Pra quem quiser me visitar....
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  • O café da manhã da Pousada Capim Santo, em Trancoso
  • Esse Brasil que a gente deixa pra depois
  • The Slow Bakery, o café
  • Amazonas à mesa: Manaus e Novo Airão
  • Los Mellizos: churros e nostalgia em Montevidéu
  • O novo Oro: Felipe Bronze de volta em novo endereço
  • Mirante do Gavião, em Novo Airão: meu pouso na Amazônia
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Segunda, 20 Março 2017

“Redefinindo Sustentabilidade”: Parabere Forum chega à terceira edição debatendo a igualdade de gênero na gastronomia

Parabere Forum Barcelona

“Quero me apresentar porque não sou muito famosa: me chamo Antonia Klugmann, venho do nordeste da Itália.” A frase com que Antonia Klugmann, do restaurante L’Argine a Vencò, iniciou sua palestra na Universidade de Barcelona no último dia 05, de certa forma, traduz os muitos motivos que levaram um grande número de chefs, estudantes e jornalistas de diversas partes do mundo a estar ali naquele dia. E resume o espírito do Parabere Forum, que nasceu do inconformismo da jornalista Maria Canabal diante da desigualdade de gênero no cenário da gastronomia.

As palavras de Antonia antecipavam em muitos sentidos o que a plateia constataria nos dois dias de fórum. Ali os microfones estariam abertos a mulheres cujas vozes talvez não sejam tão frequentemente ouvidas nos congressos de gastronomia mais midiáticos. Num momento em que grande parte destes eventos vem se convertendo em palco pra um repetitivo exercício de vaidade e autorreferência, e onde muitas vezes se celebra a forma acima do conteúdo, é um alento participar de um fórum que não quer ser mais do mesmo.

Sem performances culinárias, o Parabere é um encontro em que se busca a reflexão sobre gastronomia através do debate de ideias, tendo como pano de fundo a busca por um mundo mais igualitário, onde homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades; onde o talento seja reconhecido para além das formas sob as quais se manifesta, como bem pontuou Canabal: “Se as mulheres representam 48% das turmas nas escolas de culinária e 39% nas bancadas de restaurantes, por que são apenas 18% entre os ocupantes de cargos de chefs de cozinha? Talento não tem gênero, mas infelizmente a sociedade está mais habituada a reconhecê-lo quando se manifesta sob formas masculinas.” 

Parabere Forum Maria Canabal

Parabere Forum

Parabere Forum

O tema desta terceira edição era a redefinição de sustentabilidade, discutida não apenas sob o viés ambiental, mas também sob os aspectos histórico, social e educacional.

Ouvimos testemunhos inspiradores como o de Margot Janse, que ao longo dos últimos anos esteve no comando do restaurante do hotel Le Quartier Français, em Franschhoek, na África do Sul. À frente da entidade beneficente Isabelo, tem alimentado centenas de crianças diariamente em sua cozinha e outras tantas através de refeições servidas nas escolas locais: “É muito mais do que alimentar crianças; trata-se de buscar o equilíbrio no lugar onde vivemos. Integridade é um pré-requisito para um futuro sustentável.”

Parabere Forum

A importância do viés educacional ecoou em falas como as de Nani Moré e Joshna Maharaj.

Moré, da associação catalã Menjadors Ecològics, fez um importante alerta: “Há cada vez menos produtores na Catalunha; hoje, 70% dos produtos que abastecem as cozinhas das casas e dos restaurantes catalães vêm de fora da região. Temos permitido que o alimento fresco e de qualidade seja tratado como algo elitista, mas a alimentação não pode virar mercadoria. Nossa associação trabalha junto a escolas, pois este é o espaço público onde as crianças estão para aprender. Podemos usá-lo para ensinar-lhes uma nova maneira de comer.”

Parabere Forum

A chef e ativista Joshna Maharaj discorreu sobre o trabalho que realiza junto a hospitais e universidades no Canadá: “Acredito que o acesso à boa comida é um direito humano básico. Há lugar em nossos pratos para beleza, nutrição, sabor e justiça. A comida nos hospitais canadenses é horrível. É como dizer ao paciente que ele não merece mais do que aquilo. Prega-se tanto a conexão entre o campo e os restaurantes. Por que não pensar na conexão produtor-paciente ou produtor-estudante? Forma-se uma relação quando um ser humano cozinha para outro, ainda que este outro esteja numa cama de hospital ou num refeitório de uma escola. A comida não pode ser desconectada do seu poder de cura e educação.”

