Pra quem quiser me visitar....
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Sábado, 30 Abril 2016

Oito anos

Abril foi um mês singular. Aqui em casa, adoecemos todos, um após o outro: o marido, o cão e, finalmente, eu. Quando o cansaço permitia, eu folheava os jornais apenas pra lembrar que o Brasil também adoeceu. Em meio ao caos nacional e pessoal, nem me dei conta de que o Pra Quem Quiser Me Visitar chegava a oito anos de existência no último dia 20. Somente agora o fato me veio à memória.

Ao longo destes oito anos, muitas vezes me questionei. Quando me recordo das mal traçadas linhas da primeira infância do blog, eventualmente me pergunto por que comecei a escrever, por que alguém tinha interesse em ler o que eu escrevia. Mais recentemente, por motivos de outra natureza, com alguma frequência tenho me perguntado por que continuar. Enquanto houver respostas possíveis, seguirei buscando.

Arrisco dizer que tenho crescido neste exercício, inclusive errando. O tempo me ensinou a ter mais dúvidas, menos certezas. Me levou a valorizar a essência e desconfiar da ostentação, do falso glamour. Desmistificar, enfim.

Sobretudo, o tempo me deu capacidade de entender que a fonte de onde acaso brotam a descrença e a vontade de parar é a mesma de onde ressurgem os motivos pra continuar: gente.

Se pude constatar que no ambiente da gastronomia, como em qualquer outro métier, vaidade e falta de ética alimentam barganhas tecidas nos bastidores, por outro lado, tive o privilégio de me enriquecer no encontro com pessoas sérias e comprometidas com seus ofícios, gente com quem muito venho aprendendo: blogueiros, jornalistas, sociólogos, professores, cozinheiros, agricultores e outros artesãos. Alinhavando tudo isso, há o prazer inestimável da troca constante com leitores queridos que me têm acompanhado nesta jornada. Através deste blog, vejam só, fiz até alguns valiosos amigos.

Oito anos depois de seu nascimento, o Pra Quem Quiser Me Visitar não poderia ser o mesmo. Naturalmente, também eu sou outra. Estranho seria se tudo continuasse igual. Mas, em todo balanço que fiz no decurso desta trajetória, cheguei sempre à mesma inexorável conclusão: o que de melhor o blog me trouxe foram as pessoas que colocou no meu caminho.

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Quinta, 31 Março 2016

The Slow Bakery e S.p.A Pane: finalmente, bons pães no Rio de Janeiro

The Slow Bakery

Na abertura de um dos episódios da ótima série Cooked, inspirada na obra de Michael Pollan, vê-se uma senhora marroquina acomodada no chão de sua sala a sovar o pão de cada dia, enquanto soam na tela suas palavras: “É impossível viver sem pão. O pão é o mesmo que a água. Você não pode viver sem água e não pode viver sem pão. Simplesmente não pode.”

Estou de acordo com ela. Pão é das coisas essenciais, dessas sem as quais não se pode viver. Falo de bom pão, não qualquer um. E aí reside o problema, ao menos pra quem mora no Rio de Janeiro, que nunca foi exatamente um celeiro de boas padarias.  

É claro que testemunhamos o surgimento de propostas interessantes ao longo dos últimos anos. Mas a cidade ainda nos devia um endereço verdadeiramente bom, que tivesse à frente gente disposta a entender a complexa simplicidade da panificação segundo a tradição milenar da fermentação natural; gente disposta ao constante aprendizado que se impõe a quem lida com um alimento vivo e deseja compreender suas transformações. 

Felizmente, o Rio tem hoje ao menos dois padeiros com essa disposição. Faz quase um ano que acompanho suas fornadas e o que posso dizer é que minha vida ficou melhor.

Da S.p.A Pane eu soube através de uma amiga, mais de um ano atrás. Conhecedora da minha insatisfação com a média da produção carioca, ela me alertou: “Descobri uma baguete muito boa na loja de conveniência de um posto Ipiranga na Lagoa”. Baguete boa num posto de gasolina? Desconfiei. Meses depois, resolvi conferir e me arrependi de não ter ido antes. A cena era inusitada: belos pães ostentavam suas crostas douradas num balcão onde disputavam atenção com lanches de gosto duvidoso – como manda o figurino nas lojas de conveniência. Na prateleira ao fundo, um cesto cheio delas, as baguetes. De fato, as melhores de que tenho notícia por aqui.

