Pra quem quiser me visitar....
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Quarta, 15 Julho 2015

Além das nuvens

 

“Rende pro seu Instagram?”

 

A frequência com que essa pergunta surge em minha caixa de e-mails inspira reflexão. Me questiono como foi que chegamos a tal ponto: até a mais lúdica das redes sociais vivencia a agonia da espontaneidade e se torna território de barganhas, nem sempre declaradas, muitas vezes escamoteadas sob o verniz da opinião.

 

Meu antídoto contra a descrença é pensar que ainda existe espaço pra que coisas boas brotem de forma natural e autêntica nesses canais. Se, de um lado, as redes sociais se prestam à banalização das barganhas, de outro, ainda dão voz a uma série de pequenos produtores e empreendedores, que ali encontram oportunidade de trazer luz a suas iniciativas. Num rápido exercício de memória, relembro alguns que cruzaram meu caminho nos últimos meses. E isso me deixa menos descrente.

 

É o caso, por exemplo, da pizzaria Ferro e Farinha, um diminuto balcão no Catete, que me revelou as melhores pizzas que experimentei no Rio de Janeiro ultimamente. Uma amiga atenta farejou a novidade no Facebook e me alertou. Ao chegar ao endereço, a casa tinha pouco mais de um mês de vida. Fui sem referências, sem grandes expectativas. Quando escrevi aqui sobre as pizzas feitas pelo nova-iorquino Sei Shiroma, nada havia sido comentado ainda sobre seu trabalho na mídia carioca, impressa ou digital. Tive o prazer de reviver o sabor da surpresa num tempo em que tudo parece já estar dito.

 

Foram também as redes sociais que me iluminaram o caminho até os incríveis pães da paulistana Flávia Maculan. Um amigo querido, profundo conhecedor das boas coisas da vida, foi quem me fez chegar a ela no Instagram. A moça não tem loja, nem website. Mas, de foto em foto, vem apresentando a um número cada vez maior de pessoas alguns dos melhores pães feitos no Brasil.

 

Pelo Instagram cheguei à feira Junta Local, onde conheci os ótimos pães de fermentação natural da The Slow Bakery, que, desde então, frequentam minha mesa semanalmente. Também assim tenho acompanhado a produção da S.p.A Pane, onde encontrei as melhores baguetes de que tenho notícia no Rio de Janeiro. Dois produtores que me fizeram voltar a ter fé nas fornadas cariocas.

 

Por esse mesmo canal, descobri há alguns meses os produtos Yaguara, trabalho de uma família de artesãos à frente da fazenda Várzea da Onça, no agreste pernambucano. Semanas atrás, ao receber por Sedex uma bandeja do presunto cru produzido por eles – três anos de cura, uma beleza –, vi reinaugurado um sentimento quase esquecido: o velho entusiasmo na chegada da correspondência, coisa de uma época em que os Correios nos traziam mais do que apenas contas a pagar.

 

Sim, há esperança nas redes sociais. Como lembra Rubem Braga na crônica “A outra noite”, acima dessa noite preta e torpe em que vivemos há uma outra. Há que saber buscá-la além das nuvens.

 

Sábado, 21 Março 2015

A primeira edição brasileira do Guia Michelin: minhas impressões

Michelin Brazil

Sou crítica contumaz de boa parte dos prêmios de gastronomia, nacionais e internacionais. Por um simples motivo: são poucos os júris em que se imponha anonimato aos jurados ou em que haja ao menos a certificação de que, ainda que não circulem anonimamente, eles procedam com autonomia e isenção. Não acredito, porém, que o anonimato por si só seja capaz de garantir uma deliberação justa ou elogiável. A primeira edição do guia Michelin dedicada ao Brasil (que, no capítulo de restaurantes, limitou-se a duas cidades: Rio de Janeiro e São Paulo) está aí para provar que só anonimato não basta quando se trata de avaliar restaurantes.

Jamais me convenci de que os macarons distribuídos pelo famoso guia refletissem preponderantemente a qualidade da comida. Sempre tive a impressão de que a consideração de ambiente e conforto interfere na avaliação a ponto de deixar fora do radar dos inspetores lugares que, embora ostentem cozinhas notáveis, eventualmente não se revelem dignos de nota em outros quesitos.  A edição brasileira veio reforçar minha impressão.

Além disso, penso que uma equipe de inspetores formada apenas por estrangeiros tende a produzir resultados que não traduzam com precisão o que seja verdadeiramente relevante no panorama local. Só isso justifica que um guia dedicado ao Brasil não coloque em evidência trabalhos absolutamente fundamentais no cenário brasileiro, como o de Mara Salles no Tordesilhas ou o de Rodrigo Oliveira em seus dois restaurantes, Mocotó e Esquina Mocotó.

A falta de acuidade não se limita à decisão de quem deva ser agraciado com os famigerados macarons, mas está presente em diversos aspectos da seleção de restaurantes apresentada pelo guia. O que mais explicaria que o Jiquitaia fosse definido como uma cozinha com raízes no norte do país? E como legitimar uma seleção que contemple tantos restaurantes não mais que medíocres e nem sequer mencione lugares como Irajá ou Aconchego Carioca, só pra citar alguns exemplos?

O olhar dos inspetores do Michelin me parece cada vez mais ultrapassado. Faz tempo que deixei de tê-lo como referência crucial ao decidir onde comer fora do Brasil. Espero que o turista estrangeiro também não tome a edição brasileira como único norte quando se perguntar onde deva buscar o melhor da atual cena gastronômica do eixo Rio-São Paulo.

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