Parabere Forum

A transformação social por meio da gastronomia emergiu em tantas outras palestras, a ampliar os parâmetros pelos quais se costuma analisar a questão da sustentabilidade. 

Roberta Siao e Nikandre Kopcke, idealizadoras do Mazi Mas, comentaram sua experiência no comando deste restaurante itinerante em Londres, em cuja cozinha reúnem imigrantes e refugiadas: “A falta de oportunidade para estas mulheres é um problema endêmico. Pensamos em dar a elas a oportunidade de ganhar dinheiro fazendo aquilo que faziam desde sempre: cozinhar. Não queremos gerenciar um restaurante, mas dar início a um ciclo. Hoje temos gente do Peru, do Irã, do Senegal,  da Nicarágua, do Nepal. Não se pode discutir sustentabilidade e pensar somente em meio ambiente. Precisamos pensar em inclusão.”

Parabere Forum

Parabere Forum

Inclusão foi também o mote da fala de Cristina Franchini, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados: “Vivemos hoje um deslocamento global que é o maior da história do planeta. É preciso lidar com essas pessoas que chegam destruídas, tendo deixado tudo pra trás. Alguns amigos, quando souberam que eu estaria no Parabere, me perguntaram que relação haveria entre um fórum de gastronomia e a questão dos refugiados. Pra mim, é muito claro. O Parabere é sobre igualdade, coesão, inclusão. É exatamente disso que precisam os refugiados no mundo neste momento. Um futuro sustentável só é possível se todos forem incluídos.”

Parabere Forum

Eu não poderia deixar de ressaltar o empenho de Maria Canabal em ter sempre no palco do Parabere uma palestrante do Brasil, desde a primeira edição. Temos conversado muito sobre isso ao longo dos anos e, nas duas últimas edições, tive o prazer de sugerir os nomes das convidadas brasileiras: Teresa Corção, em 2016, e Samantha Aquim, em 2017. Samantha falou ao público sobre sua vivência e seu aprendizado na criação do chocolate Q, produzido exclusivamente com amêndoas de cacau selecionadas no sul da Bahia: “É mais provável que as crianças brasileiras conectem o chocolate a vacas no pasto suíço do que às florestas brasileiras de onde vem o cacau. Não queria um chocolate com gosto de leite ou baunilha. Quero trazer a floresta para as pessoas. É difícil, mas a boa notícia é que é mais fácil educar o paladar das crianças do que o dos adultos. Por isso acredito num futuro pra esse chocolate.”

Parabere Forum

O fórum, aliás, tem em sua comissão uma representante permanente no Brasil, a chef Roberta Sudbrack, que foi a convidada na primeira edição, em 2015, e esteve presente este ano em uma mesa redonda, onde destacou a importância da reflexão ali proposta: “Vi o Parabere nascer em Bilbau, algo ainda muito pequeno. Hoje cheguei ao auditório e não havia lugar onde sentar. É a prova de que precisamos continuar. E espero encontrar cada vez mais homens aqui.”

Parabere Forum

O chef catalão Joan Roca, do restaurante El Celler de Can Roca, que encerrou o evento ao lado de Canabal, endossou a mensagem de Roberta e foi além: “Tenho a mesma quantidade de homens e mulheres em minha equipe e isso não foi proposital, aconteceu naturalmente. Mas existe uma desigualdade de gênero na gastronomia e precisa ser debatida. Espero que haja cada vez mais homens na plateia do Parabere. Mas espero mesmo é que cheguemos ao dia em que não seja preciso haver um fórum para discutir essa questão.”

Parabere Forum

Parabere Forum

Parabere Forum

O que se espera é que o exemplo de Joan Roca reverbere entre seus pares: que tomem parte neste debate, a fim de que, num futuro próximo, ele não seja mais necessário.

Parabere Forumwww.parabereforum.com

Sábado, 21 Janeiro 2017

Restaurante Roberta Sudbrack fecha as portas no Rio de Janeiro: o fim pode ser uma ponte?

Roberta Sudbrack fechamento

    “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.”

Carlos Drummond de Andrade

Trajetórias de restaurantes, assim como as nossas, são pontuadas por ciclos. E uma das coisas mais difíceis na vida é saber reconhecer o fim de um ciclo; buscar coragem para iniciar outro. Pessoas que anteveem o fim e fazem dele uma ponte, em geral, são aquelas que deixam uma marca. 