S.p.A Pane

Aos poucos, fui experimentando outros exemplares da linha de produção de Marcos Cerruti, o padeiro por trás da S.p.A Pane. Especialmente depois de inaugurado seu website, que disponibiliza a produção semanal para compra on-line. O de azeitonas, as baguetes, focaccias e ciabattas tornaram-se presença constante em minha mesa.

S.p.A Pane

S.p.A Pane

S.p.A Pane

Já a The Slow Bakery, comandada por Rafael Brito e Ludmila Espindola, eu descobri numa visita a uma das edições da feira Junta Local, em abril do ano passado. Não havia como não notar seus pães. Trouxe um deles pra casa, o Rio Sourdough, e celebrei a descoberta. Desde então, tenho feito encomendas semanalmente em sua loja virtual.  Além do Rio Sourdough, o de azeitonas, o de semola rimacinata e o de grãos germinados estão entre meus favoritos.

The Slow Bakery

The Slow Bakery

Há alguns meses, incluíram na linha de produção impecáveis ciabattas. É preciso falar também de sua focaccia: não conheço melhor no Rio. Não é vendida on-line, mas eventualmente é possível encontrá-la no novo endereço onde a padaria acaba de se instalar – que além do balcão, tem um pequeno café na entrada e ainda funciona como ponto de venda da Junta Local, expondo produtos de alguns parceiros da feira.

The Slow Bakery

The Slow Bakery

São dois trabalhos de estilos diferentes. Acho as crostas dos pães da S.p.A Pane mais crocantes e suas baguetes seguem imbatíveis. Já os da The Slow Bakery me parecem ter sabor mais rico e complexo e sinto neles mais claramente a presença da leve acidez decorrente da fermentação natural. É interessante e divertido experimentar, comparar, descobrir quais facetas mais me agradam em cada um delas. Eu, que reclamava da ausência de boas padarias na cidade, já não posso me queixar.

Que estes padeiros sejam inspiração pra que mais gente se dedique à panificação com a seriedade e o respeito que o ofício merece. Repito o que já disse aqui certa vez, renovando minha esperança de que os pães pálidos, frouxos e sem sabor que há tanto consumimos ganhem, cada vez mais, a concorrência de exemplares como esses. 

 

The Slow Bakery – Rua São João Batista 93 – Botafogo

http://www.theslowbakery.com.br/

S.p.A Pane – Av. Epitácio Pessoa 3666 – Lagoa (dentro do posto Ipiranga)

http://www.spapane.com/

Terça, 22 Março 2016

Mirante do Gavião, em Novo Airão: meu pouso na Amazônia

Mirante do Gavião

Não costumo falar sobre hotéis aqui. É tarefa que deixo pra jornalistas de turismo e especialistas nesta área porque evidentemente têm condições de cumpri-la segundo método e critério que eu jamais alcançaria.

Eventualmente me permito esboçar algumas linhas a respeito do assunto, apenas quando se trate de lugares que, mais do que cama e banho, me proporcionem uma experiência que mereça ser compartilhada, sobretudo se a proposta gastronômica trafegar acima da média da hotelaria nacional – afinal, é de comida que trata este blog. Por essa razão (e também a pedido de muitos leitores), decidi compartilhar minha estadia no Mirante do Gavião, na Amazônia, onde estive no mês passado.

O LUGAR

Mirante do Gavião

O pequeno hotel está localizado em Novo Airão, debruçado sobre o Rio Negro, próximo ao arquipélago de Anavilhanas. Apesar de não estar dentro da selva, o fato de ter apenas sete suítes me fez crer que haveria garantia de silêncio e isolamento – exatamente o que eu buscava ao fugir do carnaval carioca. Me enganei.

Nos inesquecíveis momentos que passei a bordo dos barcos do Mirante do Gavião, a navegar pelas águas do Negro, encontrei a quietude idealizada. Dentro do hotel, jamais. 

Amadorismo de minha parte ignorar o possível entusiasmo dos vizinhos de vilarejo durante o feriado. Se o mais próximo deles resolve expressar sua alegria ouvindo música ruim no mais elevado volume, do raiar do dia ao anoitecer, você será submetido a isso e não há nada a fazer. 

