporcionou, eu diria que o Oro voltou mais bem resolvido, mais maduro. Resta saber se seguirá depurando. O tempo dirá se Bronze conseguirá administrar com sabedoria os desafios que a fama televisiva pode lhe trazer. Mas, como ele mesmo me disse numa entrevista anos atrás, trata-se de um cozinheiro que precisa se alimentar de desafios e talvez só consiga se reinventar na corda bamba.

 

Oro Restaurante – Av. General San Martin 889 – Leblon

http://www.ororestaurante.com.br/

Quinta, 31 Março 2016

The Slow Bakery e S.p.A Pane: finalmente, bons pães no Rio de Janeiro

The Slow Bakery

Na abertura de um dos episódios da ótima série Cooked, inspirada na obra de Michael Pollan, vê-se uma senhora marroquina acomodada no chão de sua sala a sovar o pão de cada dia, enquanto soam na tela suas palavras: “É impossível viver sem pão. O pão é o mesmo que a água. Você não pode viver sem água e não pode viver sem pão. Simplesmente não pode.”

Estou de acordo com ela. Pão é das coisas essenciais, dessas sem as quais não se pode viver. Falo de bom pão, não qualquer um. E aí reside o problema, ao menos pra quem mora no Rio de Janeiro, que nunca foi exatamente um celeiro de boas padarias.  

É claro que testemunhamos o surgimento de propostas interessantes ao longo dos últimos anos. Mas a cidade ainda nos devia um endereço verdadeiramente bom, que tivesse à frente gente disposta a entender a complexa simplicidade da panificação segundo a tradição milenar da fermentação natural; gente disposta ao constante aprendizado que se impõe a quem lida com um alimento vivo e deseja compreender suas transformações. 

Felizmente, o Rio tem hoje ao menos dois padeiros com essa disposição. Faz quase um ano que acompanho suas fornadas e o que posso dizer é que minha vida ficou melhor.

Da S.p.A Pane eu soube através de uma amiga, mais de um ano atrás. Conhecedora da minha insatisfação com a média da produção carioca, ela me alertou: “Descobri uma baguete muito boa na loja de conveniência de um posto Ipiranga na Lagoa”. Baguete boa num posto de gasolina? Desconfiei. Meses depois, resolvi conferir e me arrependi de não ter ido antes. A cena era inusitada: belos pães ostentavam suas crostas douradas num balcão onde disputavam atenção com lanches de gosto duvidoso – como manda o figurino nas lojas de conveniência. Na prateleira ao fundo, um cesto cheio delas, as baguetes. De fato, as melhores de que tenho notícia por aqui.

S.p.A Pane

Aos poucos, fui experimentando outros exemplares da linha de produção de Marcos Cerruti, o padeiro por trás da S.p.A Pane. Especialmente depois de inaugurado seu website, que disponibiliza a produção semanal para compra on-line. O de azeitonas, as baguetes, focaccias e ciabattas tornaram-se presença constante em minha mesa.

S.p.A Pane

S.p.A Pane

S.p.A Pane

Já a The Slow Bakery, comandada por Rafael Brito e Ludmila Espindola, eu descobri numa visita a uma das edições da feira Junta Local, em abril do ano passado. Não havia como não notar seus pães. Trouxe um deles pra casa, o Rio Sourdough, e celebrei a descoberta. Desde então, tenho feito encomendas semanalmente em sua loja virtual.  Além do Rio Sourdough, o de azeitonas, o de semola rimacinata e o de grãos germinados estão entre meus favoritos.

The Slow Bakery

The Slow Bakery

Há alguns meses, incluíram na linha de produção impecáveis ciabattas. É preciso falar também de sua focaccia: não conheço melhor no Rio. Não é vendida on-line, mas eventualmente é possível encontrá-la no novo endereço onde a padaria acaba de se instalar – que além do balcão, tem um pequeno café na entrada e ainda funciona como ponto de venda da Junta Local, expondo produtos de alguns parceiros da feira.

The Slow Bakery

The Slow Bakery

São dois trabalhos de estilos diferentes. Acho as crostas dos pães da S.p.A Pane mais crocantes e suas baguetes seguem imbatíveis. Já os da The Slow Bakery me parecem ter sabor mais rico e complexo e sinto neles mais claramente a presença da leve acidez decorrente da fermentação natural. É interessante e divertido experimentar, comparar, descobrir quais facetas mais me agradam em cada um delas. Eu, que reclamava da ausência de boas padarias na cidade, já não posso me queixar.

Que estes padeiros sejam inspiração pra que mais gente se dedique à panificação com a seriedade e o respeito que o ofício merece. Repito o que já disse aqui certa vez, renovando minha esperança de que os pães pálidos, frouxos e sem sabor que há tanto consumimos ganhem, cada vez mais, a concorrência de exemplares como esses. 

 

The Slow Bakery – Rua São João Batista 93 – Botafogo

http://www.theslowbakery.com.br/

S.p.A Pane – Av. Epitácio Pessoa 3666 – Lagoa (dentro do posto Ipiranga)

http://www.spapane.com/

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