Esse foi um dos muitos pensamentos que me ocorreram quando soube do fechamento do Roberta Sudbrack. Primeiro achei que havia entendido errado. Depois, lamentei. Finalmente, compreendi a decisão da chef.

Um amigo muito querido, que tem com o universo das comidas uma relação de profundidade como a que procuro cultivar, me escreveu as seguintes linhas: “RS fechou. Que tristeza. (...) Lamento infinitamente. Escrevo para você, porque essa foi uma paixão que partilhamos. Que pena.” Realmente, uma pena. Ao longo de uma década, fiz muitas refeições ali, algumas delas inesquecíveis.

Tantas vezes me questionei por que tendia a gostar mais do RS do que de seus pares no Rio de Janeiro e em São Paulo. Tardei a encontrar resposta satisfatória. Porque não se trata puramente de uma questão de talento. O fato é que Roberta se debruça sobre a cozinha brasileira a partir de um olhar moderno, de uma abordagem inteligente, mas procura fazer isso sem abrir mão da conexão com a memória. Dessa forma, sempre garantiu que algo muito importante não se perdesse no caminho: o acolhimento.

Boa parte dos grandes chefs de hoje tem a preocupação de abordar a comida de forma provocativa, desafiadora. Sim, comida pode ser tudo isso e em alguns momentos é o que queremos mesmo que ela seja. O problema é quando isso se banaliza. Na maior parte das vezes em que me acomodo diante de uma mesa, não quero ser provocada ou desafiada, mas acolhida.

Não defendo que restaurantes se tornem museus de culinária. Não sou radical a ponto de achar que o acolhimento esteja unicamente na lenha que queima nos antigos fogões. Roberta é um exemplo de que é possível desenvolver linguagem própria e nova sem que a comida deixe de ostentar o que, pra mim, é atributo essencial: proporcionar conforto. O caldo restaurador, que está na origem do que chamamos de restaurante, já permitia vislumbrar nas refeições privadas servidas em lugares públicos esse poder de confortar, restabelecer, restaurar, enfim.

Se havia algo que me incomodava no RS (e que segue me incomodando em seus pares) era o fato de os preços praticados não me permitirem voltar mais vezes e evidenciarem como era pequeno o universo de pessoas que podiam acessar aquele prazer. Aliás, me incomoda muito que o grande artesanato culinário esteja cada vez mais cercado de uma ideia vazia de glamour e ligado a um conceito de exclusividade que não me parece razoável nos dias de hoje.

A julgar pelas palavras de Sudbrack em sua carta aberta no Facebook sobre os porquês do fechamento do RS, posso supor que esse incômodo, de alguma forma, também tenha alcançado a cozinheira. O que me faz compreender sua decisão e, mais que isso, alimentar a esperança de que ela ressurja ainda melhor.

Terça, 10 Janeiro 2017

A hora do chá no Le Meurice, em Paris

Le Meurice

“Aceita uma madeleine?” Foi a primeira coisa que ouvi (se não a primeira, a mais importante) ao me acomodar no salão do Le Dali, onde se conduz diariamente o ritual do chá da tarde no Meurice.

Recém-saídas do forno, estavam ainda quentes e o perfume de mel permitia antever o arrependimento que me tomaria em seguida. Ao consentir que a moderação prevalecesse sobre o desejo, comi apenas um exemplar daquela que se revelaria a melhor madeleine de que tenho notícia. Agora estou condenada a buscar eternamente a reprodução de um momento que, como se sabe, não se repetirá.

Le Meurice

Le Meurice

Minha tarde no Meurice, aliás, foi uma sucessão de bocados irrepetíveis – o que nem o mau gosto no projeto do salão (quase inacreditável, em se tratando de um dos hotéis mais icônicos de Paris) poderia comprometer. Evitei olhar pro teto e mantive os olhos na mesa, onde estava o que verdadeiramente importava.

Le Meurice

Le Meurice

O trabalho comandado pelo chef pâtissier Cédric Grolet é desses raros casos de quase perfeição. Em cada detalhe se vislumbravam sutileza, equilíbrio e precisão. Dos levíssimos sanduíches aos scones. Da torta de baunilha – massa crocante, recheio delicioso, creme suave – à impecável versão de Paris-Brest. Merece menção especial o cookie de chocolate com geleia de figo e pedaços de figos frescos.

Le Meurice

Le Meurice Cédric Grolet

Le Meurice Cédric Grolet

Le Meurice Cédric Grolet

A delicada sequência me rendeu uma daquelas lembranças persistentes, que suponho se cristalizem num setor da memória responsável por nos socorrer quando precisamos de conforto. Embora eu deva admitir que uma inquietação às vezes me assalta, trazendo de volta a pergunta que eu não soube calar como devia: “aceita uma madeleine?”.  