Mas a administração do estabelecimento tem lá sua dose de responsabilidade. Na área ocupada por restaurante e piscina, há trilha sonora durante grande parte do tempo e a seleção musical não me pareceu muito superior à do vizinho. É a síndrome da música ambiente, de que não se escapa nem no recolhimento da floresta.  

Não bastasse isso, a questionável política de day use  praticada pela casa foi golpe mortal no sossego que eu buscava, já que pode aumentar consideravelmente a  quantidade de pessoas transitando nas diminutas instalações.

Frustrada a fantasia de silêncio e contemplação, o que me restava era voltar a atenção ao que tinham de bom a oferecer. Não era pouco. 

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

A integração com o entorno e o bom gosto com que se conduziu o projeto são indiscutíveis e se revelam em todos os detalhes: na madeira de reflorestamento usada na belíssima construção; na vegetação que emoldura a propriedade; na escolha do mobiliário, que põe em evidência o artesanato local, especialmente o trabalho de marchetaria realizado por moradores da comunidade na Fundação Almerinda Malaquias.

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Devo dizer ainda que, se a opção por um ambiente mais discreto e de menores proporções não me rendeu isolamento, trouxe o benefício de lidar com uma equipe extremamente  acessível, sempre gentil e disposta a atender aos pedidos dos poucos hóspedes.

 

A PROGRAMAÇÃO

Amazônia

Pela breve comparação que fiz nas pesquisas que antecederam minha reserva, aparentemente não há grandes diferenças nas programações apresentadas pelos hotéis de selva naquela parte da Amazônia: visitas a comunidades ribeirinhas, trilhas leves na floresta, passeios por igapós ou praias de rio (dependendo da estação), focagem noturna da fauna etc. Programas que não vão além de um contato superficial com a natureza e a cultura do local, sem mergulhos mais profundos. Mas, ao fim e ao cabo, não há como ser pouco, já que se está em uma região onde tudo é naturalmente superlativo.

Amazônia

Saídas de barco com diferentes destinos e em diferentes horários – ao nascer do sol, durante o dia ou noite adentro – garantiam a dose diária de assombro diante da exuberância daquele cenário onde rio e mata atravessam quilômetros em inexorável comunhão.

Novo Airão

 

A COMIDA

Mirante do Gavião

Espero que os leitores não tenham desistido deste post no meio do caminho, antes de chegar ao que talvez mais lhes interesse: o que se come no Mirante do Gavião?

Embora as refeições estejam incluídas na diária, a casa não se rende ao serviço de bufê, que seria o caminho mais óbvio. Dá-se ao hóspede a prerrogativa de escolher o que comer a partir de um enxuto cardápio, que oferece boa variedade de peixes. 

Mirante do Gavião

A responsável pela concepção é a chef Debora Shornik (do restaurante paulistano Caxiri), que está de mudança de São Paulo pra Manaus. Mas quem se encarrega de comandar os fogões no dia a dia é a simpática Orlane, que me autorizou uma visita à cozinha (das mais limpas e organizadas em que já estive) e apresentou sua equipe. Responderam com honestidade a todas as minhas perguntas, o que me permitiu saber que não trabalham somente com pescadores locais, como se poderia imaginar, mas recebem muitos pescados trazidos de Manaus, que são então congelados – o que me faz supor que o problema da logística de fornecimento na pesca artesanal não se restrinja às grandes cidades.

Reincidi muitas vezes no prato mais simples da ementa, "Trivial Caboclo": peixe grelhado, baião, farofa de tucumã e vinagrete. A variação ficava por conta da escolha entre pirarucu, filhote, surubim ou tucunaré. Comida sem grandes atributos, mas benfeita.

Mirante do Gavião

Os melhores momentos à mesa se deveram ao delicioso café da manhã: pães produzidos diariamente, tapioca feita na hora, mingau, banana pacovã frita ou cozida, batata doce, sucos de fruta (maracujá, taperebá, graviola) bolos, geleias e uma compota de cupuaçu que não me sai da cabeça.

