Pra quem quiser me visitar....
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Terça, 04 Fevereiro 2014

A importância do bolo

“Por que você gosta tanto de sair pra comer bolo?” Volta e meia o marido me lança essa pergunta, diante do convite que lhe faço com mais frequência do que aconselharia minha nutricionista. Dia desses, pra responder à sua recorrente indagação, tomei emprestadas as palavras de Antonio Prata na crônica “Time is Honey”. Em poucas linhas, o cronista define minha relação com o bolo melhor do que eu jamais conseguiria fazer:

“Podem privatizar a telefonia, as estradas, as siderúrgicas. Mas não toquem no bolo! Ele não precisa de eficiência. Ele é o exemplo, talvez anacrônico, de um tempo que não é dinheiro. Um tempo íntimo, vagaroso, inútil, em que um momento pode ser vivido no presente, pelo que ele tem ali, e não como meio para, com o objetivo de.

Engana-se quem pensa que o bolo é um alimento. Nada disso. Alimento é carboidrato, é proteína, é vitamina, é o que a gente come para continuar em pé, para ir trabalhar e pagar as contas. Bolo não. É uma demonstração de carinho de uma pessoa a outra. É um mimo de avó. Um acontecimento inesperado que irrompe no meio da tarde, alardeando seu cheiro do forno para a casa, da casa para a rua e da rua para o mundo. É o que a gente come só para matar a vontade, para ficar feliz, é um elogio ao supérfluo, à graça, à alegria de estarmos vivos.”

Estou sempre em busca de exemplares que me inspirem essas pausas vagarosas, inúteis, sem outro fim que não o de celebrar a a vida. Compartilho aqui alguns dos que fizeram isso por mim nos últimos meses.

O bolo inglês com limão da Dona Laura Góes, da Pousada da Alcobaça. Companheiro de quase todas as xícaras de café que já tomei naquele lugar tão especial. Uma homenagem à simplicidade.

O delicioso bolo formigueiro do restaurante Volta, pelo qual desenvolvi especial apreço. O balcão de doces na entrada da casa é um convite a muitas pausas. Tem bolo de laranja e até o bom e velho bolo xadrez, mas o formigueiro é imbatível.

O bolo de laranja da amiga – e doceira de mão cheia – Lena Gasparetto. Não está à venda, mas a boa notícia é que a receita é compartilhada no blog dela. Lena consegue a proeza de fazer um bolo de laranja melhor do que aquele que minha avó fazia pra mim quando ainda tinha forças pra estar na cozinha.

O Bolo do Dia, em cartaz diariamente na Bel Trufas. Desde que o descobri, dificilmente atravesso duas semanas sem uma investida. Sempre fresco, traz várias camadas de ótima massa e outras tantas de recheio, cujos sabores variam constantemente. Imagine um daqueles irresistíveis bolos de aniversário numa versão ainda melhor, já que no lugar da pasta americana há uma bela ganache de chocolate amargo. Eu, que sempre procurei meios de fazer com que chegassem a mim os bolos de aniversários infantis sem ter que encarar as agruras das festinhas, encontrei a solução a poucas esquinas de casa.

E se omito a foto do bolo de aipim da minha mãe, merecedor de todas as loas, é porque publicá-la seria covardia com os outros bolos.

 

Segunda, 10 Junho 2013

Portugal: comida e memória

Não são poucos os brasileiros que já me confessaram falta de interesse em conhecer as mesas de Portugal. Não sabem o que perdem. Preciso reconhecer que, de fato, o cenário da restauração em Lisboa é mais restrito, se compararmos a cidade com outras capitais europeias mais festejadas. Mentiria se dissesse que não é. O visitante não vai encontrar ali oferta que se assemelhe à profusão de bares de tapas memoráveis e restaurantes de excelência que tem a Espanha. Nem algo como a ampla gama de brilhantes neobistrôs e padarias e confeitarias superlativas que há na França. Mas, afinal, não fui buscar Espanha ou França em Portugal.

Do balanço dos oito dias dessa minha última visita ao país, poderia tirar uma amostra de bons motivos a salvar da descrença os pouco convictos. As cores, a luz,  a poesia derramada e a capacidade de reinvenção de Lisboa, cidade pela qual me apaixonei novamente. Sim, cidades são como gente; jamais se revelam por inteiro, há sempre algo ainda por desvendar. E é nisso que reside a graça dos reencontros.

Lisboa

Lisboa

Lisboa

Lisboa

Lisboa

Lisboa

A beleza e a nostalgia que brotam em cada rua, em cada praça do Porto.

Porto

Porto

Porto

Porto

O exagero de natureza do Vale do Douro.

Vale do Douro

Vale do Douro

Vale do Douro

Vale do Douro

As boas mesas por onde andei, sobre as quais falarei aqui nos próximos dias. Lugares onde comi bem e quase sempre barato. Tão barato que não há como não pensar no quanto o Brasil anda ridiculamente caro.

Mas há mais que isso. Os brasileiros que, como eu, tenham sido criados na presença de tachos movidos por mãos portuguesas dificilmente passarão por aquele país sem se comover. A cada esquina, topamos ainda com referências desse Portugal de que nosso imaginário é impregnado desde criancinhas, pelo que diziam e faziam as avós, as bisavós. Eu, que levei minha mãe comigo nessa viagem, vivi isso com intensidade ao longo dos últimos dias. “Era assim mesmo que a minha avó fazia os carapaus”. “Era exatamente desse jeito que meu pai gostava do bacalhau.” “Olha o doce de tomate, igualzinho ao que preparava a vovó.” Foram oito dias ouvindo-a dizer coisas assim. E vislumbrando na comida a essencial conexão com a memória, com ainda mais força do que me havia acontecido na última visita ao país, anos atrás.

A embalar tudo isso, a acolhida de uma gente que não se encontra em outros cantos da Europa. Até hoje, jamais encontrei em outro povo no hemisfério norte o calor do povo português. Nem aquele irresistível jeito de falar, cheio de melodia e de diminutivos. “A menina quer provar uns carapauzinhos?” “Um queijinho de ovelha?” “Uns pastelinhos de bacalhau?” É absolutamente diferente de nos ofertarem uns carapaus, um queijo de ovelha, uns pastéis de bacalhau. Mas é preciso saber ouvir.

Vale do Douro

 

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