 

Le Meurice – 228 Rue de Rivoli – 1er

https://www.dorchestercollection.com/en/paris/le-meurice/restaurant-bars/le-dali/

Quinta, 08 Dezembro 2016

Lenha no fogão: comida e memória no sul de Minas Gerais

Fazenda São José da Vargem              

     “Eu diria que a cozinha é o útero da casa: lugar onde a vida cresce e o prazer acontece, quente...”

A frase de Rubem Alves soa como verdade absoluta nas casas mineiras. Ao menos naquelas que tive oportunidade de visitar no último fim de semana no sul do Estado.

A convite do CVB de São Lourenço, percorremos estradas que passam por Aiuruoca, Baependi, Serranos e São Vicente de Minas, numa incursão pelo universo de cozinheiras que, na invisibilidade de suas cozinhas, mantêm vivas as tradições da região. A louvável iniciativa me pareceu uma forma inteligente de promover o destino, trazendo à tona um de seus maiores monumentos, a culinária, elemento fundamental na compreensão desse gigante patrimônio cultural que é Minas Gerais.

O roteiro foi concebido por Juliana Venturelli*, cujo trabalho de conclusão de curso na pós-graduação em Memória Social na UniRio foi uma dissertação intitulada NARRATIVAS CULINÁRIAS E CADERNOS DE RECEITAS DO SUL DE MINAS: da memória oral à memória escrita.

O trabalho, que também deu origem a um livro para o qual Juliana ainda busca editora, surgiu de uma inquietação sua: “Eu buscava por um sentido anterior à glamourização da comida, algo em consonância com o que eu vivi nas cozinhas da minha infância. As imprecisões, a demora, a espontaneidade e o amor ao ofício.”

Lenha no Fogão Juliana Venturelli

Na beleza da imprecisão das cozinhas mineiras, Juliana reencontrou caminhos. Ao longo de dois dias intensos e inesquecíveis, ela nos conduziu por alguns deles. A seu lado, tivemos o privilégio de ser recebidos por moradores da região em suas casas, experiência que dificilmente teríamos por outros meios.

Juliana Venturelli

O percurso teve início na Fazenda São José da Vargem, em Baependi, onde as irmãs Marita e Miloca foram nossas anfitriãs. Marita, boa de prosa, nos contava histórias enquanto experimentávamos o farto almoço preparado por Miloca e seus ajudantes, servido no antigo depósito de mantimentos da propriedade. O casarão histórico onde a mais velha nasceu é hoje aberto a visitas de grupos, que são recebidos com um café colonial com todo tipo de quitandas que povoam os cadernos de receitas de Miloca.

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Nosso almoço começou com deliciosos pães de queijo. Em seguida, houve costela temperada com pinga e rapadura, aipim, couve manteiga, angu, tutu, linguiça e torresmos crocantes como biscoitos. Como manda a tradição, a refeição se encerrou com doces e compotas, café e rosquinhas de nata.

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Dali, seguimos pra Cruzília, terra de Juliana e da simpática Hilma, que nos recebeu em sua cozinha, onde nos mostrou o preparo das balas de coco que brilham nas festas de aniversários e casamentos na vizinhança. O trabalhoso processo, que demanda extrema habilidade, parece simples nas mãos de Hilma. Pudemos prová-las ainda mornas, com a textura mais elástica, que se modifica depois. Já secas, resultam balas daquelas que derretem na boca. Uma beleza.

Cruzília

Hilma Cruzília

Hilma Cruzília

O dia seguinte nos reservava experiências ainda mais tocantes.

O almoço oferecido na casa das irmãs Tininha e Terezinha, em Serranos, reuniu algumas das melhores cozinheiras da região. Lurdinha preparou um saboroso frango com leite (leite de verdade, gordo, com nata). Gracinha ficou encarregada do arroz e do feijão (a que acrescenta urucum, o que lhe confere um caldo dourado). Cida nos brindou com taioba refogada e um angu de brilho incomparável.

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Dona Sônia garantiu a sobremesa: doce de abóbora, feito com maestria, tal como lhe ensinaram a mãe e a avó. Os cubos de abóbora permanecem duas horas em cal virgem, formando-se uma pele, enquanto o interior se mantém macio e úmido. Minha memória me diz que é o melhor que já experimentei.