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Também entre os funcionários da cozinha, só encontrei pessoas amigáveis e disponíveis. Pedi que me trouxessem tucumã, pois gostaria de ver a fruta in natura. Trouxeram. No dia seguinte, curiosa sobre a azeitona, que ali nada tem a ver com o fruto da oliveira (mais parece jamelão), indaguei se dela faziam suco. Disseram que não tinham o hábito, que gostam mesmo é de comer com sal, mas se dispuseram a fazer pra que eu experimentasse. Na véspera de partir, não escondi meu desejo de comer tambaqui, que não havia no cardápio naquela semana. Pois arrumaram no dia seguinte e prepararam na brasa em meu almoço de despedida.

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Mirante do Gavião

Eis a última impressão que levei de minha hospedagem em Novo Airão: a entrega de uma gente sempre disposta a dar a melhor resposta a quem ouse perguntar.

 

Mirante do Gavião – Rua Francisco Cardoso, s/n –  Bairro Nsa Sra Auxiliadora, Novo Airão – Amazonas

www.mirantedogaviao.com.br

 

 

Quarta, 02 Março 2016

Esse Brasil que a gente deixa pra depois

Novo Airão

[...] ainda há um Brasil bom que a gente desperdiça de bobagem, um Brasil que a gente deixa para depois, e entretanto parece que vai acabando; [...]. Só de repente a gente se lembra de que esse Brasil ainda existe, o Brasil ainda funciona a lenha e lombo de burro, as noites do Brasil são pretas com assombração, dizem que ainda tem até luar no sertão, até capivara e suçuarana – não, eu não sou contra o progresso ('o progresso é natural') mas uma garrafinha de refrigerante americano não é capaz de ser como um refresco de maracujá feito de fruta mesmo – o Brasil ainda tem safras e estações, vazantes e piracemas com manjuba frita, e a lua nova continua sendo o tempo de cortar iba de bambu para pescar piau. (Rubem Braga, Crônicas do Espírito Santo, p.12)

Perdoem se este blog lhes impinge Rubem Braga uma vez mais. Não, não pretendo fazer deste espaço um enfadonho exercício de citações. Se recorro novamente ao cronista, isso se dá por duas razões.

Primeiro porque Braga é companhia constante na minha vida; voz que, de certa forma, interiorizei. Sinto-o quase como um amigo, possivelmente porque suas palavras me ajudem como poucas na difícil tarefa de traduzir o mundo.

Segundo porque é recorrente essa estupefação diante dos rincões do Brasil por onde ando. “Por que atravessei anos deixando pra depois?” “Quanto desperdício não ter conhecido antes este lugar.” Foi exatamente o que senti nos dias que passei em Novo Airão, na Amazônia. Mesmo se não tive a chance de ir além da experiência rasa que tem o turista comum que se hospeda em qualquer dos hotéis de selva da região, tudo era impregnado desse Brasil que às vezes a gente esquece que ainda existe.

Novo Airão

A profunda comunhão do rio com a floresta. As noites que pareciam inventar diariamente novas estrelas. O silêncio de uma solidão ainda possível. O navegar quase sem ver gente – e quando havia gente, era de uma simplicidade rara. O tanto que a terra e as águas nos deram de comer. Graviola, cupuaçu, taperebá, tucumã e até azeitona, que ali não é o fruto da oliveira, mas algo muito diferente.  Tambaqui, matrinxã, pirarucu, tucunaré, sempre na companhia de banana pacovã. E, claro, amalgamando cada refeição, muita farinha de Uarini – que eu ouvia chamar carinhosamente de farinha ovinha e achava tão poético, mas, depois de tomar algumas broncas por lá, está entendido, é farinha de Uarini e não se fala mais nisso.

Novo Airão

Rio Negro

Novo Airão

Comunidade Tiririca

tucumã

Em breve, conto dos restaurantes que visitei e talvez do hotel onde estive hospedada, já que muitos leitores e seguidores me perguntaram sobre hospedagem na região. Por ora, o que eu queria era dizer desse país que a gente não deve desperdiçar, não deve deixar pra depois.

