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Sábado, 21 Janeiro 2017

Restaurante Roberta Sudbrack fecha as portas no Rio de Janeiro: o fim pode ser uma ponte?

Roberta Sudbrack fechamento

    “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.”

Carlos Drummond de Andrade

Trajetórias de restaurantes, assim como as nossas, são pontuadas por ciclos. E uma das coisas mais difíceis na vida é saber reconhecer o fim de um ciclo; buscar coragem para iniciar outro. Pessoas que anteveem o fim e fazem dele uma ponte, em geral, são aquelas que deixam uma marca. 

Esse foi um dos muitos pensamentos que me ocorreram quando soube do fechamento do Roberta Sudbrack. Primeiro achei que havia entendido errado. Depois, lamentei. Finalmente, compreendi a decisão da chef.

Um amigo muito querido, que tem com o universo das comidas uma relação de profundidade como a que procuro cultivar, me escreveu as seguintes linhas: “RS fechou. Que tristeza. (...) Lamento infinitamente. Escrevo para você, porque essa foi uma paixão que partilhamos. Que pena.” Realmente, uma pena. Ao longo de uma década, fiz muitas refeições ali, algumas delas inesquecíveis.

Tantas vezes me questionei por que tendia a gostar mais do RS do que de seus pares no Rio de Janeiro e em São Paulo. Tardei a encontrar resposta satisfatória. Porque não se trata puramente de uma questão de talento. O fato é que Roberta se debruça sobre a cozinha brasileira a partir de um olhar moderno, de uma abordagem inteligente, mas procura fazer isso sem abrir mão da conexão com a memória. Dessa forma, sempre garantiu que algo muito importante não se perdesse no caminho: o acolhimento.

Boa parte dos grandes chefs de hoje tem a preocupação de abordar a comida de forma provocativa, desafiadora. Sim, comida pode ser tudo isso e em alguns momentos é o que queremos mesmo que ela seja. O problema é quando isso se banaliza. Na maior parte das vezes em que me acomodo diante de uma mesa, não quero ser provocada ou desafiada, mas acolhida.

Não defendo que restaurantes se tornem museus de culinária. Não sou radical a ponto de achar que o acolhimento esteja unicamente na lenha que queima nos antigos fogões. Roberta é um exemplo de que é possível desenvolver linguagem própria e nova sem que a comida deixe de ostentar o que, pra mim, é atributo essencial: proporcionar conforto. O caldo restaurador, que está na origem do que chamamos de restaurante, já permitia vislumbrar nas refeições privadas servidas em lugares públicos esse poder de confortar, restabelecer, restaurar, enfim.

Se havia algo que me incomodava no RS (e que segue me incomodando em seus pares) era o fato de os preços praticados não me permitirem voltar mais vezes e evidenciarem como era pequeno o universo de pessoas que podiam acessar aquele prazer. Aliás, me incomoda muito que o grande artesanato culinário esteja cada vez mais cercado de uma ideia vazia de glamour e ligado a um conceito de exclusividade que não me parece razoável nos dias de hoje.

A julgar pelas palavras de Sudbrack em sua carta aberta no Facebook sobre os porquês do fechamento do RS, posso supor que esse incômodo, de alguma forma, também tenha alcançado a cozinheira. O que me faz compreender sua decisão e, mais que isso, alimentar a esperança de que ela ressurja ainda melhor.

Comentários:
em 21-01-2017
por: Julio Pimentel Pinto
Resumo perfeito. Traduziu tudo. Obrigado e beijo.
em 21-01-2017
por: Katia Albuquerque
Um ciclo se fecha e temos certeza de que o que for que a Chef se propor a criar será mais um presente para o Rio e para nós.
em 21-01-2017
por: Constance
Obrigada a você por estar por perto, Júlio.
em 25-01-2017
por: Andrei
Muito bem colocado.
em 25-01-2017
por: Cris del Corsso
Ótimo texto, Constance!
em 25-01-2017
por: Constance
Obrigada, Cris.
em 26-01-2017
por: Guto
Um conforto é ler seu texto e sair confiando que RS anteviu tudo isso...e, sim, vai ressurgir melhor e para mais gente. Abs.
em 04-02-2017
por: Maria das Graças
A comida era boa? Sim. Mas não justificava os altos preços cobrados. Estive lá uma única vez no almoço de sexta para entender o porque? E como não entendi não voltei.
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