Pra quem quiser me visitar....
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Domingo, 14 Agosto 2016

Caricatura do Rio de Janeiro em reportagem sem profundidade no NYT: “The restaurant scene here can most charitably be described as ‘meh’”

Fiquei surpresa ao ler no New York Times o artigo intitulado  Rio’s Carnival for the Senses Ends at the Food Line. Ainda me pergunto como um jornal que aborda o que se passa nas cozinhas de Nova Iorque com tanta seriedade e tanta competência permitiu-se publicar reportagem tão rasa a respeito do cenário gastronômico no Rio de Janeiro.

Me sinto à vontade para criticar a pouca profundidade com que se abordou a questão porque jamais me abstive de fazer as críticas que a cidade merece nesse quesito. Preços extorsivos e serviço ineficiente estão entre elas. Não sou uma bairrista ingênua, sei que não ostentamos em cada esquina restaurantes com os atributos encontrados nas mesas de metrópoles como Barcelona, Paris ou Nova Iorque. Nem é preciso ir tão longe. Sou da opinião de que mesmo São Paulo está anos-luz à frente do Rio no que diz respeito a esta oferta. Contudo, isso não significa que sejamos tão desinteressantes como o NYT faz crer.

Fica a impressão de que o jornalista não empenhou um mínimo de tempo e boa vontade em se aprofundar no assunto sobre o qual discorre. É o que sugere o fato de dedicar grande parte do artigo a um minucioso relato do culto ao Biscoito Globo, que ele alça ao patamar de grande ícone de nossa cultura culinária, o que o leva a concluir que a falta de sabor da rosquinha seria uma tradução perfeita do que é nossa comida. Isso é tão reducionista quanto avaliar a cena gastronômica nos EUA a partir da adoração dos americanos por manteiga de amendoim. Ou imaginar que se pode definir o gosto dos nova-iorquinos a partir de sua paixão pelos black-and-white cookies ou da popularidade dos enjoativos cupcakes da famosa Magnolia Bakery.

Reducionismo é o que se vê também no comentário irônico em que contextualiza o restaurante de Rafa Costa e Silva, o Lasai, como "comida de inspiração basca". Será que ele esteve lá? Se esteve não deve ter experimentado a tapioca de rabada ou o bolo de fubá com sorvete de banana. Talvez não tenha entendido os muitos pratos produzidos com o que há de melhor nas hortas do chef e nas dos pequenos produtores que integram sua rede de fornecedores.

Não é difícil pensar em tantos outros lugares a respeito dos quais o repórter poderia ter pesquisado se, de fato, quisesse saber o que o Rio tem de bom a oferecer. E não é razoável o argumento de analisar sob a perspectiva dos não iniciados, que têm grandes chances de acabar matando sua fome em estabelecimentos de baixa qualidade. Afinal, isso também acontece com os incautos em cidades como Nova Iorque e Paris, onde os bons restaurantes são muitos, mas, ainda assim, menos numerosos que as centenas de endereços inexpressivos ou mesmo ruins.   

Para não ficar na abstração, exemplifico. Suponho que o jornalista não tenha experimentado os bolinhos de aipim, os bolinhos de feijoada ou a moqueca de banana-da-terra com palmito pupunha no Aconchego Carioca. Provavelmente não descobriu a The Slow Bakery, excelente padaria artesanal onde poderia ter provado um clássico do nosso café da manhã - o pão com manteiga dourado na chapa, acompanhado de café com leite - numa de suas melhores versões. Naturalmente, não passou pela loja Chocolate Q, onde poderia ter conhecido o trabalho de Samantha Aquim, que produz exclusivamente com cacau brasileiro chocolates que, em matéria de sabor, não perdem para as barras da celebrada Mast Brothers. Nem se interessou em experimentar os deliciosos sorvetes de frutas produzidos na Vero – caju, manga, abacaxi com cardamomo, banana com cumaru, para citar alguns.

A curiosidade não o teria levado ao restaurante de Roberta Sudbrack , onde a chef exibe um Brasil moderno e profundo, que não cede à armadilha do exotismo? Presumo que também não tenha estado no Olympe, cujo cardápio, ao lado das criações atuais de Thomas Troisgros, estampa a história de seu pai, o chef Claude Troisgros, um dos responsáveis por fazer com que os cariocas começassem a valorizar os produtos brasileiros.  Possivelmente não visitou o Oro, onde Felipe Bronze apresenta sua moderna cozinha brasileira, a partir de um olhar lúdico. 

Se tivesse feito isso, quem sabe pudesse ter oferecido ao leitor do Times um retrato menos caricato do Rio de Janeiro.

 

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Sábado, 30 Abril 2016

Oito anos

Abril foi um mês singular. Aqui em casa, adoecemos todos, um após o outro: o marido, o cão e, finalmente, eu. Quando o cansaço permitia, eu folheava os jornais apenas pra lembrar que o Brasil também adoeceu. Em meio ao caos nacional e pessoal, nem me dei conta de que o Pra Quem Quiser Me Visitar chegava a oito anos de existência no último dia 20. Somente agora o fato me veio à memória.

Ao longo destes oito anos, muitas vezes me questionei. Quando me recordo das mal traçadas linhas da primeira infância do blog, eventualmente me pergunto por que comecei a escrever, por que alguém tinha interesse em ler o que eu escrevia. Mais recentemente, por motivos de outra natureza, com alguma frequência tenho me perguntado por que continuar. Enquanto houver respostas possíveis, seguirei buscando.

Arrisco dizer que tenho crescido neste exercício, inclusive errando. O tempo me ensinou a ter mais dúvidas, menos certezas. Me levou a valorizar a essência e desconfiar da ostentação, do falso glamour. Desmistificar, enfim.

Sobretudo, o tempo me deu capacidade de entender que a fonte de onde acaso brotam a descrença e a vontade de parar é a mesma de onde ressurgem os motivos pra continuar: gente.

Se pude constatar que no ambiente da gastronomia, como em qualquer outro métier, vaidade e falta de ética alimentam barganhas tecidas nos bastidores, por outro lado, tive o privilégio de me enriquecer no encontro com pessoas sérias e comprometidas com seus ofícios, gente com quem muito venho aprendendo: blogueiros, jornalistas, sociólogos, professores, cozinheiros, agricultores e outros artesãos. Alinhavando tudo isso, há o prazer inestimável da troca constante com leitores queridos que me têm acompanhado nesta jornada. Através deste blog, vejam só, fiz até alguns valiosos amigos.

Oito anos depois de seu nascimento, o Pra Quem Quiser Me Visitar não poderia ser o mesmo. Naturalmente, também eu sou outra. Estranho seria se tudo continuasse igual. Mas, em todo balanço que fiz no decurso desta trajetória, cheguei sempre à mesma inexorável conclusão: o que de melhor o blog me trouxe foram as pessoas que colocou no meu caminho.

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