 

Quarta, 24 Fevereiro 2016

Los Mellizos: churros e nostalgia em Montevidéu

Parque Rodo

Imagino quanto se tenha modificado a capital uruguaia desde que Jorge Luis Borges escreveu o poema Montevidéu. Mas, de alguma forma, na atmosfera de suas ruas e no gestual de seu povo ainda é possível vislumbrar a "porta falsa no tempo", a tal cidade que mira o passado a que o escritor argentino se referiu. Ela se revela nas tantas casas de muros baixos que persistem, nas crianças brincando em seus cavalinhos de pau à beira-rio, nas cabeças brancas no comando de fornos e parrillas. Isso me pareceu ainda mais palpável diante da roda-gigante do Parque Rodó, um parque de diversões à moda antiga, que debruça sua nostalgia no rio-mar.

Parque Rodo

A poucos passos da extemporânea roda, um quiosque de churros sublinhava aquele sentimento. Churros Los Mellizos, dizia o letreiro. Os que me haviam sido recomendados eram vendidos noutra banca, logo adiante. No entanto, ao perceber a maestria com que o dono do lugar manejava a fritadeira, eu soube que era ali que devia depositar meu desejo: "una docena, por favor". Chegaram finos, sequinhos, crocantes, polvilhados com açúcar e canela. Não me recordo de já ter comido melhores.  

Churros Los Mellizos

Churros Los Mellizos

A felicidade infantil com que os devorei em meio ao burburinho do parque me remeteu às predileções dos tempos de menina. Quis acreditar que uma fagulha da inocência perdida em tantas cidades insiste em sobreviver em Montevidéu.  

Parque Rodo

Churros Los Mellizos – Av. José Requena y García – Parque Rodó

 

Quinta, 28 Janeiro 2016

El Garzon: o refúgio uruguaio de Francis Mallmann

Restaurante Garzón

Ao olhar os preços no cardápio do El Garzon, é possível que você tenha vontade de ir embora. Se conseguir abstrair as cifras, há de encontrar bons motivos pra não se arrepender de ter ficado.

Restaurante Garzón

Na praça central de Pueblo Garzón, lugarejo perdido no tempo, Francis Mallmann arquitetou um restaurante de atmosfera única, cuja essência se descortina nos detalhes: a música, os arranjos de flores, o desenho peculiar dos bancos, os limões sobre as mesas, as parreiras no quintal.

Restaurante Garzón

Restaurante Garzón

Restaurante Garzón

Restaurante Garzón

Mais que elemento de ambientação, as toras de madeira empilhadas na entrada da casa simbolizam uma escolha. A decisão de banir da cozinha o gás propano e fazer da lenha seu único combustível traduz a filosofia deste cozinheiro pra quem o fogo, segundo suas próprias palavras, é fera onipresente em sua alma.    

Cultuado dentro e fora de sua terra natal, o argentino é especialista em algo a que muitos cozinheiros de renome internacional deixaram de se dedicar: fazer comida que nos inspire vontade de comer. Em muitos dos restaurantes celebrados na atualidade, o que está em questão, mais do que o alimento e seus significados, é a vaidade do chef. Suas bancadas tornaram-se palco de cansativo exercício de autorreferência. Mallmann me parece contrariar essa lógica. Não acho que ele seja menos vaidoso do que qualquer outra celebridade da gastronomia. Mas quando está diante do fogo, sabe ser instrumento, colocar-se a serviço da comida.

A ementa do El Garzon reafirmou minha impressão.

A pizza a la brasa, coberta com lascas de pecorino, folhas de rúcula, azeitonas negras e nacos de laranja chamuscada foi das coisas mais gostosas que comi em 2015. O contraste entre a doçura e o queimado nas laranjas exaltava as dissonâncias que o chef explora com tremendo equilíbrio.

Restaurante Garzón

A merluza com vegetais a la plancha tinha ponto perfeito. Nos sabores da gremolata, novamente equilíbrio e delicadeza. 

Restaurante Garzón

Se a milanesa foi a mais cara da minha vida, foi também a melhor de que me recordo. Carne rosada e suculenta sob a crosta que era quase um biscoito.

Restaurante Garzón

As frutas chamuscadas acompanhadas de mascarpone encerraram a refeição como um sopro na tarde de verão.

Restaurante Garzón

Vejo em Mallmann um cozinheiro que não reduz seu ofício a mera ferramenta de autopromoção nem faz dele puro exercício intelectual. Sua cozinha é, acima de tudo, uma celebração dos sentidos. Por isso mesmo, um tipo de chef cada vez mais raro entre seus pares.

 

El Garzon Hotel & Restaurante - www.restaurantegarzon.com

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