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

No fim da tarde, o destino era São Vicente de Minas. O jantar foi preparado pelo cozinheiro Dito, que comanda na cidade o restaurante Forno Quente. Como calhou de estar fora no dia em que lá estivemos, ele nos deixou um banquete pronto, que foi servido por suas vizinhas Isa e Renata, mãe e filha, que gentilmente nos acolheram em sua casa, uma bela construção histórica. Providenciaram café e broas de coco e de abóbora – não sei se é uma visão romântica, mas minha impressão é a de que, nas mesas mineiras, há sempre café e quitandas à espera de uma visita – e até mesmo um violeiro pra tocar pra nós.

são vicente de minas

são vicente de minas

Ao som da viola caipira, compartilhamos o saboroso jantar feito por Dito: creme de abóbora com carne seca e canjiquinha com costelinha.

são vicente de minas

As horas que passamos ali reforçaram minha convicção de que não há no Brasil povo que acolha como o mineiro. Difícil é ir embora. Como diria Guimarães Rosa, “despedir dá febre”.

 

*Juliana Venturelli guia grupos em visitas periódicas ao sul de Minas, em roteiro intitulado Lenha no Fogão. Os itinerários são cambiantes, não necessariamente idênticos ao que fiz, mas sempre voltados para os cozinheiros entrevistados por ela na pesquisa que deu lastro à sua dissertação. As próximas saídas em 2017 acontecerão de 19 a 22/01 e de 13 a 16/04. Para informações, entrar em contato através do e-mail juliana.saborciranda@gmail.com.

Quarta, 23 Novembro 2016

Padaria da Esquina, a nova casa de Vitor Sobral em São Paulo: minhas impressões

Padaria da Esquina

Não posso dizer que tenha gostado de tudo na Padaria da Esquina, novo empreendimento do chef português Vitor Sobral em São Paulo. Serviço de manobrista na entrada? Prateleiras repletas de cápsulas de café? São exemplos de coisas que eu não esperava encontrar numa padaria. Quanto ao que experimentei nas duas visitas que fiz, também nem tudo me agradou. As empadas, por exemplo, tinham massa pesada e recheio seco. O pudim Abade de Priscos era inexpressivo, em nada lembrava os bons exemplares que já comi em Portugal. Mas falemos daquilo de que gostei, do que me faria – provavelmente fará – voltar.

Há delicados bolos de arroz, deliciosos pastéis de nata.

Padaria da Esquina

Padaria da Esquina

E há, claro, os pães. A casa de Sobral não resistiria a uma comparação com o trabalho de uma nova geração de padeiros que nos têm brindado com sourdoughs exuberantes. Quem conhece a produção de Flavia Maculan, em São Paulo, ou da Slow Bakery, no Rio, sabe do que estou falando. A questão é que não creio que a Padaria da Esquina queira disputar esse lugar. Seu papel me parece outro: o de dar novo fôlego a pães menos complexos, mais rústicos, cascudos, clássicos do repertório português. Pães que ocupam um lugar no acervo afetivo de alguém que, como eu, cresceu numa cidade de forte herança lusitana e teve a infância embalada por avós e bisavós portugueses. Nesse sentido, o trabalho de Sobral talvez não tenha muitos rivais. Mesmo no Rio de Janeiro, onde há padarias e confeitarias centenárias, poucas ostentam fornadas dignas de nota.

Padaria da Esquina

O pão de caco (feito com batata doce) na chapa, com manteiga ou requeijão, ocupa o lugar desses pequenos prazeres cotidianos que às vezes se perdem em nossa incessante busca pelo extraordinário. Me remeteu ao tipo de pão que meu avô gostava de ter à mesa, acompanhando suas refeições.

Já o gostoso pão de Deus, com sua crosta de coco e açúcar, me fez lembrar a alegria com que minha mãe fala de seus tempos de criança, quando esperava ansiosa pela cesta com pãezinhos de coco, entregue semanalmente à sua porta. 

Padaria da Esquina

Padaria da Esquina

Nossos melhores padeiros de hoje, ainda que mereçam todos os elogios, talvez não me possam proporcionar o prazer específico de que falo aqui. Pelo simples fato de que seus sourdoughs exuberantes não estiveram presentes na minha infância; são muito recentes em minha história. Portanto, não poderiam povoar essa memória a cujo conforto necessitamos recorrer em certos momentos – em geral, quando o caminho se torna acidentado e é preciso usar a imaginação pra tornar a jornada mais leve.

 

Padaria da Esquina – Alameda Campinas 1630

http://padariadaesquina.com/

Segunda, 14 Novembro 2016

Berlim, de bocado em bocado

Berlim

Cheguei a Berlim sem grandes expectativas e com reserva em apenas um restaurante. Não tive tempo nem disposição pra planejar a viagem como gostaria. Talvez exatamente por isso tenham sido tão leves e felizes os dias que passei ali. O fato de não haver muitos planos engessando minha curta temporada na cidade abriu espaço pra algo que raramente me permito quando visito um lugar pela primeira vez: liberdade absoluta. Caminhar sem obrigações, descobrir a cidade ao sabor dos desejos do dia. A escolha de onde comer  seria ditada pela geografia do roteiro

Obrigatório mesmo só o primeiro café pela manhã na The Barn Coffee Roasters – na companhia de pães de canela, cookies ou uma fatia de bolo de cenoura, todos ótimos.

The Barn Coffee Roasters

The Barn Coffee Roasters

The Barn Coffee Roasters

Dependendo do rumo que tomássemos depois disso, havia ainda uma parada pra um delicioso apfel-zimt schnecke (pão de maçã com canela) na padaria Zeit Für Brot.  

Zeit Für Brot

Zeit Für Brot

Zeit Für Brot

Na tarde de domingo no mercado de pulgas do Mauerpark, fizemos como os locais: nos acomodamos no biergarten pra saborear despretensiosamente uma porção de currywurst, sob a poética luz da transição entre verão e outono.

Mauerpark

Mauerpark

Mauerpark

Se o dia nos levasse a um passeio no Tiergarten, ao fim do percurso, estávamos a uma breve caminhada da KaDeWe – que seria apenas mais uma entediante loja de departamentos, não fosse por seu maravilhoso food hall no último andar. A variedade de opções no balcão de salsichas e linguiças é capaz de deixar um estrangeiro em transe. Experimentei duas delas e gostei especialmente da Krainer Wurst, que não é alemã, mas eslovena. Os acompanhamentos, chucrute e salada de batata, eram saborosos e delicados. Como não bastasse, dali seguimos pra outro balcão, onde fomos ao encontro de um crocante Wiener Schnitzel.

Tiergarten

KaDeWe

KaDeWe

KaDeWe

KaDeWe

Se a tarde se encerrasse às margens do Landwehr, bucólico canal paralelo ao rio Spree, convinha antes uma pausa pra tomar um café no Five Elephant Coffee, de onde não se pode sair sem experimentar uma fatia de seu cheesecake, que faz jus à fama que tem.

Landwehr

Five Elephant

Five Elephant

Five Elephant

A flanar por Kreuzberg, era inevitável uma parada no Markthalle Neun, dos melhores programas a nos socorrer quando a fome nos alcançasse naquelas paragens. O mercado mantém o ambiente de galpão antigo, sem apelar pra manobras estéticas que lhe pudessem tirar a verdade em nome da modernidade. Às quintas-feiras acontece o festival de comida de rua, mas, como minha passagem pela capital alemã não calhou de coincidir com uma noite de quinta-feira, estive ali numa tarde no meio da semana, quando os corredores ficam pouco movimentados – o que não é mau pra alguém que, como eu, não seja afeito a multidões.

Markthalle Neun

Markthalle Neun

Comprei uma cerveja no bar e segui pra Kumpel & Keule, templo de carnes e embutidos, onde servem algumas das salsichas expostas na vitrine, além de um hambúrguer tão simples quanto gostoso: carne saborosa, folhas frescas, bacon defumado no próprio mercado. Quando os ingredientes são bons assim, não é preciso muito mais.

Markthalle Neun

Markthalle Neun

Markthalle Neun

Markthalle Neun

A atmosfera do mercado, em alguma medida, soou como uma síntese das impressões que Berlim deixou em mim: uma cidade que me transmitiu a sensação de raro equilíbrio entre memória e modernidade, artesanato e tecnologia, metrópole e cidade do interior. Só penso em voltar.

The Barn Coffee Roasters – Schönhauser Allee 8 / Também na Auguststraße 58

 http://barn.bigcartel.com/

Zeit Für Brot – Alte Schönhauser Straße 4

http://www.zeitfuerbrot.com/

KaDeWe – Tauentzienstraße 21-24

http://www.kadewe.de/en/home_english/

Five Elephant Coffee – Reichenberger Straße 101

http://www.fiveelephant.com/

Markthalle Neun – Eisenbahnstraße 42-43

https://markthalleneun.de/

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